terça-feira, 15 de setembro de 2026

Talvez o post seja longo...

 ... mas o assunto é sério.

João Miguel Tavares defende hoje, no Público, a tese com que titula a sua crónica: "A violência israelita está a desproteger os judeus no mundo".

É a tese da esquerda israelita que detesta o actual governo de Israel, amplamente alinhada com a propaganda do Hamas.

Partindo do princípio de que não é simples sinalização de virtude, vale a pena olhar para o texto escrito, ponto por ponto, mesmo deixando de lado alguns pontos, por economia de argumentação.

"O governo de Benjamin Netanyahu entrou numa absurda espiral de violência, quer em Gaza quer na Cisjordânia, que já não tem qualquer justificação moral".

Comecemos por parafrasear Guterres: a violência israelita não nasceu do vácuo, nem parece ter grande coisa de específico neste momento, desde que Israel foi invadido pelos seus cinco vizinhos árabes, com apoio da Liga Árabe, no dia seguinte à criação do Estado de Israel, que os que sempre se opuseram a um Estado judeu repetem esta acusação de violência imoral (na verdade, a acusação é anterior à criação do Estado de Israel, no tempo da guerra civil larvar que se tentou resolver com a criação de dois Estados, solução sempre rejeitada pelos inimigos do Estado de Israel e defensores de um Estado árabe "from the river to the sea", já essa acusação era usada).

Mesmo quando Israel retirou unilateralmente de Gaza e o Estado de Israel, à força, obrigou os colonatos judeus de Gaza a serem desmantelados, não se ouviu ninguém dizer o contrário do que é dito, que a violência israelita tem uma base moral de legítima defesa.

"Esta brutalidade descontrolada" é a afirmação seguinte, naturalmente sem qualquer facto que demonstre a existência de brutalidade descontrolada, apesar das evidências da existência de avisos, da política de deslocação voluntária das populações civis (contrariada, a tiro, pelo Hamas, que disparava sobre o seu povo para o impedir de se proteger fugindo das zonas de conflito) e de uma cautela extrema na contenção dos danos colaterais em civis (das setenta mil a oitenta mil mortes palestinianas do conflito de Gaza, cerca de 50 mil são combatentes a cujas famílias o Hamas pagou pensões de sangue, uma proporção entre civis e combatentes mortos que não se encontra em mais nenhuma guerra, menos ainda nas que são travadas em contextos urbanos densamente povoados, com os combatentes a usar os civis como escudos humanos, como é o caso).

"alimenta sentimentos anti-semitas", é uma frase extraordinariamente antissemita, é uma frase que atribui a responsabilidade pelo antissemitismo aos maus governos judeus, o antissemitismo passa a ser resultado da perfídia dos judeus, e não dos antissemitas, absolvidos pelo julgamento moral da acção do governo democrático de Israel.

"A impiedade do governo radical de Netanyahu desrespeita a memória do holocausto e desprotege todos os judeus que vivem fora de Israel", diz João Miguel Tavares com o mesmo impudor, é o governo livremente escolhido pelos israelitas (que inclui 20% de população árabe, não judia, já agora) que desrespeita o holocausto e desprotege os judeus de todo o mundo, não são nem os terroristas que fazem atentados, nem os vândalos que atacam símbolos judaicos, nem mesmo o governo do Irão, que financia toda uma constelação de pessoas e organizações violentas, que fazem ataques em todo o mundo, que desprotegem os judeus, é mesmo o governo eleito de Israel que tem essa responsabilidade.

"uma fatia significativa da comunicação social a ignorar ostensivamente aquilo que se passa em Gaza e na Cisjordânia" é um dos sinais de erosão das liberdades cívicas em Israel, e não um sinal da vitalidade dessas liberdades cívicas, em que uns criticam o governo e outros não, mas todos escrevem o que entendem. João Miguel Tavares, aparentemente, fica muito incomodado por, em Israel, haver pluralidade de ponto de vista sobre o que se passa em Gaza e na Cisjordânia, em vez do jornalismo de rebanho português, em que apenas um ponto de vista está autorizado a entrar nas redacções.

"Na semana passada foi exibido em Veneza o documentário Naza ... Abraham e Szor falaram com 24 militares e ex-operacionais dos serviços secretos acerca da "fábrica de matar" em que se viram envolvidos", lembra João Miguel Tavares, sem lembrar que os autores do documentário são militantes políticos, com uma agenda política, que dizem que falam com pessoas que não identificam, que não verificam os factos relatados e, consequentemente, produzem um documentário cuja credibilidade é impossível de verificar. A questão não é saber se o que está no documentário é verdade ou não, a questão é que, da forma como as coisas são apresentadas, não há qualquer forma de verificação minimamente sólida.

Para João Miguel Tavares, as dúvidas sobre a credibilidade do documentário despacham-se rapidamente com o facto de ser de esperar que as forças armadas desmintam o que foi apresentado, mas isso não resolve o problema base: se alguém disser que eu estou comprado pelos israelitas, não é a mim que me cabe demonstrar que não é verdade, é a quem acusa que cabe demonstrar que é verdadeira a acusação, e o documentário em causa não tem qualquer demonstração de que o que apresenta seja rigorosamente como é apresentado.

"o ministro da cultura do país foi para as redes sociais ameaçar os realizadores de perda de nacionalidade israelita", abespinha-se João Miguel Tavares.

Independentemente de perder a nacionalidade ser uma coisa bem menos desagradável que perder a vida, que é o que acontece a quem, nas respectivas áreas de inluência, se atreva a fazer um documentário semelhante sobre o Hamas, o governo iraniano, o Hezbollah e todos esses antissemitas que João Miguel Tavares isentou de responsabilidades porque estão apenas a reagir à violência imoral de Israel, qual é mesmo a questão?

O governo israelita tomou alguma decisão? Ou à falta de argumentos para as acusações apresentadas sobre o governo de Israel, já passam a servir as declarações inconsequentes dos ministros dos partidos mais radicais que apoiam o governo israelita?

Se é isso, sugiro um pequeno estudo sobre a declarações da miríade de apoiantes do governo de Pedro Sanchez, só para dar um exemplo próximo, que devem dar para crónicas até ao fim do ano, baseadas na mesma indignação.

"Ao mesmo tempo que se arrasa Gaza e fatia a Cisjordânia para alegadamente proteger Israel".

Talvez tenha sido mesmo esta frase que me fez escrever este post, apesar de gostar e ter consideração por João Miguel Tavares.

Para não recuarmos muito, ao tempo em que a faixa de Gaza era gerida pelo Egipto, comecemos no momento em que Israel retira unilateralmente de Gaza e entrega o governo da faixa de Gaza à autoridade palestiniana, apoiada por toda a comunidade internacional (a ONU gasta mais recursos com os refugiados palestinianos que com todos os outros refugiados do mundo).

O que se segue é um curto período que antecede umas eleições, uma pequena guerra civil palestiniana ganha pelo Hamas (que faz uma limpeza sistemática dos seus adversários), que impõe um governo férreo a toda a população, financiado pela comunidade internacional, armado, financiado, treinado pelo Irão e outros, que transforma a faixa de Gaza num plataforma de lançamento de projécteis sobre civis israelitas.

O governo israelita opta por defender os seus civis com um sofisticadíssimo (e caríssimo) sistema de intercepção e defesa anti-aérea, até ao momento que o eixo da resistência promovido pelo Irão acha que Israel está cercado e manietado pela opinião pública ocidental, lançando um ataque brutal e sanguinário cujo objectivo era desencadear a ofensiva final de destruição do Estado de Israel.

Israel responde militarmente, numa das campanhas militares mais delicadas do mundo, contra um exército irregular que usa os civis para proteger os seus combatentes, num território propositadamente infraestruturado para poupar combatentes maximizando as baixas civis.

A isto, João Miguel Tavares chama "arrasar Gaza para alegadamente (alegadamente? A sério, João Miguel?) defender Israel" porque, na sua opinião, Israel abandonou a decência e com isso faz os judeus de todo o mundo pagar um preço alto em desprotecção.

Eu chamo a isto outras coisas que me abstenho de explicitar.

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