Está agora na moda dizer "colonialismo" e pronto, está descrito um sistema.
Acontece que não é assim, colonialismos há muitos, de muito tipo, desde sempre, e os efeitos negativos e positivos dos sistemas coloniais dependem muito da forma como esse colonialismo se desenvolve e se materializa na história.
Tal como todos os processos complexos, é muito tentador e fácil deitar fora a complexidade e dizer que o facto do luso-tropicalismo ser mais um mito ideológico que uma realidade invalida quaisquer diferenças entre o colonialismo português, espanhol, inglês, belga ou do império otomano.
Já várias vezes tenho referido aqui o livro "Exploradores Portugueses e Reis Africanos: Viagens ao Coração de África no Século XIX" de Filipe Verde e Frederico Delgado Rosa, e lembrei-me dele outra vez por causa da descrição do encontro entre David Livingstone e Silva Porto, dois inegáveis defensores do colonialismo da segunda metade do século XIX e primeira metade do século XX.
Mas as semelhanças entre os dois acabam aí e as suas diferenças, parcialmente, reflectem dois modelos coloniais radicalmente diferentes.
Livingstone era um padre obcecado com a evangelização e o combate à escravatura, ao serviço do império britânico, com o objectivo de levar o seu conceito de civilização, cristão, humanista e anti-esclavagista, ao coração de África.
Silva Porto era um comerciante estabelecido num improvável interior de África, tão improvável que Livingstone nem acreditou quando lhe disseram que havia outro branco por aquelas terras, ficando genuinamente surpreendido com isso, sendo as suas viagens pelo interior de África, geograficamente muito mais limitadas que as de Livingstone, embora preciosamente documentadas sob muitos pontos de vista, viagens essencialmente comerciais e diplomáticas.
Em qualquer caso, primeiro ponto a chamar a atenção, a esmagadora maioria de África, a África de onde provinham os escravos que eram comercializados no litoral e, em grande medida, levados através do Atlântico, não tinha qualquer poder colonial efectivo a ser exercido pelos impérios europeus.
A colonização de África, com exércitos, padres, comerciantes e uma administração pública real, é um processo que só ocorre muito tardiamente, se exceptuarmos uma estreita faixa litoral.
Os velhos colonos, cuja caricatura ainda hoje serve de arma política, os Silva Porto (sem a sua grandeza e sensibilidade, na maior parte dos casos, infelizmente) desta colonização eram manifestamente poucos e nem todos eram brancos (se não me engano (não confio nem um bocadinhos na minha memória) o livro citado fala dos Ambacas, conhecidos, reconhecidos e temidos bastante para o interior do que é hoje Angola, que eram frequentemente considerados brancos, mesmo quando a pele era preta retinta, por causa da maneira de vestir, e viver, manifestamente mais próxima dos modelos do colonizador que dos modelos tradicionais africanos).
Em Angola, sobretudo a partir da segunda metade do século XIX, o número de colonos vai crescendo e vai-se tornando relevante, mas em Moçambique, uma colónia que vivia essencialmente da sua relação com a Índia, a população branca, que inclui esses velhos colonos, é residual.
Esta situação mantém-se até muito tarde no século XX, quer porque há uma forte comunidade indiana que ocupa o espaço disponível e tem mais apoios (casam entre si, mandam os filhos estudar em Goa, etc.), quer porque em Moçambique se estabelecem companhias majestáticas, de acordo com o modelo colonial mais clássico, que procuram manter o seu poder e influência até meados do século XX (é o Estado Novo que acaba com este modelo), afastando qualquer possibilidade de autonomia de terceiros, incluindo os colonos no sentido que tenho usado aqui.
No momento da independência de Angola e Moçambique, a população branca (com todas as dificuldades que existam nestas classificações, e esquecendo os muitos mulatos que não são identificados como brancos) andava pelos 5% em Angola e apenas 2% em Moçambique.
Há um aspecto relevante que convém não esquecer, desde os anos 30 e 40 e com a deslocação de milhares de militares nos anos 60 (muitos dos quais se fixavam por lá no fim das suas comissões), há um crescimento muito grande (em termos relativos, naturalmente, continua a ser uma população quase residual) da população branca nestas regiões.
Boa parte dessa população não são propriamente colonos no sentido clássico do termo, são funcionários administrativos, professores, técnicos ligados aos projectos de desenvolvimento ou de empresas, sem grande relação com o sentido de ocupação colonial da segunda metade do século XIX.
Embora muito poucos em termos relativos, estas populações concentravam grande parte do capital humano mais valioso e produtivo, porque mais qualificado, destes países, enquanto se ia formando uma classe média local branca, mulata e negra (no caso de Moçambique, também com forte peso de indianos, sobretudo oriundos de Goa, e alguns chineses) para responder ao processo de transformação que estava em curso.
As novas ideias anti-colonialistas e de autodeterminação, que estão, aliás, na declaração universal dos direitos humanos, geram diferentes modelos de contestação do status quo, tendo resultado nas independências desses países, nas circunstâncias conhecidas.
A opção, mais velada, ou menos velada, por uma limpeza étnica no início desses países, expulsando grande parte do capital humano instalado, usando critérios ideológicos que se cruzaram com critérios racistas implícitos traduziu-se na redução de 2% de brancos para 0,08% actuais, em Moçambique, e na redução de 5% para 1% em Angola, é um dos maiores desastres para as populações desses países que, de um momento para o outro, se viram privados de uma grande parte das qualificações necessárias à transformação do país.
Esta opção, conjugada com outras opções ideológicas, como a falta de segurança jurídica associada à propriedade privada, nomeadamente da terra, traduziu-se num empobrecimento global dessas sociedades, paralelo a um enriquecimento estratosférico de uma pequena elite com acesso ao poder.
Pretender, nestas circunstâncias, que são os velhos colonos e seus descendentes os responsáveis pela pobreza das pessoas comuns nesses países, traduzindo uma desigualdade estrutural criada pelos sistemas de escravidão (e posteriores sistemas de trabalho forçado), é uma coisa que só pode ser racionalmente classificada como o luso-tropicalismo: um mito ideológico.
O mais irónico é que até a critica é feita segundo uma estrutura "branca".
ResponderEliminarO Marxismo é uma criação Europeia, não veio de mais nenhum lado mas fez muito mais mal fora da Europa. Atrasou dezenas de países décadas. E ainda muitos continuam a sofrer os efeitos.
Até podemos dizer que o Marxismo "protegeu" a Europa de ter mais países em competição. Imagine-se grande produtividade agrícola em África.
Podemos olhar para Moçambique e as escolhas da elite "preta" local com o Botswana ali ao lado e as escolhas diferentes da elite "preta" local e ver os resultados.
Botswana has a nominal GDP per capita of approximately $8,490 (IMF estimates for 2026) and a Purchasing Power Parity (PPP) per capita of around $19,050 to $20,158
Mozambique's nominal GDP per capita is approximately $632 to $663 USD, while its purchasing power parity (PPP) per capita is around $1,450 to $1,730 US.
"Pretender, nestas circunstâncias, que são os velhos colonos e seus descendentes os responsáveis pela pobreza das pessoas comuns nesses países"
Por isso o Botswana obviamente está fora das "notícias", é um grande problema para essa narrativa. O jornalismo activista dos Publicos, Expressos, BBC, NYT etc não consegue justificar esta enorme "desigualdade" de quase 20x segundo a narrativa Marxista, por isso esconde-a.
Independentemente destas comparações, vi há uns dias que as projeções apontam para África ser o continente cuja economia mais crescerá durante a próxima década, com vários países a atingirem taxas anuais de crescimento de 10%.
EliminarA África de daqui a 20 anos nada terá a ver com a atual.
Sem proteger a propriedade/posse de quem fizer desses ganhos não acontecerá.
EliminarE ainda assim será colher fruta madura, apenas passar pelo caminho que todos os outros já passaram. O que é importante é que os Africanos também façam descobertas, inventem.
Olhe - aqui está uma - o sucesso económico e social do Burkina Faso desde o golpe militar de Ibrahim Traoré.
EliminarCom a ganância do estado e privados franceses fora do caminho e recusa do cancro dos empréstimos do Banco Mundial, FMI e programas de “ajuda” da FAO é de vento em popa. Em 3 anos - modernização da Agricultura, autosuficiencia na maioria dos cereais de base, aumento das exportações, pagamento de dívida externa em vez de endividamento galopante, etc… e tudo com enorme hostilidade internacional e uma guerra difícil contra o Estado Islâmico.
O Sankara - que obteve o mesmo sucesso no final dos anos 80 - sucumbiu à terceira tentativa de assassinato - este já sobreviveu a quase 30 - deve ter aprendido a lição…
Muitos paises africanos só precisam que lhes saiam do caminho para terem sucesso. É pena que pelos vistos só lá vá com golpes militares já que as “democracias” africanas são tudo menos democráticas. Numa boa parte dos países africanos francófonos o poder político, económico e militar
está “no bolso” dos franceses. Ele é o Franco CFA cunhado em Paris, o ouro igualmente refinado em França - as forças armadas treinadas e com hierarquias denominadas por franceses…
Por Portugal não necessitamos de golpes militares marxistas e muito menos de promessas envenenadas de demagogos paeudo-fascistas de terceira mas, tendo nos passado de império colonizador para colónia vassala de interesses estrangeiros com constante perda de riqueza comparados com novos estados membros da UE, deveríamos dar uma olhada às estratégias económicas irreverentes que países muito mais desfavorecidos que nós estão a tomar para dar a volta por cima.
Para melhor elucidação fica um parecer encomendado à FAO onde se referem as patranhas dos empréstimos venenosos que mantêm países africanos e não só colonizados ad semper. E onde se refere igualmente o sucesso de alguns irreverentes (os malandrotes a inventar…)
Eliminarhttps://rajpatel.org/wp-content/uploads/2026/04/FAO-Thematic-Paper-Final-.pdf
Será que há diferença entre imperialismo e colonialismo? Semelhanças há de certeza. Como ensina qualquer qualquer manual, por manhoso que seja, de História do Direito.
ResponderEliminarlucklucky - Era bom que você e outros da mesma escola conhecessem mais de história da verdadeira e não da "história do politicamente correcto", começa logo com uma "calinada" quando diz que o 'O Marxismo é uma criação Europeia' que foi criada na Europa foi, mas não foi uma criação dos europeu (isto se levar em conta verdadeiro conceito de nacionalidade o, jus sanguinis).
ResponderEliminarPor outro lado essa treta do anti-esclavagismo ter começado no Reino Unido não foi por acaso, começou lá porque por um lado, o RU não precisava já de mão de obra, estava-se em plena revolução industrial, havia uma imensa mão de obra excedentária, esta andava a passar fome, para sobreviver tinha que migar para o "Novo Mundo", por outro lado sabotava-se a economia de uma colónia que se estava-se a emancipar do Reino Unido com a nova moda do anti-esclavagismo, lembremos que os escravos eram obra barata principalmente para as plantações sulistas da nova colónia (mas eram mais baratos os escravos vindos da Irlanda dos que os importados de África, mas da Escravos brancos não se fala). Desconfiemos sempre destes movimentos de libertação e dos movimentos pseudo-beneméritos que não pretendem acabar com a exploração dos povos, querem é substituir o colonizador por outro ainda pior, veja-se o caso de África, saíram os portugueses dos seus antigos territórios ultramarinos, imediatamente foram substituídos pelas grandes corporações e várias potências mundiais, veja como os africanos estão agora bem, só que parece que existem muitos deles masoquistas, pois que gostam de migrar para o território do colonizador. África na sua maior parte e contrariamente ao que apregoam vai ser sempre território subdesenvolvido, saíram os brancos, foram que substituídos por "Sobas" cujo papel deles é serem carcereiros do seu próprio povo, protegendo apenas os seus interesses dos donos, deles e dos seus protegidos.
Sobre a escravatura, é interessante como as pessoas levam este tema tão ligeiramente, actualmente existem mais escravos do que nos tempos coloniais, simplesmente a propaganda faz que não vê (como vão fala que nesses tempos eram as tribos africanas que se caçavam entre si e vendiam os prisioneiros aos Árabes que os comercializavam depois, mas isso não interessa, há que lançar o estigma do esclavagismo só para os brancos) pois é do interesse de quem manda nisto tudo.
Por outro lado, se repararmos bem todos nós vivemos em regime de escravatura é uma escravatura moderna, mas, é escravatura, você vende o seu tempo ao patrão/empregador, não há volta a dar, o patrão pode ser privado, público, etc., mas você na realidade não é livre e tal como o negro em áfrica tem que pagar o imposto de palhota, você chama-lhe é IMI, mas contrariamente ao africano vai ter que pagar mais umas dezenas de outros impostos e taxas, ficando o que lhe sobra para viver à justa (por enquanto), mas o melhor é não pensar mais no assunto, porque quem não está habituado a pensar ainda pode ter um derramamento cerebral e partir para a terra onde não existem impostos, será que se paga?.
Para si a violência de uma pessoa obrigar outra a trabalhar é o mesmo que as duas entrarem em acordo...
Eliminar....segundo o seu Marxismo sexo é sempre violação?
PS: o que acha de Socialização da economia de Nicola Bombacci e Benito Mussolini?
Talvez que o Colonialismo prossupõe a existência de colonos, Imperialismo basta tornar um estado vassalo.
ResponderEliminarNa questão da escravatura é de sublinhar que foi o Colonialismo que acabou com a escravatura contra os poderes africanos a ela favoráveis, isto no período em que o Colonialismo foi mais forte e as vantagens militares Europeias se acentuaram devido á evolução tecnológica entretanto ganha.
Pode-se interpretar isto como a recusa dos Europeus a uma cultura que nunca foi bem nossa embora nos tenhamos aproveitado dela inicialmente e ou da evolução das nossas sociedades que não eram estáticas em termos morais. Mais provavelmente das duas.
Notar que não foi só a escravatura que ultimamente os países Europeus coloniais acabaram, sacrificios humanos - ex.enterrar os escravos vivos quando morria o soberano em sociedades africanas, . Àfrica era brutal, quando a mãe de Shaka Zulu morreu este determinou que qualquer mulher que engravida-se no periodo de luto seria morta com o companheiro, milhares de familias foram mortas.
Costumes como o Sati Indiano de queimar a viuva, canibalismo.etc..
Os yankees ceifaram entre 300.000 a 500.000 japoneses com 2 atomicas e milhares de outras bombas sobre dezenas de cidades japonesas por puro bullying e prova de poderio bélico, quando sabiam que o Império Japonês estava mais do que derrotado.
EliminarO maluquinho do Shaka Zulu é um santo comparado com o Truman