terça-feira, 18 de agosto de 2026

O mundo de Hobbes

Há situações horríveis que nos chocam a todos. E, quando conhecemos o desfecho, é quase inevitável pensar que outras medidas deveriam ter sido tomadas. O problema é que este tipo de julgamento é feito à posteriori, quando já conhecemos aquilo que, no momento da decisão, ninguém poderia conhecer.


As decisões de protecção de menores raramente são simples. Lembremo-nos, por exemplo, da polémica que, em Inglaterra, envolveu a retirada de crianças a famílias portuguesas. Retirar uma criança aos seus pais é uma das medidas mais extremas que um Estado pode tomar e exige, por isso mesmo, enorme ponderação. Se a decisão for tomada e se revelar desnecessária, as consequências podem ser devastadoras; se não for tomada e acontecer uma tragédia, as consequências podem ser igualmente irreparáveis. É uma situação em que se corre sempre o risco de ficar entre a espada e a parede.

No caso da tragédia de Algés, há um dado que não deve ser ignorado: aquela família estava a ser acompanhada regularmente por diferentes instituições, incluindo os serviços de infância e juventude, o tribunal e a Santa Casa da Misericórdia. Havia, portanto, intervenção do Estado e acompanhamento especializado.

É por isso que, perante as informações que conhecemos neste momento, não acompanho aqueles que, nos comentários, parecem ser maioria e rapidamente classificam o caso como mais um «falhanço do Estado português».

Isto não significa, naturalmente, que não deva existir uma avaliação rigorosa do que aconteceu. Pelo contrário: é fundamental perceber se houve sinais que foram ignorados, informação que não circulou, decisões que deveriam ter sido diferentes ou falhas de articulação entre as várias entidades. Se existiram erros, devem ser identificados. E, se existiram responsabilidades individuais, devem ser apuradas.

Mas uma coisa é investigar responsabilidades; outra, bem diferente, é presumir desde logo que uma tragédia desta natureza demonstra a falência do Estado.

Infelizmente, situações deste género, embora raras, acontecem também nos Estados sociais mais sofisticados do mundo. A Suécia, a Dinamarca ou Singapura não estão imunes a tragédias familiares, mesmo quando existem sistemas de protecção social robustos, equipas especializadas e mecanismos de acompanhamento.

Talvez isto seja particularmente difícil de aceitar porque temos uma tendência quase irresistível para acreditar que, perante um sistema suficientemente competente, todas as tragédias poderiam ser evitadas. Quando uma acontece, procuramos então uma explicação e, sobretudo, um culpado. E o Estado, essa entidade simultaneamente omnipresente e abstracta, é um alvo particularmente conveniente.

É uma forma de tornar o mundo mais compreensível: se alguma coisa correu terrivelmente mal, alguém terá necessariamente falhado. Mas a realidade é muitas vezes mais desconfortável. Há situações em que as instituições fazem o que podem, tomam decisões com a informação disponível e, ainda assim, o pior acontece.

É precisamente por isso que este caso, sendo tão horrível quanto complexo, merece menos certezas instantâneas e mais prudência. Devemos exigir respostas, escrutínio e responsabilização. Mas não devemos confundir a existência de uma tragédia com a prova automática de que o Estado falhou.

Até porque talvez o problema esteja numa expectativa que temos dificuldade em abandonar: a de que o mundo deveria funcionar como gostaríamos que funcionasse.

Não funciona.

Entre o mundo ordenado e previsível que Rousseau imaginou e o mundo imperfeito, conflitual e por vezes brutal de Hobbes, a realidade continua bastante mais próxima de Hobbes.

14 comentários:

  1. Concordo ponto por ponto com o texto de M.A.Baptista.

    Desde que este caso surgiu, tive a sensação que a realidade era de grande melindre e complexidade e que a Comunicação Social (louvávelmente) não estava a contar tudo.

    Acredito e espero que o Estado, Serviços, Tribunais e Instituições de Apoio e Ajuda, estejam á altura e dem conta da situação


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  2. Não vejo que tenham Hobbes e Rousseau a ver com tragédias familiares. O último parágrafo do texto parece-me totalmente deslocado.

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    1. Sendo nesta área as generalizações bem arriscadas, talvez se possa dizer que numa certa medida, as tragédias familiares, reflectem o ambiente Social e de Classe que as rodeia.

      Isto é óbvio não desculpa nem condena, ajuda apenas a situar e na medida do possível, compreender.

      A propósito o trabalho da Polícia deve ser bem difícil




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    2. Se voltar a ler Hobbies, verá que tem tudo a ver com o momento actual e a fragilidade do indivíduo face às monstruosas forças dissolventes, em jogo nas Sociedades
      Modernas.


      Cumprimentos.




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  3. Neste lamentável caso, não me parece que tenha sido o Estado a falhar.

    Antes a Igreja funcionava como uma espécie de rede, imperfeita é verdade, mas tinha-se a sensação que a queda não seria no vazio.

    Fico com a impressão que perante as formidáveis pressões de uma Sociedade ferreamente orientada para o Consumo, uma Comunicação Social surfando vacuidades, um moralismo hipócrita (mas implacável e vigilante) esta família, por falta de bases, colapsou.

    Não foi o primeiro caso e infelizmente não creio que vá ser o último.


    Resta esperar que o Estado vá optimizando procedimentos, e o mais importante, aproveite as lições e falhas do passado para melhorar desempenhos futuros



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  4. O Estado não é Deus, não pode estar omnipresente.

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    1. Claro que o Estado não é Deus, e já faz muito, só não o reconhece quem está de má fé.

      Mas não sendo a Sociedade uma coisa Estática, é óbvio que há Situações que se resolvem, outras nem tanto, algumas derivam e agravam-se e entretanto, surgem novas.

      A Realidade é Dinâmica e está em mudança constante

      Uma Palavra de louvor é devida ás Mulheres e Homens, que dia e noite acompanham estas Situações e dão o seu melhor no sentido de mitiga-las.

      Bem Hajam





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  5. "No caso da tragédia de Algés"

    A mãe morta pelo filho de 15 anos tinha 33 anos, ou seja, engravidou aos 17 e deu à luz aos 18.
    Especulando, poderemos chegar a uma simples conclusão, que muito provavelmente, a mãe (e já agora, o pai) não tinha maturidade pessoal e emocional para formar família quanto mais cuidar de uma família.
    Isto também é a destruição da família, iniciada nos tempos da Revolução Francesa e fortemente promovida pelas forças anti-católicas e anti-cristãs nos séculos seguintes até hoje.

    Estas forças devem ser combatidas e deve-se começar pela, implementação, rápida e em força, de reformas estruturais a começar, repito, a começar pela abolição do salário mínimo, liberalização dos despedimentos e abolição dos descontos seguindo-se outras reformas estruturais.

    Hobbes era um idiota ou um mal-intencionado que partia de pressupostos errados defendendo que Aristóteles estava errado quando dizia que o Homem era um ser naturalmente sociável e que o ser humano não está preparado para viver em sociedade, ou seja, uma afirmação que contraria toda a história humana que sempre viveu em sociedade.

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    1. Caro Silva 19AGO26 - 12:13

      Você ou leu Hobbes de forma muito apressada, ou de todo não o Leu.

      Se Ler terá de reformular o que está profundamente errado no seu comentário

      E faça um favor a si próprio, abstenha-se de qualificativos, que só o diminuem a Si.

      Cumprimentos






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    2. Caro Anónimo22 de agosto de 2026 às 11:49

      O que está profundamente errado no meu comentário?

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  6. Hobbes não escreveu sobre a Sociedade e o Estado que trituram o indivíduo ?

    Na tragédia que fala o texto, não parece impossível imaginar o mesmo tipo de pressões e forças, empurrando e modelando tipos humanos, e finalmente, encurralados numa situação cujo fim só pode ser trágico.


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  7. Hobbies dissertou sobre o indivíduo esmagado pelas tremendas forças, a um tempo divergentes/convergentes, da sociedade/cidade moderna, obviamente constituída por homens/famílias, também pelas suas alegrias/vitórias e derrotas, fracassos/tragédias.

    Como não encaixa ?











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  8. A publicação de um Relatório, que a propósito, cheira a barro atirado á parede, andam todos num frenesim, desde esta manhã, á volta das pensões.

    Da gestão Publica ou Privada, adesões
    voluntárias, sistemas complementares, etc..

    O Governo anunciou logo que estava fora de hipótese mexer no modelo, e francamente desejo que esteja

    Idem para o PS de quem espero que não caia em tentações, e se mantenha firme na Gestão exclusivamente Pública da coisa.

    Já sei que a IL é fã da gestão privada e estará sempre ao lado dos que querem por a mão na gestão dos dinheiros das pensões.

    Espero que ninguém vote neles em próximas eleições, e que vão pregar a teoria para um descampado

    Conforme a evolução da coisa ainda veremos se é o PCP ou o Livre a ganhar mais um voto





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