sexta-feira, 3 de julho de 2026

Velhas histórias

Em 2016, houve uns grandes fogos ali pela serra da Freita e Caramulo e, depois, a Montis organizou uns passeios do fogo com pessoas que realmente podiam ajudar a compreender o fogo e o seu papel ecológico fundamental.

Nem um jornalista, nem um decisor político apareceu, os passeios só serviam para aprender, e isso é uma actividade com pouca utilidade política e jornalística.

Eu próprio escrevi um artigo no Observador em que dizia que uma situação como a de 2003 e 2005 era uma questão de tempo (reforço que o artigo é de 2016, anterior aos fogos de 2017) "Há anos que esta é a doutrina dominante, mas dois dias de vento Leste fraco deram uma pálida imagem do que será a catástrofe a que nos conduzirá esta opção quando voltar a haver, com em 2003, dez a quinze dias de vento Leste forte a muito forte. O facto de haver muitos anos em que essas condições se verificam muito raramente não nos deveria fazer esquecer que podem acontecer em qualquer ano. E nessas condições meteorológicas, com o combustível acumulado que temos hoje nas nossas paisagens, a probabilidade de escapar de uma tragédia é baixíssima".

Em 2017 (ou princípios de 2018) o então presidente de câmara de Vouzela convidou meia dúzia de pessoas para lhes perguntar o que fazer depois dos fogos de 2017, que atingiram duramente Vouzela, em Outubro.

Lembro-me de na altura lhe ter dito o que pensava (e penso): o fogo tinha posto à vista e acessíveis um conjunto de caminhos muros e outras infraestruturas da antiga paisagem que poderiam ser uma base barata e facilmente gerível para um programa sistemático de fogo controlado, ao permitir gerir de forma barata linhas de ancoragem dos fogos, desde que se cuidasse da sua manutenção com esse objectivo, nos cinco anos seguintes, para depois começar a queimar à medida que o combustível se ia acumulando por falta de gestão.

Obcecado com os eucaliptos - o que verdadeiramente tinha interesse político (embora nenhum interesse para o assunto) - a minha sugestão caiu em saco roto, ao ponto do então presidente de Câmara, actual secretário de Estado das florestas, ter convencido uma direcção da Montis mais recente a não executar um fogo controlado que estava programado para uma propriedade sob gestão da Montis, com os costumados e estafados argumentos de se que se arranjariam uns sapadores para fazer a gestão de combustíveis (multiplicando por cinco o custo, pormenor que evidentemente é sempre omitido).

Agora arde outra vez em Vouzela e diz-me quem percebe do assunto que o fogo que se desenvolveu como um charuto direitinho sob a influência do vento NE constante (sem que o combate consiga influenciar nada, como seria de esperar) e que o flanco de mais de vinte quilómetros vai passar a cabeça do incêndio esta tarde, quando o vento mudar para Norte (por mais que o Senhor Ministro da Administração Interna venha com a conversa do costume sobre fogo posto e trabalho heroico dos bombeiros, heroico será, mas competente, manifestamente, não é).

Dizem-me que é o Caramulo que vai arder todo, se estas variações meteorológicas se confirmarem (de maneira geral confirmam-se, as previsões meteorológicas de menos de 48 horas são de grande fiabilidade).

Eu não sei, estou como o Sócrates, o legítimo: só sei que nada sei.

Já é saber muito mais que o que sabe uma esmagadora maioria de comandantes de bombeiros que comandam combates a fogos com a doutrina que António Gedeão definiu tão bem sobre Quixote: "Vê moinhos? São moinhos. Vê gigantes? São gigantes".

Eu não passo de um pobre Sancho Pança, cada vez mais velho, cansado e pançudo.

4 comentários:

  1. o então presidente de Câmara [de Vouzela] ter convencido uma direcção da Montis a não executar um fogo controlado que estava programado

    Que história tão estranha. Porque não queria o presidente da Câmara que um proprietário efetuasse fogo controlado na sua propriedade? E como anda o presidente da Câmara tão bem informado, que toma conhecimento prévio de fogos controlados que proprietários tencionam fazer nas suas propriedades? E que tem o presidente da Câmara de interferir com uma atividade que não é proibida por lei?
    Parece que estamos numa ditadura. O presidente da Câmara dispõe de uma polícia que vigia os cidadãos e descobre o que eles tencionam fazer e depois, inda que a atividade progamada seja legal, o presidente põe-se em campo para dissuadir os cidadãos de fazer aquio que têm o direito de fazer.

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    1. Que cabeça tão estranha. A Montis tinha programado fazer um fogo controlado numa propriedade, o que implica gestão das faixas de contenção.
      Por uma questão de boas relações e pedagogia, os municípios são sempre avisados (aliás, têm de se pronunciar, mas não era essa a questão) e, no caso, com excelentes relações entre a Montis e o Presidente de Câmara de Vouzela, discute-se a possibilidade de alocar sapadores florestais da câmara para a preparação do fogo.
      O Presidente de Câmara, florestal de formação, faz uma visita com a direcção da Montis e acaba a convencer a direcção da Montis a alterar o previsto, comprometendo-se a disponibilizar os seus sapadores para as tarefas combinadas.
      Não há nada de estranho nisto, há concepções diferentes sobre as melhores opções de gestão num contexto concreto.

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  2. Dizem-me que é o Caramulo que vai arder todo

    Uns eucaliptais meus que arderam em 2016 muito provavelmente voltarão a arder agora. Se calhar, à hora em que escrevo já estão a arder.

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  3. Desconfiança absoluta no tipo que faz de mai ( também conhecido pelo neves das percepções). ..É reparar na satisfaçãozinha repimpante da linguagem "yoke" nas "entrevistas" dos apaniguados...

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