sexta-feira, 12 de junho de 2026

Bola, e bolhas


Ao ler tantos comentários maldispostos que o algoritmo da minha bolha me fornece, quase me sinto um autêntico troglodita (culpado!) por me deixar envolver com este fabuloso espectáculo que, por certo, vai ser o Campeonato do Mundo de Futebol da FIFA — torneio que este ano se joga no Canadá, México e EUA. É que eu espero ver quantos jogos puder… Não tenho perdão!

Junho é a altura do ano de que mais gosto. Tempo que soa a expectativas de um Verão prometedor, não sei bem do quê. Este sentimento deve ter reminiscências dos meus tempos de juvenil estudante. O gosto ficou, e é mais intenso com este ambiente de euforia dos Santos Populares, com cheiro a farturas e a sardinhas assadas, que já não frequento. Sobra o Mundial de Futebol, com três semanas de jogos a toda a hora, casos, casinhos, jogadas, golos esquisitos e a esperança não assumida de que a selecção portuguesa ganhe o caneco. E que o Ronaldo retorne, finalmente, em ombros. Coisas fúteis.

E depois há aquele sentimento de comunhão nacional (ou será global?) que, de repente, nos faz sentir parte de um interesse comum… da humanidade. Mesmo nestes tempos de polarização, de fragmentação das redes que estão a destronar a velha televisão. Vejam o lado bom: nas notícias teremos alternativa ao Trump ou ao Ventura. Outros poderão dedicar a sua mui estimada embirração aos tirânicos adeptos do futebol.

Claro que, perante tamanha “unanimidade”, surge uma dissidência na mesma medida: a daqueles que se afirmam – e são – diferentes. Qualquer coisa serve para alimentar uma animosidade inconsequente que nos faça sentir vivos – é da natureza humana. Talvez com receio da diluição, que é o que acontece às mentes fracas. É nestas alturas, quando decorrem fenómenos de massas e de grande mediatização como o Mundial, que se levanta um coro de lamentos e vitupérios contra o “ruído” reinante. Os “diferentes” insurgem-se revoltados contra o desporto-rei. Um amargo desdém vem ao de cima, inconformado, nas mais díspares e exóticas personalidades: “Eu não gosto de futebol”, afirmam arrogantemente. Ouvem-se os mais desconcertantes comentários, do tipo: “O meu Jorginho, graças a Deus, só gosta de râguebi”; ou “Em Junho vou emigrar para as Ilhas Selvagens com a minha colecção de DVDs do John Ford e a Paixão segundo São Mateus, de Bach” (posso emprestar-lhe a minha gravação, mas é em vinil).

Gostar de futebol não ocupa espaço nem define uma pessoa. Podemos gostar de muitas outras coisas, cultivar outros interesses. Podemos até gostar e tentar compreender aqueles que não gostam de futebol — que terão de fintar as conversas e notícias que não querem saber. O algoritmo das plataformas e os 300 canais na televisão por cabo cuidarão de uma bolha digna dessas almas minoritárias, cerceadas, vilmente oprimidas, estou certo. Cada um na sua.

Imagem: roubada ao Expresso Revista

2 comentários:


  1. João Távora, estás profundamente enganado.
    Simplesmente não é futebol.

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  2. Caro João Távora


    Há os que gostam bastante de Futebol, há os que gostam moderadamente, há os que gostam até ao patológico, há os que detestam e há os indiferentes.

    Pessoalmente só embirro com os amantes do Futebol na incrível mania que tem de impingir ao próximo a barbaridade das suas manifestações de simpatia ou repúdio (1).

    Muito gostava eu de saber como reagiriam os amantes de futebol se os simpatizantes da pesca a linha praticassem o mesmo tipo de manifestações barulhentas, ocupassem lugares Públicos, etc.

    (1) Espanta-me sobretudo o avontade e a cumplicidade das chamadas Autoridades, fechando Ruas e Praças, como se tanto a malta do Futebol como as próprias Autoridades fossem senhores e prioritários do Domínio Público.

    Mas posso sempre ser eu que esteja a ver mal a coisa



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Bruno Cardoso Reis

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