segunda-feira, 1 de junho de 2026

A pegada que deixamos

 Vivemos na ditadura do instantâneo. Entre o desejo e a sua satisfação, o mundo moderno, vergado ao niilismo, vai eliminando o espaço do compasso de espera, necessário à busca de um sentido mais profundo e fértil da existência. No entanto, há uma verdade desconfortável que o tempo teima em nos sussurrar ao ouvido: do gozo que fruímos sós, não fica nada. Os prazeres mundanos, as paixões que nos consumiram, os banquetes, as experiências sensuais e os muitos troféus que o ego anseia não deixam rasto: desvanecem-se como fumo, evaporando-se no ar assim que a luz se apaga.

As paredes da casa de que nos orgulhamos, decorada com esmero anos a fio, um dia apenas reflectirão o eco do vazio. As sofisticadas bibliotecas e as colecções que juntámos — de discos, de porcelanas —, metodicamente erguidas com o fetiche da posse, serão amanhã desmanteladas pelos nossos extremosos, desleais e indiferentes filhos. Acontece que o prazer individual não gera legado; extingue-se em si mesmo. Que o diga o alfarrabista, que sabe, como poucos, que dias após a morte de um bibliófilo será contactado pelos herdeiros.

Não se trata de menosprezar o bom convívio, a alegria quotidiana, os nossos hobbies — entretenimentos que nos enfeitam a existência. Eles constituem-nos, equilibram-nos na corda bamba de uma vida de exigências que pede tréguas. Mas não tenhamos ilusões: são só distracções. O que realmente faz história, o que deixa um sulco na terra, é a caligrafia do esforço, da doação. 

É na tese que nos roubou noites, na família que teimámos (contra ventos e marés) em manter unida, no livro que escrevemos ou na descoberta científica que falhou — mas que abriu caminho para o passo seguinte — que nos tornamos verdadeiramente humanos. A obra maior exige o suor do treino persistente para o recorde, a dor do cansaço, a teimosia da superação. É o serviço que nos realiza, na dádiva, às vezes sacrificada, dos nossos dons aos outros ou a uma causa. É a partilha com os outros que atribuirá valor àqueles bens que, afinal, não são para nós. Daqui não levaremos nada. É na comunhão que nos é legítimo sentir uma ponta de orgulho na vida que construímos, nos dons que nos foram outorgados.

Esta resistência ao efémero encontra o seu eco teológico e antropológico mais recente na encíclica papal Magnifica Humanitas. Num mundo saturado de gratificação instantânea — onde o algoritmo nos entrega o desejo antes mesmo de o formularmos —, o Sumo Pontífice resgata um conceito esquecido: o do prazer diferido. 

 A encíclica recorda-nos que a verdadeira grandeza humana (magnifica humanitas) não se mede pela nossa capacidade de consumir o presente, mas pela nossa audácia em semear o futuro. O “prazer diferido” não é uma punição ou uma autonegação masoquista; é a chave da transcendência. É a capacidade de abdicar do gozo imediato em nome de uma catedral que talvez nunca vejamos concluída, mas onde os nossos filhos e netos se abrigarão. 

 Como disse um dia o Papa Bento XVI, “O mundo oferece-vos o conforto, mas vós não fostes feitos para o conforto. Fostes feitos para a grandeza.” No final, a história não guarda registo dos nossos momentos de conforto. Guardará, talvez, a memória dos nossos combates. É no cuidado desafiante do outro e na entrega desinteressada que deixamos de ser apenas sobreviventes para nos tornarmos construtores. O esforço dedicado a algo maior que nós é o que nos poderá imortalizar. O resto é cinza, como bem sabemos. 

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