sexta-feira, 15 de maio de 2026

O império do vitimismo

O Ocidente enfrenta uma das suas mais subtis e devastadoras crises culturais: a institucionalização do vitimismo. Se outrora a civilização se erguia sobre a celebração do herói que batalha pelo seu destino, a praça pública contemporânea transformou a vulnerabilidade permanente num valioso (e perverso) capital social e político. Ser uma vítima — de injustiças reais ou de microagressões quotidianas — tornou-se um salvo-conduto moral que isenta o indivíduo do fardo mais pesado da existência: a responsabilidade individual.

Esta mentalidade opera através de uma profunda alienação psicológica e social, onde o indivíduo projecta as suas incapacidades na criação obsessiva de adversários absolutos. Vive-se na vertigem de lutas imaginárias contra inimigos ficcionados — moinhos de vento ideológicos, conspirações sistémicas ou preconceitos invisíveis —, enquanto se ignoram as ameaças reais à nossa segurança e liberdade. Esta fixação em dinâmicas de "nós contra eles" inverte o bom senso: em vez de pacificar a mente, o sujeito é treinado para ver perigo e malícia em cada interacção, alienando-se da realidade concreta.

O erro trágico desta tendência é o desmantelamento da autonomia da vontade face à adversidade. Ao gastar energias a combater inimigos imaginários e traumas do passado, reais ou inventados, abdica-se da liberdade suprema de escolher a própria atitude diante das circunstâncias. O vitimismo contemporâneo procura a inocência através da acusação perpétua do outro, muitas vezes abstracto. É uma fuga deliberada à maturidade, como que uma escolha pela paralisia confortável do ressentimento ao desconforto da resiliência.

A consequência desta armadilha psicológica reside na total abolição do perdão e da desistência da redenção, conceitos sem os quais nenhuma biografia ou civilização se pode sarar, andar em frente. Ao eternizar o papel de lesado, o indivíduo recusa perdoar os outros — fixando-os perpetuamente na categoria de carrascos — e por consequência recusa perdoar-se a si próprio, preferindo o apego mórbido à sua própria fragilidade. No entanto, o perdão é a única força capaz de quebrar o determinismo do passado e a irreversibilidade da história. Sem a coragem de perdoar o erro alheio e de redimir os próprios fracassos através do esforço transformador, o sujeito condena-se a um purgatório sem saída. A redenção exige acção; o vitimismo apenas exige audiência.

Substituir a liberdade, o perdão e o mérito pela conveniência da autocompaixão pública não expande a justiça; apenas fragmenta o tecido social em tribos em guerra por feridas auto-induzidas. O verdadeiro progresso nasce do resgate do protagonismo individual sobre o caos exterior – para isso Deus nos deu o livre-arbítrio.

Resta ao Ocidente decidir se quer continuar refém desta alienação paranóica contra moinhos de vento ou se recupera a lucidez para enfrentar os seus desafios reais, encontrando no perdão a força para se levantar sem pedir licença ao tribunal do “coitadismo” civilizacional.

Publicado também no Observador

8 comentários:

  1. Há ainda o aspectos industrial: a indústria de encontrar, publicitar e apadrinhar vítimas afaga o ego e a carteira de pessoas virtuosas, sem falar em dar matéria escabrosa e escandalosa para encher horas e páginas a normalizar aquilo que dantes era matéria recatada (lá está, mais um obscurantismo opressor.)


    Um dia destes rebentamos de esclarecimento, como a rã do La Fontaine.

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  2. Resta saber se a circunstância referida, a vitimização já congénita do "homo ocidentalis" foi induzida ou é natural (Quem não chora na mama) na espécie.


    Porque se a vitimização é um facto corriqueiro e já agora transversal às diversas camadas sociais (todos choram), não deixa de ser verdade que a Comunicação Social, quase que faz disso a razão da sua existência.


    Basta olhar um qualquer meio durante 10 minutos e a coisa é patente.


    Já cheguei a colocar a mim próprio a questão; não haverá atrás da coisa um fenômeno do tipo Darwiniano, uma estratégia de sobrevivência e progressão ??


    Porque se não for imita muito bem


    Além do que parece ser, ou pelo menos estar a tornar-se universal

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  3. regresso às chicotadas no pelourinho

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  4. Tinha colocado a mim próprio esse tipo de questão.


    Tinha começado a pensar no Egipto antigo, e de repente surgiu a pergunta; Como é que basicamente do nada se ergue uma cultura, na verdade uma Civilização que transforma e influencia tudo em seu redor ??


    Aconteceu na Mesopotâmia, no Egipto, com a Grécia, em Roma


    E como é que a Civilização declina, esmorece, morre e depois, já só vive estática, nos compêndios e museus ??
    Será que as Leis da vida e da morte se aplicam também às Culturas ?? 


    Pergunto porque se for o caso, estaremos a falar de seres, ou existências vivas ??


    É que se a resposta for afirmativa então nós humanos, que nos catalogados de "Reis da Criação" não passamos de simples ecologia, habitada ela sim, por um ser muito superior a nós e que é a Cultura.

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  5. Com vitimismo ou sem vitimismo, falta vontade/coragem política para implementar, rapidamente e em força, reformas estruturais, a começar, repito a começar pela abolição do salário mínimo, liberalização dos despedimentos e abolição dos descontos seguindo-se outras reformas estruturais.

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  6. Exactamente 
    Adicionar extinção de fundações e institutos e equiparação de Funcionários Públicos a Privados em matéria de legislação laboral.

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