sexta-feira, 10 de julho de 2026

A Seleção Portuguesa e o Mundial 2026: um balanço

Nunca coloquei o ónus do falhanço da seleção em Cristiano Ronaldo. O seu peso é incontornável, não apenas pelo prestígio, mas porque é evidente que, com uma condição física bem gerida, ele ainda consegue fazer a diferença. O que mais me estranhou nesta campanha foi a gritante falta de entrosamento da equipa, patente em todos os jogos com maior ou menor incidência. Estranhei também a incapacidade — ou receio — do selecionador espanhol em rodar outras opções de valor perante essa evidência. Tínhamos um conjunto excepcional de jogadores, titulares nas melhores equipas do mundo, mas nunca chegámos a ser, verdadeiramente, uma equipa.

Se o nosso meio-campo contava com Vitinha e João Neves, dois dos atletas mais decisivos do PSG, o atual campeão europeu, isso simplesmente não se notou. Quem acabou por marcar a diferença, com algumas jogadas tão geniais como inconsequentes, foi o defesa-esquerdo Nuno Mendes… e o guarda-redes Diogo Costa, evidentemente, cuja insistente atividade acabou por denunciar a fraqueza das dinâmicas defensivas da equipa – uma autêntica tremedeira.

O que distingue um bom selecionador, além da autoridade para gerir um conjunto desgarrado de egos (todos eles artistas de gabarito internacional), é a capacidade de, num curto espaço de tempo, transformá-los numa equipa articulada e solidária — perdoem-me o pleonasmo. Isso implica a coragem de colocar em campo ou sentar no banco Cristiano Ronaldo em prol do coletivo. Depois, claro, há o fator sorte. Nestes torneios curtos, equipas promissoras são eliminadas por pormenores meramente casuísticos a que costumamos chamar azar. É um aspeto que não se pode ignorar, por muito detalhe que pareça. Resta ver se a experiência e liderança de Jorge Jesus atraem mais sorte no futuro.

Fora do universo nacional, um dos melhores jogos a que assisti foi o embate inicial entre a Inglaterra e a Croácia. Sempre tive uma simpatia especial pelos ingleses no futebol; admiro a paixão e o inesgotável ânimo dos "bifes", os legítimos descendentes dos inventores da modalidade. Talvez por isso a sua esperança nunca esmoreça, assemelhando-se à confiança inata dos fidalgos. Ainda assim, as suas exibições não se comparam, por exemplo, às da seleção francesa — que me parece a equipa mais consistente do torneio.

Será que este fenómeno — e jogam tanto, meu Deus! — se explica por uma feliz conjugação genética e cultural, que une o porte atlético e a capacidade técnica de matriz norte-africana aos ambientes europeus mais competitivos? Resta saber se o povo francês já se converteu genuinamente ao futebol, ou se isto é apenas o clássico caso de Deus dar nozes a quem não tem dentes.

Por fim, há a Argentina, que com muita paixão, vai passando entre os pingos da chuva com Messi ao colo. As últimas jornadas do Mundial prometem, pelo menos, muito bom futebol. Está muita coisa em disputa, como por exemplo a possibilidade de uma reedição dum Inglaterra vs. Argentina.

Mal posso esperar...

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