É um caso exemplar de incompreensão do fogo como processo ecológico e de ignorância das dinâmicas da paisagem que estão a ocorrer e vou tentar fundamentar esta minha opinião.
A história administrativa do Cambarinho é muito interessante porque é uma das poucas áreas classificadas pelos serviços florestais a que os serviços de conservação da natureza não ligaram nenhuma durante anos, quando, depois do 25 de Abril, passaram a existir.
Como os serviços florestais sofreram uma enorme retracção com o 25 de Abril (as dificuldades vinham de trás, eram uns serviços centenários que pararam no tempo e se deixaram ficar no conforto do poder discricionário que o Estado Novo lhes garantia), o resultado é que, durante anos, a reserva do Cambarinho era uma terra de ninguém administrativa, a que ninguém ligava nenhuma, ardendo periodicamente como ardem todas as áreas com as características que tem o Cambarinho.
Era localmente conhecida e reconhecida por causa da explosiva floração dos loendros (em Portugal, loendro pode designar duas plantas diferentes sem qualquer relação entre elas, o Nerium oleander, muito usado em jardinagem e frequente nas zonas com alguma humidade do Sul, e estes, Rhododendron ponticum subsp. baeticum, uma relíquia botânica e rara do terceário) por volta de Maio.
A área, bastante pequena, nem 30 hectares tem, está lá há milhares de anos, tal como as espécies deste pequeno retalho da vegetação de folha permanente do terceário, associada a este loendro e os mais frequentes, noutros locais, azevinho e azereiro, a que alguns botânicos, para escândalo de outros, chamam retalhos reliquiais de floresta macaronésica (isto é, de Madeira, Canárias e Açores).
É de meridiana evidência que esta área, e respectiva vegetação, nestes milhares de anos, já viu muito mais fogos, e padrões de fogo que classificações administrativas, conservacionistas e acções de conservação, consequentemente, mandaria a prudência que não se confundissem estas perturbações estocásticas com destruições e ameaças do que quer que seja.
O problema é que a LPN e a Sociedade Portuguesa de Botânica têm dificuldade em encaixar a realidade nos seus preconceitos: se a área ardeu totalmente em 2017 e voltou a arder há dias, é porque o seu interesse botânico e de conservação se manteve, apesar de ter ardido em 2017 (e, já agora, inúmeras vezes antes e ainda bem, a ausência de gestão permite a progressão dos sistemas naturais para situações menos favoráveis à conservação dos loendros, ao permitir aumentar o ensombramento decorrente do crescimento do mato, acacial, pinhal, eucaliptal, carvalhal, que deixa menos espaço aberto junto ao rio Alfusqueiro para o loendro florir magnificamente em Maio).
"A repetição deste cenário representa um sério revés para a conservação de um dos mais singulares núcleos de vegetação mediterrânica de Portugal e evidencia a insuficiência das medidas de prevenção implementadas desde o incêndio anterior", dizem a LPN e a SPB, mas dizem mal, porque não há revés nenhum relevante, existem sim alterações, há maneiras provavelmente melhores de potenciar este retalho de vegetação de folha permanente que é raro em Portugal - ocorre essencialmente em zonas com elevada humidade e quentes, que se afastam da dominância atlântica ou mediterrânica para se aproximarem de condições sub-tropicais -, mas não há evidência nenhuma de que o incêndio de 2017 tenha representado qualquer perda de valores naturais.
Já este parágrafo é extraordinário: "Embora muitas espécies mediterrânicas possuam capacidade de regeneração após o fogo, a repetição de incêndios em intervalos temporais tão curtos compromete essa recuperação".
Em primeiro lugar, manifestamente não é de vegetação mediterrânica que estamos a falar, é mesmo o facto de ser vegetação adaptada a situações mais sub tropicais de elevada humidade e calor que torna especialmente valiosas as poucas e pequenas áreas de Portugal continental deste tipo que existem.
Em segundo lugar, o padrão de fogo tem vindo a alterar-se nas últimas décadas, mas não no sentido da maior frequência, pelo contrário, é no sentido da menor frequência.
Consequentemente, são incêndios de maior intensidade e, isso sim, poderá representar um risco de conservação em algumas circunstâncias (por exemplo, cervunais, turfeiras e outras áreas com muita humidade em que o fogo tradicional, frequente, pouco intenso e fora do Verão, permitiu a acumulação de matéria orgânica no solo, que agora é consumida em incêndios de Verão mais intensos), embora essas circunstâncias não se verifiquem especialmente na área.
Não é o elevado teor de matéria orgânica no solo e consequente acidez, que permite a sobrevivência daquele pequeno retalho de vegetação que beneficia da aproximação a condições de sub-tropicalidade.
Por fim, se o padrão de fogo que está a ocorrer comprometesse a recuperação desta vegetação, ela já teria desaparecido porque há pelo menos cinquenta anos (esquecendo os milhares de anos anteriores com diferentes padrões de fogo) que tem estado a ocorrer e o que se verifica é que é a expansão de outro tipo de formações vegetais, incluindo carvalhais, que representa o maior risco para a sobrevivência dos loendros.
De resto, os loendros ocorrem esparsamente em grande parte da região, este pequeno retalho do cambarinho tem uma concentração de loendros que é excepcional, exactamente por causa das condições particulares do vale do Alfusqueiro não estar a ser agricultado nem usado para pastagem, haver precipitações em torno dos 2000 milímetros, coincidindo com uma posição fisiográfica que torna este bocadinho bastante mais quente que a sua envolvente, apesar da altitude.
E como o post vai longo, limito-me a transcrever mais um parágrafo que ilustra bem a raiz do problema conceptual em que vivem a LPN, a SPB e muitos, muitos conservacionistas que se recusam a estudar ecologia do fogo:
"A recorrência do fogo favorece a expansão de espécies exóticas invasoras, degrada os solos, interrompe os processos naturais de sucessão ecológica".
O fogo (não é a recorrência, mas deixemos isso) favorece a expansão de espécies invasoras (espécies exóticas invasoras é um pleonasmo visto que a definição de invasora pressupõe que a espécie seja exótica, a giesta, ou vários carvalhos, que têm comportamentos de expansão agressiva em algumas circunstâncias, nunca se poderiam classificar como invasoras porque não são exóticas), e há um problema sério de gestão de acácias (em especial mimosas) na Reserva Botânica do Cambarinho.
O fogo não é o problema maior, potencia o problema do abandono e da ausência de gestão que, esses sim, são problemas sérios.
Não, o fogo não degrada os solos, a intensidade do fogo e a sua ocorrência em alturas de grande secura do solo pode de facto consumir a matéria orgânica do solo, no caso de ela existir, o que não é nada linear que aconteça em grande parte da reserva do Cambarinho, onde os solos estão degradadas há centenas de anos.
O fogo pode potenciar a regeneração do solo, desde que feito em condições específicas de meteorologia e humidade do solo, ou seja, o fogo não é um problema, pode ser uma solução, desde que usado sensatamente, o facto de ocorrer nas condições em que ocorreu agora ou em 2017 é um resultado da ausência de gestão e da incompreensão do seu papel ecológico.
E é aqui que se chega a um problema maior que a ausência de gestão, a ideia errada de que o fogo "interrompe os processos naturais de sucessão ecológica" como se o fogo não fosse, ele próprio, um processo natural da sucessão ecológica.
Quando grande parte dos conservacionistas ainda contrapõem os processos ecológicos ao fogo, como se o fogo fosse qualquer coisa externa ao processo ecológico, e não um processo ecológico fundamental na evolução dos sistemas, não há muito a esperar da capacidade do sector da conservação contribuir para a conservação dos processos ecológicos e dos valores naturais.
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