sábado, 9 de maio de 2026

"A propriedade privada é um direito fundamental?"

Pedro Tadeu é um jornalista sub-director do Diário de Notícias, tendo sido jornalista do jornal Avante durante nove anos.

No dia 7 de Outubro do ano passado apresentou o seu último livro com o título "Porque sou comunista", que não li, nem tenciono ler (da mesma forma que dificilmente leria um livro com o título "Porque acredito que a bola é quadrada"), sendo ainda hoje militante do Partido Comunista, o mesmo partido cuja suposta superioridade moral pode ser avaliada pelo comunicado que o PC agora fez a propósito da morte de Carlos Brito.

O título deste post é dele, da crónica que escreveu recentemente no Diário de Notícias.

É uma crónina interessante, não apenas pelas mesmas razões que tornam interessante o esqueleto de baleia que está na Casa da Biodiversidade, antigamente casa Andresen, no Porto.

É interessante por permitir ver como funciona uma cabeça que entende que a apropriação colectiva dos meios de produção (escusam de me incomodar com o argumento de que, hoje, os comunistas já não defendem a apropriação colectiva dos meios de produção, é possível que haja pessoas que dizem que são comunistas e não o defendam, mas isso não demonstra que não é um engano ainda chamarem-se comunistas a si próprias) é o caminho para a felicidade dos povos e, ao mesmo tempo, não contesta que a propriedade seja um direito fundamental.

O primeiro argumento é tipicamente formal: a Constituição não considera um direito fundamental o direito à propriedade (está nos direitos económicos e sociais), mas como considera direitos fundamentais tudo o que está na carta dos direitos humanos, e o direito à propriedade está lá, não é preciso mudar a constituição para que esse direito passe a estar onde sempre deveria ter estado.

O formalismo politicamente orientado é uma técnica genialmente usada pelos comunistas e afins.

Pedro Tadeu usa dessa genialidade para distinguir entre propriedade, de que fala a carta dos direitos humanos, e propriedade privada, como se na carta dos direitos de cada pessoa dizer que essa pessoa tem direito à propriedade não fosse o mesmo que reconhecer o direito à propriedade privada.

A partir desse pormenor a que atribui muita importância, desenvolve então a sua conciliação da realidade com as suas convicções políticas.

"Estamos a falar de propriedade pessoal, o tipo de propriedade através da qual um cidadão garante, para si e para os seus familiares, uma identidade histórica, meios de subsistência, conforto, divertimento, educação, cultura, férias e outros consumos de bens e serviços adequados à sociedade e ao tempo em que vive?

... direito a ser-se dono de uma casa ou do direito a ser-se investidor em dezenas de casas vazias, postas em valorização especulativa?

... direito a ser-se dono de um automóvel familiar ou do direito a explorar uma frota de carros para motoristas de TVDE?

... o direito de o dono de um restaurante trabalhar no seu negócio ou o direito de uma cadeia de hotéis, com um projeto para a área, fazer-lhe a vida negra até ele ceder numa venda forçada?

... se o dono da rede elétrica decidisse cortar a energia a toda gente, como era? Prevalecia o “direito fundamental” do proprietário da rede?

... uma visão da vida em que o privilégio de poucos afortunados é legalmente mais valorizado do que a proteção de muitos discriminados.

... o direito a ter um iate de recreio seria igual ao direito a uma habitação digna. ... até talvez desejem que o direito à propriedade privada tenha um valor jurídico disputável com o direito à vida mas, para já, ficam-se por exigir que ele seja mais protegido do que o direito ao trabalho!...

É tão suave a vida dos betinhos."

E é isto, a argumentação de uma cabeça que acaba com o desprezo moral dos que têm outro ponto de vista, evitando, cuidadosamente, discutir seriamente o que poderia ser útil: onde começa e acaba o direito à propriedade e quem estabelece esse limite em cada momento?

Não tenho nada contra as ideologias que defendem que o direito à propriedade não existe, ou que a propriedade é roubo, acho-as erradas e perigosas, mas são compreensíveis, embora partam da falácia central de Marx, a ideia de que é o trabalho que produz riqueza, descartando o valor do capital, como se o mesmo trabalho feito com uma vassoura ou feito com uma máquina de limpeza desse origem ao mesmo produto final.

Para o que me falta mesmo paciência é para esta sonsice que, essencialmente, acaba numa posição clássica em comunistas privilegiados como Pedro Tadeu: eu posso ganhar bem, comprar o que me apetece, viver muito acima do nível de vida da "senhora que ajuda lá em casa" (nunca perco uma oportunidade para usar esta formulação de Francisco Louçã para designar a sua empregada doméstica), que estou dentro do meu direito à propriedade, aliás, eu não quero acabar com a ópera, eu quero é que toda a gente possa ir à ópera, como eu, já o meu vizinho que compra o vinho nas promoções do Pingo Doce, come massa com tomate feita em casa, e compra o carro mais barato do mercado, não tem o menor direito a ter três casas, duas das quais no mercado de arrendamento, para que os filhos tenham uma sólida educação que lhes evite a vida dura que conheceu.

Para estes sonsos, o direito do vizinho a dispor da sua casa de forma economicamente racional para si não é um direito fundamental, no máximo, seria uma concessão atribuída pelo grupo de pessoas que conseguissem exercer o poder.

Ide pela sombra, que o Sol está quente.

27 comentários:

  1. Creio que a palavra "canalha" ainda se mantém em circulação...
    Um misto de indigência moral e desonestidade intelectual, este bípede.
    Juromenha

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  2. ''vai pela sombra .. para não queimares a tromba''


    não sei que ''ta deu''
    «





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  3. Nesta matéria de Direitos e Propriedade sinto-me em terreno escorregadio e movediço e os "especialistas" falam muito, mas no que toca a esclarecer, ajudam pouco.


    E se um gajo da Polinésia viesse na jangada, e desembarcando no Meco, lá plantasse um Padrão a dizer que aquilo era pertença do El Rei lá do sítio dele ?? E teria o direito a usar a força para garantir a coisa ? 


    É que há precedentes


    Não tarda nada teremos uma Colónia na Lua, logo em Marte, etc.


    Teremos ?? Teremos quem ?? A Humanidade ?? Ou a Nacionalidade que lá chegar primeiro ??


    E faz sentido levar para fora da nossa órbita as esquizofrenices (tipo propriedade) humanas ?? 


    E em chegando lá teremos o direito de dizer que aquilo é nosso ??


    E se um gajo verde, nos disser (aquilo que costumamos dizer);


    Ora mostre lá o amigo o título de Propriedade.


    Seremos uma anedota ??


    E se arranjassemos uma espécie de junta médica para analizar e observar, a título profiláctico, a Espécie ??










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  4. Pois eu, que não sou de forma nenhuma comunista, li uns bocados do "Porque sou comunista" e gostei. Pedro Tadeu é uma pessoa inteligente, culta e modesta.

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  5. O problema é eles pensarem que a sombra também é propriedade privada... A líder parlamentar do PCP afirmou que a ex URSS fez muito pelo povo russo. A curiosidade será saber se ela acredita mesmo nisso, ou se apenas se trata do velho discurso enganoso de massas.

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  6. A ex URSS tinha ao colo uma Rússia ainda medieval, onde em boa parte ainda imperava a Servidão.


    E em pouco mais de meio Séc., alfabetizou a População e colocou um homem na Órbita Terrestre.


    Goste-se ou não foi um feito tecnológico de primeira grandeza.


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  7. Para além do mais, e complementando o que acima disse, não parece muito correcto chamar Comunista a velha URSS.


    É por demais evidente que aquilo era tudo menos Comunismo 

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  8. E continuou medieval e em boa parte a imperar a servidão

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  9. Caro Henrique Pereira dos Santos 


    A Federação Russa tem parece-me Onze Fusos horários e penso, uns Cento e Quarenta e tal milhões de cidadãos.


    Não sei ao certo quantas línguas e dialectos, mas devem ser mais de cem.


    Tem todo o peso de um passado histórico onde, muitas vezes, a governação, assentava na simples força bruta.


    Tudo isto agravado pelas confusões advindas das mudanças rápidas e violentas por que passou.


    Parece-me uma obrigação dar-lhes o benefício da dúvida.


    E já me esquecia; foram eles que apanharam com o grosso da pancada Nazi e os fixaram na armadilha de Estalinegrado, ganhando tempo para os Aliados e consequente Vitória final.

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  10. Então querer apropriar-se da propriedade e direitos humanos  de milhões de pessoas é ser modesto...

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  11. Aguardemos sentados pelo 1º caso de sucesso mundial... Haja fézada... :)

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  12. O meu pai lamentava que o grego ou, no mínimo a mitologia, a épica e a poética gregas (a filosofia ainda resistiu) tivessem sido retiradas do ensino. Depois profetizou que a retirada do latim ia criar gerações a escrever mal português. Se tivesse vivido para ver o AO90 nem imagino como se sentiria.
    Felizmente tive um belíssimo professor de filosofia e gostava (tive 18 no exame do antigo 7º ano do Liceu que foi a nota máxima nesse ano e nesse Liceu).
    Desde os meus 16 anos que sei que sem propriedade privada não pode haver liberdade. O que me tira a paciência para Tadeus (e ainda mais para Tadeus Costa). 

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  13. Caro Luclucky


    Vai desculpar, mas a Rússia Comunista, nada tinha do que costumamos chamar a nossa Idade Média, que como saberá assentava nas Três Ordens; Clero, Nobreza Guerreira e Plebe Trabalhadora.


    Cada Classe com a sua função e tarefas muito precisamente defenidas.


    A URSS foi um Regime Político que tinha como bases, a Propriedade Colectiva dos Meios de Capital e Produção, sendo o Povo representado pelo Estado, e este Governado pelo Povo, através do Seu Representante: o Partido Comunista.


    No sistema feudal a Lei era conforme e subordinada á Lei de Deus 


    Na Rússia Comunista o Soberano era o Povo Trabalhador Representado pelo Partido 


    Como tudo muito distante daquilo a que nos habituamos a chamar idade Média 

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  14. Hahaha! então o PCP também nunca foi Comunista?


    A morte aos ricos, o genocídio de classes sociais não faz parte da ideologia comunista?

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  15. Se isso é escorregadio para si então sacrifícios humanos também o são o que impede um hindu de fazer o Sati no Terreiro do Paço? Ou um crente nos deuses Maias de tirar o coração de um vivo na Avenida da Liberdade?

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  16. Não deixa de ser interessante, que coisas como essas, para nós  inadmissíveis e horrendas em absoluto, para os envolvidos eram apenas actos de culto normais e correntes.


    As diferenças que a cultura produz

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  17. O Senhor seu pai tinha toda a razão 

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  18. Caro Lucklucky


    Do que pude ir lendo ao longo dos anos, na antiga URSS o "Sistema Totalitário Comunista", tentava ter um Controlo Total primeiro sobre o seu próprio "Aparelho", policiava-se a si próprio.


    Depois a Classe Política propriamente dita, possíveis Aliados/Concorrentes na estrutura do Partido/Estado e Forças Armadas.


    É evidente que também sobre a População mas aqui por falta de Estruturas/Meios, a coisa ficava mais difícil e o Controlo fazia-se quase só sobre e através da Comunicação Social, teatro, cinemas, etc


    Convém não esquecer que nos Sistemas ditos Liberais o Controlo da super Estrutura sobre as bases existe, só que em moldes muitíssimo menos rústicos 

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  19. Não obstante o pacto de não -agressão, Alemanha-URSS, a Alemanha invadiu a Rússia no final de 1941. 


    Apesar dos insistentes pedidos de Estaline por uma Nova Frente e mais ajuda, está só começou a ocorrer,  verdadeiranmente e em força a partir de metade de 1943 tendo a URSS aguentado na prática sózinha, até aí.

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  20. Caro lucklucky 


    O Regime em vigor na URSS pode rotular-se como Capitalismo de Estado, tendo por base o Trabalho e a Propriedade Colectiva dos Meios de Produção.


    Não creio que se possa dizer Comunista no sentido do Comunismo "puro" como na Comuna de Paris, ou como ensaiado na Grécia Clássica 

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  21. Podia lançar um livro de poesia na URSS sem aprovação Comunista?

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  22. O PCP é um partido Comunista ou não?



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