Ouvi recentemente, uma pessoa que prezo bastante, inclusivamente do ponto de vista intelectual, dizer que a única explicação que encontrava para o absurdo da intervenção militar dos EUA no Irão era Netanyahu ter convencido Trump.
Fiquei a pensar no assunto e longe de mim descartar completamente esta hipótese, embora me pareça uma hipótese que só tem a possibilidade de ser real se partirmos do princípio de que Trump é um espírito fraco, uma criança grande que se deixa convencer pela última pessoa com quem falou (hipótese impossível de descartar, claro), mas também que é possível a um presidente dos EUA, seja ele qual for, chegar ao seu Estado Maior e dizer-lhes que têm de executar uma operação militar altamente complexa (que, no primeiro dia, liquida o chefe de Estado do país a atacar), sem que haja qualquer racionalidade estratégica nisso (hipótese mais difícil de engolir, convenhamos).
E dei por mim a pensar: e se a principal força impulsionadora da intervenção não estiver em Israel, nem nos EUA, mas nos países vizinhos do Irão, do lado Ocidental?
Com certeza Israel tem interesse estratégico em debilitar a capacidade de projecção de força do Irão, quer a força directa das forças armadas iranianas, quer os inúmeros exércitos irregulares da região que o Irão financia, arma, treina e a quem fornece informação.
Com certeza os Estados Unidos têm interesse estratégico em quebrar a aliança entre o Irão e a China que permite à China obter petróleo barato e ter um cliente captivo para bens e serviços chineses.
Mas se olharmos para os interesses estratégicos dos vizinhos do Irão sem ser pelos olhos dos intelectuais ocidentais que continuam focados na questão palestiniana, na consequente obsessão por Israel e fundamentados no seu anti-americanismo primário, é bem possível que consigamos admitir que a principal ameaça dos Estados do Golfo e regiões envolventes não é, hoje, Israel e os Estados Unidos (e, por extensão, o ocidente), mas a capacidade militar crescente do Irão, a capacidade instalada para suportar uma indústria de guerra eficaz e a desenvoltura com que o Irão semeia exércitos regulares em toda a região, suficientemente poderosos para dificultar as negociações de paz com Israel, bem como a diversificação económica assente na confiança do mundo na relativa estabilidade da região.
Estas três capacidades do Irão, a capacidade militar ofensiva, uma indústria militar eficaz e a capacidade para financiar, armar e treinar exércitos irregulares infiltrados em grande parte dos países da região, sistematicamente empenhados na desestabilização permanente, a pretexto da defesa da causa palestiniana, parecem-me, a meus olhos ignorantes, uma ameaça mais que suficiente para que os países vizinhos do Irão, que têm sofrido estoicamente ataques do Irão sem retaliar, tentem levar os EUA e Israel a irem tão longe quanto possível na limitação destes três poderes, sem com isso pagarem o preço reputacional, entre os muçulmanos, de serem aliados objectivos do Ocidente.
A mim parece-me uma hipótese que não é absurda, mas deve ser porque não tenho visto pessoas que realmente sabem do assunto a admitir a hipótese de que a intervenção militar americana e israelita serve os interesses estratégicos desses dois países, mas é sobretudo importante para que os países do Golfo possam dar passos mais consistentes para tornar a região mais pacífica e menos instável, isto é, mais amiga dos negócios, do desenvolvimento e do bem estar das pessoas comuns.
Devido aos seus dotes de persuasão Churchill convenceu Roosevelt, já Netanyahu aproveitou-se...
ResponderEliminarA narrativa da WW2 só assim ficou escrita porque a URSS foi atacada pelos Nazis a partir de Junho 1941, não o fosse e a aliança Comuno-Nazi tivesse continuado Roosevelt seria hoje um burro nos jornais e para os jornalistas...
O problema do Irão é principalmente um grande salto tecnológico( resultado também de uma grande explosão no ensino de engenharia) na facilidade de fabricar mísseis de longo alcance, em quantidade e com precisão de centenas/dezenas de metros(isto vai evoluir para alnda menos) em vez de km.
Um pais para combater deixou de precisar de aviação, exército, marinha.
Entrámos finalmente na era do míssil(drone é também um míssil)
A partir do momento em que o Irão fabrica 10000 mísseis com +1000km e um numero semelhante de lançadores, pode saturar qq defesa e passa a ter o "first strike" seja ou não com armas nucleares.
PS: a produção de drones pela Ucrânia é no presente de vários
milhões ano. A Samsung produz 200M smartphones por ano mais sofisticados que drones. Para dar uma ideia onde podemos ir parar.
Mas onde quero chegar é que o ataque está a ganhar significativa vantagem á defesa devido ao aumento de alcance e facilidade de produção de grandes quantidades.
os Sauditas até pagam a guerra contra o Irão
ResponderEliminaro limite é sempre a escassez de matéria prima necessária para o fabrico de material militar ou outro
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ResponderEliminar"a produção de drones pela Ucrânia é no presente de vários milhões ano"
Quem lhe disse tal coisa? De onde obteve a informação?
ResponderEliminarBradley Manning fez uma fuga de informação em 2010.
Nessa fuga existiam documentos que diziam isso mesmo, a Arábia Saudita pressionava os USA e Israel para atacarem o Irão e destruir o seu projeto nuclear.
ResponderEliminarNão sei que fontes ouve ou lê (talvez apenas imprensa portuguesa?), mas o facto dos interesses (Israel em acabar com a ameaça iraniana, USA em restringir acesso da China a petróleo extra mercado) estarem finalmente alinhados é hoje consensual.
No caso Venezuelano ainda foi mais ou menos escondido, neste caso é assumido
Subscrevo
ResponderEliminarApenas o Irão é obstáculo a tornar a região
Na minha humilde opinião, desde há muito tempo que penso desse modo. A geografia da região também ajuda a compreender isso.
ResponderEliminarA crescente supremacia do Irão, a influência no Iraque (já sem S. Hussein), a travessia da Síria e a chegada ao Líbano davam prestígio ao Irão no mundo islâmico e causavam mal-estar aos estados árabes do Golfo.
Daí a aproximação, lenta mas continuada, a Israel e o conforto das boas relações com os EUA. Quase diria que qualquer acção militar ou desgaste económico sobre o Irão seria sempre muito bem-vinda - fosse exercida por Israel ou os EUA ou outros.
Quem diria que mandar abaixo o Saddam podia colocar o Irão como única potência regional...
ResponderEliminarJá tinha ultrapassado 1M em 2024 , a maior parte são FPV´s com 30-100km alcance. Neste momento o drone já ultrapassou a artilharia como o método que faz mais baixas no conflito. Estamos a chegar a uma situação de batalha transparente com uma profundidade de 100km onde tudo que entra nessa faixa é atacado pouco tempo depois e de qq direcção. O fogo de precisão em quantidade estava restrito a uma faixa de 10km de profundidade essencialmente por via de canhões de tanque e mísseis na linha de visão.
ResponderEliminarA capacidade de precisão a qq alcance por meios relativamente baratos nos primeiros 100km mudou completamente a guerra. E no caso de mísseis com alcances de +1000km também comparando com os recursos que seriam necessários para construir uma força aérea com uma força equivalente.
200 aviões israelitas levam no máximo 2 misseis aerobalísticos cada, temos apenas 400.
Outras variáveis da equação é que o avião tem mais funções que o ataque também dá para defesa. No entanto precisa de bases aéreas, fixas, vulneráveis a um ataque de saturação de mísseis.
Esta guerra contra o Irão é essencial.
ResponderEliminarMatéria prima não é habitualmente o estrangulamento
Maquinaria, fábricas, cientistas, engenheiros, ideologia, vontade de morrer por uma causa contam mais. Para lá do nuclear, os ataques mais importantes contra o Irão foram contra os complexos petroquímicos que fabricam combustível para os mísseis. O Irão ainda deve ter uns milhares de misseis nas montanhas alguns com entradas arruinadas mas a capacidade de fabricação diminuiu significativamente.
Simples: Xiittas vs Sunitas.
ResponderEliminarNão. Saddam nunce teve uma ideologia. O regime provavelmente morria com ele, tal como Assad(apesar do filho) e Kadhafi. Se fosse vivo hoje Saddam teria 88 anos... O Iraque, dependendo de quando tivesse morrido ou mesmo debilitado teria entrado em guerra civil. Não esquecer que sem a operação no Iraque a Al Qaeda não teria precisado de investir no conflito, poderia ter escolhido continuar com muitos mais ataques terroristas fora do mundo islâmico.
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ResponderEliminarOu seja...
quatro anos sob a égide do fracote Biden e Irão não conseguiu (quis?) obter armamento nuclear, seis meses depois dos USA/Israel terem obliterado a capacidade nuclear iraniana estão a um passo de finalmente obter essa arma.
Deixaram tudo para a última, os Ayatolahs...
Nrm tudo na vida são ideologias
ResponderEliminarO Iraque era uma força ao nível do Irão, e funcionava como contrapoder. Deixou de o ser. Resultado, o Irão expandiu-se como quis.
Deixando de lado a questão do Irão poder obter capacidade nuclear, primeiro porque é controversa quanto a intenções e realidade, segundo porque é praticamente unânime no mundo ocidental que não se pode deixar acontecer, foco-me apenas no que o Irão já mostrou ser capaz de fazer.
ResponderEliminarSem a intervenção israelo-americana o Irão continuaria paulatinamente a fabricar drones e mísseis e armazená-los debaixo do solo. Com o auxílio dos norte-coreanos (protocolo já com cerca de dois anos) avançaria para mísseis balísticos; com auxílio de russos (evidente na destruição do AWAC americano na Base Aérea Prince Sultan, na Arábia Saudita) avançaria para mísseis de precisão.
Quando tivesse a quantidade julgada suficiente, com qualquer pretexto de ou por Israel, destruía as capacidades produtivas de gás natural e grande parte das petrolíferas dos países do Golfo, inutilizava o oleoduto Arábia Saudita/Mar Vermelho, fechava Ormuz enquanto os Houthis fechavam Bab-el-Mandeb.
As economias ocidentais colapsavam. Primeiro a Europa, depois o Leste asiático mas também Austrália e Nova Zelândia. Na América do Sul a desordem seria geral, começando pelo Brasil. Poderiam resistir a China, que tem reservas estratégicas para 4 meses, podia reactivar o carvão e tem a capacidade de deixar algumas regiões morrer de forme; a Rússia, sobretudo se tivesse conquistado a Ucrânia; os EUA, sobretudo se tivessem já renegociado o acordo com o Canadá e México.
Sou o primeiro a lamentar o erro de previsão de americanos e israelitas que pensavam substituir as chefias iranianas por outras mais maleáveis ou pelo levantamento popular que faria cair a República Islâmica; pela falta de previsão do encerramento de Ormuz. Mas também pela decisão europeia e do Japão e Coreia do Sul em não auxiliarem os americanos na reabertura de Ormuz (os americanos apenas têm 4 navios draga-minas, a Europa mais de 130 e uma operação estritamente destinada a manter a liberdade de navegação teria sido possível e até com apoio interno na maioria dos países europeus).
Lamento tudo, especialmente a fome que vai seguir-se em economias fragilizadas, como o Bangladesh, várias africanas mas provavelmente na Índia e possivelmente na China devido à quebra da produção agrícola por falta de ureia e nitratos, produzidos a partir do gás natural. Mas, tudo considerado, dou graças a Deus pela intervenção israelita e americana que, mesmo que nada resolva de imediato, atrasou o pior por 20 ou 30 anos.
Está no cerne da questão - um país com uma força militar que se caracteriza pelo culto do martírio, serve às mil maravilhas como proxy de Rússia e China. Que não precisam de derramar o seu próprio sangue a testar as capacidades dos EUA. Match! O resto é 'inhama' para especialistas...
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