Acordei com uma pergunta na cabeça: quem é responsável, e com que fundamentação, pela ausência de serviços mínimos na greve da CP em curso?
Com mais dificuldade que a transparência aconselharia, consegui respostas concretas.
Árbitro Presidente: Jorge Cláudio de Bacelar Gouveia
Árbitro da Parte dos Trabalhadores: Filipe Rodrigues da Costa Lamelas
Árbitro da Parte dos Empregadores: Luis Filipe Monteiro Ramos Henrique
Estas três pessoas, a decisão foi tomada por unanimidade, são as responsáveis por privar milhares de trabalhadores, maioritariamente os mais pobres e desprotegidos, evidentemente, porque os outros têm alternativas, de condições razoáveis de deslocação durante uns dias, impedindo ou dificultando fortemente o seu direito a ir trabalhar, ou levar os filhos, ou ir ao médico, ou fazer compras, enfim, o duro quotidiano dos trabalhadores das profissões menos valorizadas, e mais um monte de outras pessoas.
Qual é o fundamento para isso?
"Acontece, porém, que a sua concretização – lembrando que tais serviços [mínimos] têm de ser casuisticamente demarcados, composição a composição, na sequência de jurisprudência constante com esse entendimento dos tribunais do Estado e dos tribunais arbitrais do CES – se revelou desaconselhável por não se garantir, quanto à percentagem que se julgou como correspondendo à satisfação das necessidades sociais impreteríveis sem, ao mesmo tempo, se aniquilar o núcleo fundamental do direito à greve, os mínimos padrões de segurança dos utentes no acesso às plataformas das estações ferroviárias e no uso das composições, segundo a informação obtida junta da empresa, no âmbito da sua audição".
Resumindo e limpando da liguagem jurídica, estas três pessoas consideraram que se fosse respeitado o direito à deslocação das pessoas afectadas (que são aos milhares) através da determinação de serviços mínimos, ficava em causa o direito à greve decretada pelos sindicatos (cuja representatividade é um segredo de Estado nunca revelado, e cujas decisões são tomadas de forma opaca por meia dúzia de pessoas).
Para confirmar, pode ler-se aqui a decisão.
Não me passa pela cabeça discutir juridicamente a decisão, e noto que a empresa recorreu da decisão para os tribunais comuns, o que me interessa é a pergunta seguinte que me surge, depois de ler a informação relevante e de saber quais são as perturbações que a decisão de duas dúzias de sindicalistas causam na vida de milhares de pessoas: se estas pessoas tiverem tomado uma decisão idiota, como podem os prejudicados responsabilizá-los pelo que fazem?
Como se responsabilizam sindicalistas que tomam decisões em função de interesses privados não explícitos (por exemplo, os interesses de um partido) ou em função de alguns trabalhadores (neste caso, os da CP), contra os interesses de milhares de outros trabalhadores e como se responsabiliza quem toma decisões no tribunal arbitral?
Talvez uma campanha eleitoral fosse uma boa oportunidade para que os senhores jornalistas perguntassem, a cada um dos partidos, se consideram que a lei da greve, tal como existe e é aplicada, assegura a adequada ponderação dos diferentes interesses, ou se realmente está na altura de olhar a sério para a legislação que enquadra o sindicalismo e o direito à greve, para lhe introduzir o mínimo de equilíbrio que permita evitar o absurdo social de não haver serviços mínimos decorrentes da greve da CP em curso.
ResponderEliminarConcordando com o último parágrafo do texto, eu diria que, se houvesse concorrência no setor ferroviário, não haveria necessidade de dfinir serviços mínimos e o problema desapareceria.
Note-se que a concorrência não é assegurada num esquema de concessão, como por exemplo há nos comboios suburbanos entre Lisboa e Setúbal. Aí não há concorrência, há simplesmente concessão a uma empresa diferente da pública. Concorrência é assegurada quando diferentes empresas têm comboios (suburbanos, ou outros) a circular, naturalmente que em horários diferentes, numa mesma linha. Aí, se uma das empresas de comboios faz greve, pode sempre usar-se os comboios da outra empresa que fazem o mesmo trajeto.
(É o que há nas camionetas expresso: qualquer empresa pode por a circular umas camionetas em qualquer trajeto que deseje.)
Uma forte motivação de voto para o próximo dia 18...
ResponderEliminarJuromenha
Escrevi isto para o correiobdi leitor do Público que o publicou hoje :
ResponderEliminarsem o dinheiros dos contribuintes não existiam cerca de 100 sindicatos, porque o nº de sindicalizados anda pelos 15%.
ResponderEliminarsindicatos e jornalistas colocam as democracias burguesas na lista negra.
A Esquerda soube pedir a requisição civil dos motoristas de matérias perigosas. Pudera...
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ResponderEliminarPraticamente não há greves no sector privado.
Eu creio que isso é falso.
O que acontece é que as greves no setor privado não são noticiadas, por não serem de interesse geral. No entanto, elas existem e, de facto, são em muito maior número do que no setor público.
Os responsáveis são os partidos que fizeram a geringonça, nomeadamente o PCP, para impedir Passos Coelo de privatizar a CP.
ResponderEliminarVejo no post e nos comentários referirem-se a uma uma pequena elite de trabalhadores, um pequeno grupo de sindicalistas, representatividade secreta.... etc.
ResponderEliminarComo se justifica então que meia-dúzia, ou pouco mais, de elites consigam paralizar ou causar tantos transtornos no transporte ferroviário?! Um punhado de elites operam assim tantos comboios?!
Quem e como se tomam as decisões de fazer greve? Qual é a probabilidade de um trabalhador furar a greve?
ResponderEliminarNum universo de milhares de trabalhadores em que apenas um punhado (de elites) está motivado para fazer greve, acho bastante provável que sigam a maioria esmagadora que não está motivada para a greve.
ResponderEliminarSe fossem meia dúzia com intenção de furar uma greve com milhares de grevistas, aí acredito que essa maia dúzia se sentisse obrigada a não destoar dos restantes milhares de colegas... aí poderia haver o efeito de não querer destoar. Mas aparentemente não é esse o caso, segundo o post e alguns comentários!
E não esquecer que quem faz greve, não recebe o salário dos dias de greve e potencialmente perde outras remunerações/compensaçoes/premios resultantes da assiduidade anual. Esse é um bom incentivo para não fazer uma greve com a qual não se concorda!
Outro pormenor importante é que haverá muitos trabalhadores que seguem a sua consciência, independentemente das massas... quanto mais de minorias!
Ah! Lembrei-me de mais um pormenor. Será que a satisfação (com o trabalho, salários, ambiente e condições de trabalho, segurança, etc) dos trabalhadores é importante na hora de decidir se se faz greve? Ou será que isso não conta perante a persuasão de meia dúzia de elites?
Não se trata de estar ou não motivado, mas de quem decide que se vai fazer greve.
ResponderEliminarNuma empresa como a CP, basta um número muito pequeno de pessoas para parar os comboios, de maneira que os outros nem precisam de fazer greve.
Por último, nem é verdade que as pessoas percam um dia de salário necessariamente, nem isso é um problema relevante dentro da aristocracia operária da CP, que ganha bastante bem.
Ora aqui está quem leva a sério o que lhe pagam para fazer ....Parabéns sr bot
ResponderEliminarObviamente. Então os Sô Dôtôres Juizes, os Bacelares da vida íam ficar sem gasolina? E logo nas férias? Nem pensar! Aí a requisição civil não lhes causou prurido algum...
ResponderEliminarQual é a percentagem de pessoas grevistas necessárias para parar os comboios?
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ResponderEliminarSem ter lido a decisão, li o trecho que citou e parece-me que o interpretou incorrectamente:
ResponderEliminar"
Claro que são uma elite, e rica.
ResponderEliminarSó assim se justifica estarem tanto tempo em greve sem remuneração.
ResponderEliminarA concorrência é impossível nos monopólios naturais. No sector ferroviário, os investimentos em activos fixos são tão grandes que simplesmente não é realista cobri-los na totalidade sem atrair recursos de terceiros, daí a concessão – a divisão das despesas para o desenvolvimento do sector com a subsequente divisão das receitas auferidas com a sua exploração. Neste caso, o proprietário dos activos fixos – os carris ferroviários – é o Estado, e todos os participantes no tráfego nos carris são, de uma forma ou de outra, concessionários. E simplifiquei bastante a descrição das relações económicas.
Talvez se esteja a referir à competição pelo lucro na área do transporte ferroviário? Bem, deixe-me lembrar-lhe que o principal beneficiário deve ser sempre o Estado.
Pode argumentar sem parar. Neste caso, há uma falha significativa no campo jurídico. No final de contas, é a lei que deve regular as relações.
ResponderEliminarquem decide que se vai fazer greve
Os sindicalistas marcam a greve. Mas quem decide se faz greve, ou não faz, é cada trabalhador em particular. Nenhum sindicalista decide quantos trabalhadores aderem à greve.
Numa empresa como a CP, basta um número muito pequeno de pessoas para parar os comboios
Não sei se isso é verdade.
Quem governa as linhas é a Infraestruturas de Portugal (IP), a qual não está em greve. Naturalmente que, se a IP estiver em greve, nenhum comboio pode circular, porque as linhas não estão a ser manobradas. Mas, não estando a IP em greve, a situação é diferente.
Cada comboio para circular somente precisa, creio eu, de um maquinista e um revisor. E somente os revisores estão em greve. Se um determinado revisor não fizer greve, todos os comboios em que esse revisor é suposto servir podem circular.
Mesmo que haja serviços minimos os gajos (não sei que nome dar a estes terroristas) metem baixa e rebentam tudo na mesma.
ResponderEliminarNão confunda a infraestrutura, com a operação sobre essa infraestrutura.
ResponderEliminarA CP não tem milhares de maquinistas, nem trabalham todos ao mesmo tempo, mas na sua opinião, há milhares de comboios a circular todos os dias.
ResponderEliminarQue quer mais que lhe diga?
Entretanto já vi as notícias...
ResponderEliminarAdesão de 100%, segundo os sindicatos... dezenas de sindicatos, incluíndo um tal de sindicato de chefias intermédias! E números da adesão sem serem contestados pela plebe administradora da CP ou do governo!
Parece que não são verdadeiros os pressupostos que o post e alguns comentários assumem, dizendo que são apenas uns poucos aristocratas operários, e sem representatividade! Muito pelo contrário!
Vi que os trabalhadores reclamam que os salários deviam acompanhar os custos de vida, que têm vindo a perder poder de compra. Não acha que é uma reivindicação legítima?! Vc sugere alterações na lei da greve para não prejudicar milhares de passageiros... então e os trabalhadores que vêm o seu trabalho a valer cada vez menos, ficam sem forma de lutar por justiça salarial/laboral?! E já agora, a plebe administradora e do governo não tem responsabilidade nenhuma na situação que prejudica os passageiros?! A sua empatia é só para a administração e governo?!
Evidente que, caso exista redundância de maquinistas (e deve haver, será mais fácil uma supressão por falta de composição do que por falta de maquinista), para parar uma linha a adesão terá de ser próxima dos 100%.
ResponderEliminarMas pelo menos a malta de Viseu não sente a greve, nem todos são afectados.
Tantas certezas de tanta gente, é irem a eleições e resolverem. Conselho sábio, tão em voga.
ResponderEliminarFuncionários públicos não poderiam fazer greve. Se escolhem o bem público, devem colocar o interesse colectivo acima das suas necessidades individuais.
ResponderEliminarFinalmente
ResponderEliminarCom privatização de cp e restantes transportes, juntamente com educação e saúde, o país pode Finalmente ter melhor serviço, por menor custo.
Até agora, nenhum serviço privatizado piorou. Veja-se o que eram Ren e edp antes e depois.
só no final do post, sintetiza o que importa, e tem de conseguir-se avançar para a atualizaçao da lei da greve.
ResponderEliminar(mas até ao final do post, só contribui para a confusao e inaçao, por exemplo referindo a questao do segredo de estado, coisa que nada interessa para o que nos preocupa, e expressa no post ).
O FDP do ministro montenegro falou na alteraçao da lei, e falou bem, tambem eu nascido e crescido nas greves, estou pelos cabelos, quer com as novas greves parciais, quer com o congelamento da lei .
Ou seja, todos percebem que a greve de uma cozinheira nao pode, NAO DEVE, encerrar uma escola.
Mais o seguinte :
absoluto e total direito a greve pelos trabalhadores, mas direito direito do estado nao só em proteger os cidadaos como a si proprio.
nao diria assim, mas tambem equacionei nesse sentido.
ResponderEliminarPor exemplo, falhadas negociaçoes, seria sempre um tribunal a resolver, nunca a greve.
Mas o que mais urge, ontem já era tarde, é regular as novas greves, como ainda agora comentei, é inconcebivel que a greve da cozinheira encerre a escola.
Curiosamente, o post não é sobre o direito à greve mas apenas sobre a inexistência de serviços mínimos, mas se nem um texto simples consegue entender, acho que não vale a pena continuar a conversa.
ResponderEliminarApenas uma informação adicional. Dos 15 sindicatos em greve, apenas um (1) é afeto ao PC, todos os, ou são "ditos" independentes, ou com direção diversas afetas a um vasto leque que vão desde o PS ao Chega.
ResponderEliminarO Metro de Coimbra não sofreu com esta greve. O funcionamento foi exactamente o mesmo desde há 30 anos para cá.
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ResponderEliminarFuncionários públicos não poderiam fazer greve.
Os trabalhadores da CP não são funcionários públicos. São funcionários de uma empresa que pertence ao Estado, o que é totalmente diferente. Alguém concebe que os trabalhadores da Caixa Geral de Depósitos, ou da TAP, não possam fazer greve?
ResponderEliminarO montenegro falou na alteraçao da lei, e falou bem
Pois terá falado, mas ele já foi primeiro-ministro durante um ano, e o que fez ou tentou fazer nesse sentido? Nada.
E o que está no seu programa eleitoral nesse sentido? Algo?
Montenegro falou na alteração da lei da greve? Eu li e ouvi muitos jornalistas a dizer isso, mas não ouvi Montenegro a dizer isso, nem nenhum dos jornalistas transcreve qualquer afirmação nesse sentido.
ResponderEliminarEntão quando disse que tinham de pôr cobro a isto, não era alterando legislação de modo a minimizar os impactos na população?
ResponderEliminarNão faço a mínima ideia.
ResponderEliminarO que ele disse, é isto: "Esta é uma greve absolutamente injusta, por mais razão sindical e laboral que pudesse existir a quem está a fazer a greve, entre os efeitos da greve, o prejuízo é causado à vida das pessoas e à vida do país. Há uma desproporção enorme e, francamente, nós um dia vamos ter de pôr cobro a isto".
O isto de Montenegro diz respeito à desproporção enorme, se para pôr cobro a isso ele acha que tem de mexer na lei da greve ou se está a pensar noutros instrumentos, não faço ideia.
Outros instrumentos... antigamente usava-se disso.
ResponderEliminarhttps://tviplayer.iol.pt/programa/jornal-nacional/63e6588b0cf2665294d4f012/video/681d032a0cf28cf88767fb38
"quando fala em alteraçoes"
"uma ponderação que a lei permita"