António Costa é um gestor de oportunidades com duas grandes qualidades: 1) consegue indentificar oportunidades a muito longo prazo, permitindo-lhe trabalhar para que eles se concretizem; 2) nunca fecha portas, a menos que seja estritamente obrigado.
Quando em 2015 percebeu que podia perder as eleições, percebeu também que a sua carreira política podia ser muito afectada por isso.
Com tempo, deitou fora a ideia, que defendeu publicamente, de que PS e PSD deveriam ter um entendimento estratégico para permitir que o mais votado entre eles governasse, mesmo em minoria, e passou a trabalhar na hipótese de perder as eleições de 2015, isto é, preparar, em segredo, um acordo com os partidos à esquerda do PS.
A coisa funcionou, Costa governou quatro anos e começou a trabalhar na hipótese de saltar do governo português para Presidente do Conselho Europeu, hipótese para a qual o calendário eleitoral português seria muito favorável ao terminar a legislatura no fim de 2023, mesmo a tempo de se posicionar para a ocupação do cargo do Presidente do Conselho Europeu em 2024.
Os partidos à esquerda e Marcelo Rebelo de Sousa, numa primeira fase, trocaram-lhe as voltas deitando o governo abaixo e marcando eleições para 2022, o que significava uma legislatura a acabar em 2026, limitando as suas possibilidades de ocupar o cargo que queria, sem se pôr na posição desfavorável em que ficou Durão Barroso para não perder a oportunidade de ser Presidente da Comissão Europeia.
Os eleitores reforçaram as nuvens negativas ao, surpreendentemente, darem uma maioria absoluta ao PS, em 2022, o que tornava mais complicado para António Costa manobrar as coisas de maneira a saltar a meio da legislatura para Bruxelas.
Não se deve subestimar Costa nestas matérias que verdadeiramente lhe interessam, isto é, a ocupação do poder que em cada momento acha o mais útil para si.
Por isso, em 2024, mesmo a tempo de gerir a sua candidatura a Presidente do Conselho Europeu, Costa aproveitou um pretexto contingente (podia ser esse, ou outro qualquer) para pedir a demissão, mandar as suas responsabilidades para com o país e os seus eleitores às malvas, fazer a trouxa e zarpar.
Costa não foi vítima do Ministério Público, nada, rigorosamente nada, obrigava António Costa a demitir-se, nada, rigorosamente nada, dos processos judiciais implicavam qualquer questão para a legitimidade no exercício do cargo de primeiro ministros e, já antes, tinha havido questões judiciais no seu governo que Costa, bem, tinha optado por impedir que contaminassem a esfera da política, sendo muito claro na sua recusa (e bem) de aceitar a judicialização da política.
O que se passou não foi a interferência da justiça no processo político, derrubando um governo, o que se passou foi o aproveitamente pessoal de Costa de um incidente jurídico politicamente irrelevante, para se pôr ao fresco sem custos políticos de maior (não se sabe o dia de amanhã, e Costa não quer limitar os seus horizontes pessoais que materializa através do processo político).
Se daqui a dias vamos a eleições, depois de há um ano irmos a eleições, é apenas porque António Costa não tinha o menor interesse em perder a oportunidade de ocupar o lugar de Presidente do Conselho Europeu, mesmo que isso significasse, como significou, deitar ao lixo a estabilidade política que estava assegurada até 2026.
Montenegro, evidentemente, aproveitou a inépcia política do actual PS para forçar agora eleições em vez de estar mais um ano e meio, pelo menos, a governar muito fragilizado, e o PS, sem flexibilidade tática para responder ao cerco, deixou-se ir na corrente.
Se no ano passado, e neste, temos eleições, isso deve-se essencialmente à ambição pessoal de António Costa, e não às opções políticas e pessoais de Montenegro e Pedro Nuno Santos.
ResponderEliminarMontenegro aproveitou [...] para forçar agora eleições em vez de estar mais um ano e meio [...] a governar muito fragilizado
Não vejo bem que vantagens Montenegro pensou extrair e extrairá. De acordo com as sondagens, pretéritas e atuais, as eleições resultarão num parlamento qualitativamente semelhante ao atual (isto é, com a AD sem ter maioria absoluta, mesmo que em eventual coligação com a IL), pelo que Montenegro continuará a governar numa situação de grande fragilidade. Nada melhorará substancialmente para ele.
Nem percebo para que se gasta dinheiro a fazer eleições em vez de lhe perguntar a si quantos deputados deveria ter cada partido.
ResponderEliminarUm excelente sumário, podiam-se substituir centenas de horas de TV por estes dois minutos, mas é claro que não era a mesma coisa, não dava para separar tantos anúncios uns dos outros.
ResponderEliminarE, dolorosamente, sobressai que temos um regime eivado de gente que natural e rotineiramente se serve do país como um recurso à sua disposição, e para o qual não têm qualquer dever ou respeito.
Bem dito. Análise assertiva
ResponderEliminarToda uma análise que coincide com o que sempre pensei no que respeita a Costa. Mas Montenegro não está isento de culpas, muito pelo contrário.
ResponderEliminarContudo, não tenho ilusões. Se Costa se candidatasse a PR teria certamente um bom resultado, porventura a vitória. Aliás se Sócrates se candidatasse com apoio do PS, o resultado surpreenderia muitos.
Evidente que estamos neste pantanal político por culpa exclusiva de Costa.
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