Tinha visto umas referências a uma entrevista a Sónia Sanfona, na SIC Notícias, na Quinta-feira, perto das dez da noite.
Vi o desfasamento entre alguém que quer falar de realidades concretas no uso de dinheiros públicos, prevenindo abusos sensatamente, e um jornalista que vive num mundo de regras formais no qual o dinheiro dos contribuintes é um pormenor sem grande relevância.
Foi já há bastantes anos que ouvi (ou li, não me lembro) João César das Neves dizer que o dinheiro do Estado era o dinheiro cuja utilização era mais exigente eticamente por nele estar incluído dinheiro dos mais pobres de todos.
Ao longo dos anos vou-me lembrando disto, às vezes uso esta ideia (escusam de me incomodar com o facto de ser muito baixinha a percentagem de dinheiro dos mais pobres, porque pagam poucos impostos ou porque o saldo da sua relação com o Estado até lhe é muitas vezes financeiramente favorável, estou farto de ouvir essa argumentação e acho-a intelectualmente pobre e moralmente indigente), insistindo frequentemente que esquecer este facto basilar é socialmente prejudicial.
Quando alguém extremamente pobre compra um quilo de batatas, mesmo que seja com dinheiro proveniente de uma prestação social paga pelos contribuintes, entrega 6% dessa compra ao Estado.
O Estado tem obrigação de saber que esses 6% foram retirados a um dos mais pobres de todos e, portanto, quando os usa, tem a obrigação moral de se esforçar por os usar de maneira a que o benefício social desse uso seja superior ao benefício social de deixar esse dinheiro no bolso de um dos mais pobres.
Que o jornalista se encarnice em saber se o dinheiro da prevenção de abusos no uso de prestações sociais é muito ou pouco é, para mim, deprimente: qualquer euro gasto indevidamente em gente que manipula as regras para aceder a recursos dos contribuintes que não lhe são devidos, é um euro gasto a mais.
A esquerda (e os outros) que pretende crucificar Sónia Sanfona por defender coisas banais e justas, como a prevenção de abusos no acesso a prestações sociais, com o apoio de uma comunicação social moralmente desorientada, é uma esquerda em vias de extinção.
Ainda bem.
Sem querer tirar alguma razão a Sónia Sanfona fico com as seguintes observações:
ResponderEliminar- A subsidiação para ter alguma eficácia não pode ser complexa, mas simultaneamente fica vulnerável a casos de subsidios indevidos;
- Este discurso de subsidios atribuidos indevidamente carecem de uma quantificação, porque habitualmente todos têm uma perceção, mas ninguém tem uma noção de quanto.
Eu considero que a pior emenda será criar mais mecanismos que pretendam dificultar o acesso aos pervericadores, porque provavelmente irão criar mais dificuldades aos que realmente precisam.
Há sempre uma coisa que tenho em mente e que se confirma de cada vez que um esquerdista abre a boca: a esquerda multiplica os pobres porque precisa deles para a sua retórica.
ResponderEliminarSem eles, desapareciam
É do mais simples que há: o acesso é verificado com base na declaração de rendimentos.
ResponderEliminarQuando há uma evidente discrepância entre os rendimentos declarados e o nível de vida verificável, a câmara pode decidir cortar o apoio.
Nem percebo em que é que isto gera discussão.
Eu vi a entrevista em directo e fiquei muito incomodado com a ignorância e a infantilidade do que se chama jornalista, a todo e qualquer papagaio que pague a carteira profissional.
ResponderEliminarToda a gente que vive fora do eixo Carnaxide Lisboa Cascais, conhece situações iguais à que a Presidente da Câmara de Alpiarça mencionou.
O rapaz insistiu em perguntar o que já estava respondido.
Até parece que a tese Socrática do amigo que paga tudo, é a regra para o país
Simplesmente abjecto
Passa sobretudo pela inversão do ónus da prova. As entidades públicas com provas atuais das possibilidades dos cidadãos (e não passa pela declaração de rendimentos) deverão ter o direito de cortar apoios sociais. Nesse caso, deverão os cidadãos fazer prova do contrário.
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