sábado, 7 de dezembro de 2024

Desfasamento

Tinha visto umas referências a uma entrevista a Sónia Sanfona, na SIC Notícias, na Quinta-feira, perto das dez da noite.


Vi o desfasamento entre alguém que quer falar de realidades concretas no uso de dinheiros públicos, prevenindo abusos sensatamente, e um jornalista que vive num mundo de regras formais no qual o dinheiro dos contribuintes é um pormenor sem grande relevância.


Foi já há bastantes anos que ouvi (ou li, não me lembro) João César das Neves dizer que o dinheiro do Estado era o dinheiro cuja utilização era mais exigente eticamente por nele estar incluído dinheiro dos mais pobres de todos.


Ao longo dos anos vou-me lembrando disto, às vezes uso esta ideia (escusam de me incomodar com o facto de ser muito baixinha a percentagem de dinheiro dos mais pobres, porque pagam poucos impostos ou porque o saldo da sua relação com o Estado até lhe é muitas vezes financeiramente favorável, estou farto de ouvir essa argumentação e acho-a intelectualmente pobre e moralmente indigente), insistindo frequentemente que esquecer este facto basilar é socialmente prejudicial.


Quando alguém extremamente pobre compra um quilo de batatas, mesmo que seja com dinheiro proveniente de uma prestação social paga pelos contribuintes, entrega 6% dessa compra ao Estado.


O Estado tem obrigação de saber que esses 6% foram retirados a um dos mais pobres de todos e, portanto, quando os usa, tem a obrigação moral de se esforçar por os usar de maneira a que o benefício social desse uso seja superior ao benefício social de deixar esse dinheiro no bolso de um dos mais pobres.


Que o jornalista se encarnice em saber se o dinheiro da prevenção de abusos no uso de prestações sociais é muito ou pouco é, para mim, deprimente: qualquer euro gasto indevidamente em gente que manipula as regras para aceder a recursos dos contribuintes que não lhe são devidos, é um euro gasto a mais.


A esquerda (e os outros) que pretende crucificar Sónia Sanfona por defender coisas banais e justas, como a prevenção de abusos no acesso a prestações sociais, com o apoio de uma comunicação social moralmente desorientada, é uma esquerda em vias de extinção.


Ainda bem.

6 comentários:

  1. Sem querer tirar alguma razão a Sónia Sanfona fico com as seguintes observações:
    - A subsidiação para ter alguma eficácia não pode ser complexa, mas simultaneamente fica vulnerável a casos de subsidios indevidos;
    - Este discurso de subsidios atribuidos indevidamente carecem de uma quantificação, porque habitualmente todos têm uma perceção, mas ninguém tem uma noção de quanto.


    Eu considero que a pior emenda será criar mais mecanismos que pretendam dificultar o acesso aos pervericadores, porque provavelmente irão criar mais dificuldades aos que realmente precisam.

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  2. Há sempre uma coisa que tenho em mente e que se confirma de cada vez que um esquerdista abre a boca: a esquerda multiplica os pobres porque precisa deles para a sua retórica.
    Sem eles, desapareciam

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  3. É do mais simples que há: o acesso é verificado com base na declaração de rendimentos.
    Quando há uma evidente discrepância entre os rendimentos declarados e o nível de vida verificável, a câmara pode decidir cortar o apoio.
    Nem percebo em que é que isto gera discussão.

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  4. Eu vi a entrevista em directo e fiquei muito incomodado com a ignorância e a infantilidade do que se chama jornalista, a todo e qualquer papagaio que pague a carteira profissional. 
    Toda a gente que vive fora do eixo Carnaxide Lisboa Cascais, conhece situações iguais à que a Presidente da Câmara de Alpiarça mencionou. 
    O rapaz insistiu em perguntar o que já estava respondido.
    Até parece que a tese Socrática do amigo que paga tudo, é a regra para o país 
    Simplesmente abjecto 

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  5. Passa sobretudo pela inversão do ónus da prova. As entidades públicas com provas atuais das possibilidades dos cidadãos (e não passa pela declaração de rendimentos) deverão ter o direito de cortar apoios sociais. Nesse caso, deverão os cidadãos fazer prova do contrário.

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