quinta-feira, 4 de abril de 2024

O princípio de Planck aplicado ao Estado Novo

A new scientific truth does not triumph by convincing its opponents and making them see the light, but rather because its opponents eventually die and a new generation grows up that is familiar with it ...


An important scientific innovation rarely makes its way by gradually winning over and converting its opponents: it rarely happens that Saul becomes Paul. What does happen is that its opponents gradually die out, and that the growing generation is familiarized with the ideas from the beginning: another instance of the fact that the future lies with the youth.


— Max Planck, Scientific autobiography, 1950, p. 33, 97
Colloquially, this is often paraphrased as "Science progresses one funeral at a time"


Preferi não traduzir o que está na Wikipedia, e que já citei várias vezes, para enquadrar o meu comentário ao que hoje ouvi num programa da Rádio Observador, o Contra-corrente.


Diz Maria João Valente Rosa (já explico mais à frente quem é para a pouco provável hipótese de haver alguém que não saiba quem é): "Quero eu dizer com isto que éramos um país realmente muito diferente do ponto de vista demográfico, mas eu diria que se nós hoje nos olhássemos ao espelho e víssemos esta imagem da demografia de 74 reflectida nós não nos reconhecíamos de todo e dizíamos não, este não é o nosso país ... tudo o que aconteceu começou em muitos casos antes de 1974, mas todas as mudanças que se deram e que marcam a diferença do país que hoje temos para o país que éramos são importantíssimas ... a mortalidade infantil diz-se, está bem, mas a mortalidade infantil já tinha começado a diminuir muito antes. Pois tinha, mas nós éramos dos piores da Europa e actualmente temos níveis de mortalidade infantil dos mais baixos da Europa e do mundo ... claro que a escolaridade aumentou ou foi aumentando, mas muito devagarinho ... em 74 cerca de um quarto da população era analfabeta, isto é uma coisa gravíssima ... mesmo que tivéssemos feito mudanças, e mudámos antes de 74, até chegarmos a 74, essas mudanças foram muito tímidas ... é muito importante olharmos para estes dados e colocá-los em contexto ... temos várias profissões que eram antigamente preenchidas por homens, como a advocacia ... e ainda hoje estamos a sofrer muito do país que herdamos de antes do 25 de Abril".


Maria João Valente Rosa não é um Rosas qualquer, é uma pessoa com uma carreira académica e profissional sólida, mais que respeitada, a quem o país deve, pelo menos, grande parte da qualidade da Pordata, essa é a principal razão para eu não deixar passar em claro tolices e erros de análise primários.


Qual é a razão para Maria João Valente Rosa começar por falar de escolaridade, dizendo que aumentou devagarinho, e depois ir buscar números do analfabetismo (e apenas de um momento, e não da sua evolução), que não podem ser confundidos com os da escolaridade?


No longo prazo há uma relação evidente entre escolarização e analfabetismo, mas Maria João Valente Rosa é demógrafa, está farta de trabalhar com estatísticas, tem formação em sociologia, portanto não pode deixar de saber que há um desfasamento entre escolarização e analfabetismo.


A escolarização pode ser resolvida rapidamente pondo as crianças em idade escolar na escola, como fez o Estado Novo em relativamente poucos anos (vinte? trinta?, no máximo?), mas o analfabetismo tem uma inércia muito maior porque a probabilidade de um indivíduo analfabeto aos vinte anos continuar analfabeto aos oitenta, é muito alta.


Não há maneira de considerar como tímida uma descida da taxa de analfabetismo dos 60 para os 25%, ou uma descida da mortalidade infantil para metade, mas se o ponto de partida for mesmo muito mau, como era o ponto de partida do Estado Novo, mudanças profundas (quer estas, quer as de consumo, quer as de rendimento per capita, etc.) podem, ainda assim, resultar num retrato mau no momento de partida da democracia portuguesa.


O lapso quase final de Maria João Valente Rosa, ao dar como exemplo de uma profissão vedada às mulheres antes do 25 de Abril a advocacia (a advocacia estava aberta às mulheres desde 1918, aliás, a primeira mulher advogada até começou mais cedo, com uma licença especial), provavelmente confundindo com o acesso às magistraturas, é bem ilustrativo de como no discurso que citei as opiniões precedem os factos, como é frequente quando se fala na evolução do país ao longo do século XX (e mais além).


"O essencial é isto: as raízes do atraso de Portugal são muito anteriores ao Estado Novo, tanto a nível económico como político ou institucional". Nuno Palma, aqui. Nesta ligação pode-se encontrar bastante informação que dá contexto ao que disse Maria João Valente Rosa, contexto esse que transforma factos reais em disparates de análise, não por falta de qualidade de quem faz a análise, mas porque as convicções são grande parte da nossa identidade e todos nós resistimos a deixá-las morrer.


A principal esperança é a de que a minha geração (e de Maria João Valente Rosa), é das últimas, se não a última, a precisar de esconjurar as asneiras que vamos fazendo com recurso a fábulas sobre o Estado Novo, e como já estamos mais para lá do que para cá, é bem possível que dentro de alguns anos seja possível discutir a historiografia do século XX serenamente, demonstrando mais uma vez que o avanço da ciência se faz a um enterro de cada vez.

26 comentários:

  1. Até há um sr de apelido Risas que se apresenta como historiador e tem acesso à tv(rtp principalmente) para "evangelizar" as massas com a sua cartilha ideológica camuflada de História. 

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  2. Mas isto é o normal em Portugal. É muito raro ver alguém pensar pela própria cabeça é mais confortável entrar numa narrativa, até para sucesso na carreira profissional.

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  3. Carreira sólida? Séria? Profissional? Não é! Se fosse, punha a verdade dos factos acima da ideologia. Não põe! É só mais um triste exemplo da fraca qualidade da academia portuguesa.

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  4. Intelectualmente ( deliberadamente? ) desonesta.
    Com "títulos" ( et pour cause...) ou sem títulos.
    Juromenha

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  5. Muito obrigado pela demonstração prática do que é dito no post.
    A escolarização praticamente total das crianças em idade escolar foi feita em cerca de vinte anos. Diz que é muito. Poderá ser, mas como era obrigatória há cem anos e durante cem anos não foi feita, talvez avaliar os 20 anos que que foi feito como sendo muito, talvez devesse revisão, que me diz?
    Sim, havia muito abandono escolar e muitas faltas à escola, mas o facto é que a taxa de analfabetismo desceu dos cerca de 60% para os cerca de 25% em cerca de 40 anos.
    Se a taxa de analfabetismo era 60%, quer dizer que grande parte desses analfabetos eram ainda vivos 40 anos depois, ou seja, a taxa de analfabetismo continuar nos 25% quer dizer que a população mais nova era quase toda escolarizada.
    Não percebi o que tem o trabalho infantil com o assunto, mas com certeza vai explicar-me.
    A esperança de vida era menor, mas a principal alteração da esperança de vida resulta da diminuição da mortalidade infantil, logo, concluir que a esperança de vida ter aumentado cerca de 15 anos se traduz em muito mais gente a chegar aos 80 anos é uma conclusão muito temerária: com certeza haveria uma proporção da população com mais de 65 anos bastante mais baixa (em 1960 seria 8% da população contra os 35% actuais), mas ainda assim mais que suficiente para pesasse bastante a fracção que era analfabeta com 15 anos em 1930 e que continuava analfabeta 40 anos depois (ou seja, ainda com 55 anos).

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  6. Lsio as afirmações de MJVR:








    Não vejo nada que esteja objetivamente errado. É um facto que a advocacia era preenchida por homens - haveria mulheres advogadas, não eram proibidas de o ser, mas o facto é que eram pouquíssimas. Um quarto da população era efetivamente analfabeta em 1974 e isso era de facto grave, portanto MJVR não errou nisso. MJVR concede que houve mudanças anteriores a 1974, quando muito podemos condená-la por qualificar essas mudanças de "tímidas". Podemos também condenar MJVR por dizer que a escolaridade aumentara "muito devagarinho", mas eu creio que isso não é de facto um erro.


    Enfim, eu diria que as afirmações de MJVR estão mais ou menos corretas, quando muito alguns adjetivos são um pouco inadequados.

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  7. Obviamente o apelido do indivíduo em questão é Rosas. 

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  8. Muito obrigado por confirmares tudo o que é dito no post (embora acabe por ser um comentário redundante, visto que se limita a repetir o que está no post).

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  9. Parabéns pelo "post". Achei curioso mas não inesperado, que os comentários, na maioria, vieram confirmar a razão de Max Planck. Abro um parêntesis para dizer que sou admirador de Max Planck com quem compartilho bastantes antepassados. E outro para dizer que, desde muito novo, fui opositor de Salazar, o que não quer dizer que o compare com esta gente que, com raríssimas excepções nos tem governado. Politicamente, onde Salazar cometeu erros, esta gente cometeu crimes. 
    O pior erro de Salazar e esse, para mim clamoroso, foi a política africana mas, também aí, esta gente conseguiu fazer pior. O pior da colonização portuguesa, e não excluo os trabalhos quase forçados - aliás forçados mas, ao menos, remunerados - nas culturas do algodão e do café e, o pior de tudo, as roças de S. Tomé não têm, mesmo assim, comparação com o que foi a descolonização. É curioso, aliás trágico, que Salazar, simplificando até ao osso, dizia que a alternativa à sua política seria o caos. Não tinha razão e alternativas nunca deixaram de existir e de serem propostas, sempre ignoradas quando não abafadas. Ora o que não consigo perdoar esta gente, foi exactamente darem razão a Salazar, que não a tinha. Entre guerras civis de anos, mais de metade da actual população angolana e moçambicana aglomerada em cidades, com condições deploráveis a paralização de quase toda a actividade agrícola, da Guiné, a que dei dois muito difíceis anos, entregue a narcotraficantes que se passeiam em Mercedes pelas ruas de Bissau, do calvário de Timor, tudo isso, repito, veio dar razão a Salazar, que não a tinha.
    Curiosamente, ou talvez não, demoraram quase 50 anos, pelo menos mais de 40, a dar razão a Salazar na questão das contas certas. E, mais uma vez, onde Salazar pode ter errado - na minha opinião teria sido melhor não acumular tantas reservas de ouro e divisas e ter acelerado a educação e o desenvolvimento económico - esta gente cometeu crimes. Delapidou reservas e destruiu património, um enorme crime, e, para acertar as contas, bloqueou o investimento público e deixou degradar os serviços públicos, outro enorme crime.
    P.S. - Se me for permitido, ainda voltarei e, desta vez, ao assunto da instrução.

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  10. Além dos erros que HPS aponta, e muito bem, a 




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  11. sou admirador de Max Planck com quem compartilho bastantes antepassados


    Compartilha antepassados com uma pessoa que viveu há um século?!


    Há quem diga que D. Afonso Henriques compartilhava antepassados com o profeta Maomé...

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  12. Exactamente. Compartilho dezenas, várias de antepassados com Max Planck. E consigo ligar-me a quase todos os intelectuais conhecidos da Alemanha do Sul.










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  13. As crianças que trabalham não vão à escola, logo o trabalho infantil é uma causa direta de diminuição de escolaridade.
    Usar a República (que durou 16 anos), ou a Monarquia Constitucional como termo de  comparação, dá que qualquer regime é bom nesse assunto.

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  14. (continuando)
    Do primeiro casal que compartilho com Planck (nºs 70/71 na numeração Sosa-Stradonitz (https://www.google.pt/search?sca_esv=0d192b7b40015184&sca_upv=1&q=Sosa-Stradonitz&spell=1&sa=X&ved=2ahUKEwj0iKGf76uFAxW59bsIHYecAUAQkeECKAB6BAgJEAI)) Philipp Gottfried Bilfinger (1652-1719) & Maria Veronika Orth (1669-1752) connheço mais 11 gerações Bilfinger e 10 Orth remetendo para meados do séc. XIV e com dezenas de antepassados nas famílias a que as ascendências se vão ligando.
    Seguem-se os 296/297 Daniel Betulius (1556-1609) & Christina Codoman (1556/1557-1611) e 566/567 Georg Schropp (1566-1612) & Marie Epple (1579-1609). Depois o 598 Michael Mästlin (1550-1631). Não descendo da 589, 2ª mulher mas da 1ª Margarethe Grüninger (1555-1588). Michael Mästlin foi professor de Matemática e de Astronomia na universidade de Tübingen, professor do astrónomo Keppler, descobriu uma Supernova e foi o primeiro a calcular a órbita de um cometa.
    <https://de.wikipedia.org/wiki/Michael_M%C3%A4stlin>
    Aparece na página 13 das 35 do "ahnentafel" de Max Planck e, dessa página em diante, o número de novas coincidências com os meus antepassados aumenta e aumenta muito.
    (continua)

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  15. Nada de surpreendente. Os alemães sempre foram uma sociedade classista e rigorosa nos casamentos. Por exemplo, luteranos não casavam com católicos, ponto final parágrafo. A seguir à Reforma, constitui-se uma elite letrada, as "gehlerten familien" funcionários públicos, pastores e professore que só casavam entre si e, raramente, na pequena nobreza. Acontece que eu tenho uma trisavó oriunda desse grupo social. O pai, de uma linha nobilitada com o predicado "von" ainda no séc. XVI, possuía um bom património mas, desiludido da política, dedicou-se ao comércio. Só que era casado com a filha de um professor universitário e filhas de professores universitário, não casavam com comerciantes ainda que ricos e da pequena nobreza. Acabaram por emigrar primeiro para Itália, finalmente para Portugal, onde já nasceram os dois filhos mais novos, a minha trisavó Júlia e o irmão Eduardo, 1º conde de Moser

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  16. Está completamente enganado, pode ir à escola aos sete, oito, nove e dez anos e começar a trabalhar aos 11 ou 12 (como era frequente).
    Nada no post se prende com regimes bons ou maus.

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  17. Há um livrinho excelente, que até está no plano nacional de leitura e recomendado a partir do 3º ciclo:


    Darrell Huff, Como Mentir com a Estatística.


    Ele explica bem como é possível, e fácil, desinformar conscientemente os outros sem que se diga nada "objectivamente errado". E é uma atitude muito mais habitual nos políticos da III República, que preferem governar para a estatística em vez de resolver os problemas de fundo. O problema do analfabetismo nacional é um caso paradigmático disso, onde no Estado Novo se pretendia que os estudantes aprendessem, a III República prefere encher as estatísticas de analfabetos funcionais, que muitas vezes são incapazes de escrever uma frase compreensível.
    O combate ao analfabetismo promovido pelo Estado Novo foi notável, se se fizer uma análise séria. Claro que análises sérias não interessam quando desmistificam a narrativa política do regime vigente...

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  18. E há outro elemento especialmente relevante: Em 1974, a dívida externa portuguesa era de 14% do PIB, ao passo que, 50 anos passados, festejamos ter voltado a ser de "apenas" 100% (de um PIB muito maior - mal seria - e, claro, em paz e não em guerra). Acrescente-se a esse valor um saldo superior a cem mil milhões de euros doado pela UE desde a adesão, em troca da nossa "independência nacional" tal com o Dr. Salazar a concebia (ele e o Enver Hoxha, para não me virem chamar fascista) .

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  19. Até há bastante gente a pensar pela própria cabeça, está é formatada a dita cabeça(ou queimada) para pensar de determinada maneira,ou seja, a maneira que os cartilheiros e ideólogos promoveram e estabeleceram como boa .

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  20. Não tem nada a ver com este post, mas faço notar que ontem a Antena 1 transmitiu uma entrevista de 45 minutos a Nuno Palma. Suponho que ela esteja disponível nos podcasts dessa estação de rádio. Acho que o programa se chama "Visão Global" (das 12 às 13 aos domingos).

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  21. Sinais dos tempos a que chegámos. Foi quase sempre, segundo consta, conciliar a soberania com o resto neste país,e muitos não querem saber da soberania para nada(veremos até quando). 

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