Um dos meus amigos ambientalistas diz que eu sou muito bom a deitar fora o bebé com a água do banho, querendo dizer que a minha crítica a muitas posições ambientalistas acaba por nem sequer ser ambientalista.
Nem ele, nem eu até há pouco tempo, percebemos, parece-me, que o afastamento progressivo das nossas visões ambientalistas me leva a ver espantalhos onde ele vê bebés.
Até hoje, nunca me tinha apercebido das razões para esse progressivo afastamento.
Foi quando outro amigo ambientalista me fez uma pergunta sobre uma situação concreta que envolve gestão florestal na serra da Lousã.
O que se passa é que os meus amigos ambientalistas que se mantêm dentro dos limites clássicos do movimento ambientalista estão a ficar progressivamente mais radicais porque têm cada vez mais um sentimento de urgência, isto vai rapidamente dar para o torto numa dimensão nunca vista.
E eu tenho vindo a radicalizar-me na defesa da eficiência dos processos como condição sine qua non para qualquer acção ambiental consistente, reforçando a ideia de Michael Porter e Class von der Linn de que a regulamentação ambiental deve ter como referência resultados, deixando a maneira de lá chegar à liberdade das pessoas.
Retomemos a gestão florestal na Lousã.
Boa parte dos meus amigos ambientalistas ficam chocados com um corte raso de um povoamento que foi plantado exactamente para isso.
Dizem que seria melhor adoptar um modelo de gestão com corte ajardinado, progressivo, e não uma perturbação profunda como a que acham que ocorre quando se faz um corte raso.
Eu ouço estes argumentos e não sei o que dizer, porque sendo o problema central da gestão florestal na Lousã a sua baixíssima rentabilidade, introduzir técnicas menos eficientes não produz uma gestão ambientalmente mais positiva, o que faz é promover abandono e destruir riqueza, sendo a pobreza o maior problema ambiental do mundo.
Este não é um problema dos meus amigos e meu, ocorreu na discussão da estratégia florestal europeia.
A política agrícola é comunitária, mas a política florestal não é, na verdade a União Europeia só intervém na floresta pela via ambiental.
O resultado é que quando a União apresenta uma estratégia europeia florestal, apresenta-a como uma estratégia de conservação da floresta, omitindo as funções produtivas da floresta, chegando ao ponto de ter propostas completamente delirantes, como a proibição de cortes rasos (a proposta caiu mal o esboço de estratégia teve o primeiro choque com a realidade, claro).
O movimento ambientalista e os funcionários da Comissão Europeia e dos Estados Membros responsáveis pelo esboço de estratégia para as florestas considerarão, claro, que se trata de uma cedência aos interesses económicos, evitando assim qualquer discussão racional sobre o assunto.
Os produtores não terão respeito nenhum por quem pretender proibir cortes rasos, demonstrando uma ignorância sobre os processos de exploração florestal inaceitável, com base na aplicação de um pensamento ambiental treinado na defesa de matas autóctones, evitando assim qualquer discussão racional sobre o assunto.
A questão não é que os meus amigos e eu, agora depois de velhos, nos tenhamos tornado uns radicais (de uma ou de outra posição), a questão é que a escala e a dimensão dos problemas é hoje incomparavelmente maior do que era há cem anos, porque a técnica e capacidade de intervenção aumentou muito, o que faz com que uns se assustem mais com as dificuldades de conciliação da actividade económica e a conservação dos recursos, e outros se assustem mais com os riscos para a actividade económica de qualquer diminuição de eficiência.
A votação do partido dos agricultores nos Países Baixos, as manifestações dos agricultores na Alemanha, o movimento dos coletes amarelos em França, tudo isso talvez sejam sintomas desta radicalização que me leva a ter cada vez mais dificuldade em discutir com os meus amigos ambientalistas de forma serena e racional (de parte a parte).
Talvez isso não seja apenas um problema entre os meus amigos ambientalistas e meu, talvez seja uma ilustração de um processo de radicalização em curso, bem mais geral do que pensei inicialmente.
ResponderEliminarum modelo de gestão com corte ajardinado, progressivo
No outro dia sugeri a uma pessoa que fizesse isso num pinhal que de que sou proprietário. Ele retorquiu que era muito complicado, por diversos motivos. Primeiro, seria muito complicado explicar em detalhe ao madeireiro que faria o corte quais as árvores que deveria cortar e quais as que não deveria, e seria muito complicado para o madeireiro fazer-me uma oferta pela madeira de só algumas árvores do povoamento. Segundo, haveria grande probabilidade de o madeireiro, ao fazer o corte e depois a retirada das árvores que cortasse, danificar gravemente as árvores que ficassem de pé.
Fazer um corte parcial é uma ideia interessante se fôr o próprio proprietário quem efetue o corte. Mas se o proprietário tiver - como na prática tem sempre - que adjudicar o corte a um madeireiro, fica muito complicado.
Concordo, mas o processo de radicalização em curso é mais extenso e já vem de há pelo menos umas 2 décadas.
ResponderEliminarO processo de radicalização é a consequência natural da cultura que o jornalismo/media/area cultura de esquerda evangelista criou.
na sua generalidade os ambientalistas não são para ser levados minimamente a sério.
ResponderEliminarsão na generalidade citadinos convencidos que o planeta gira à sua volta.
a cara de Guterres até assusta quando fala do que ignora: dentro em pouco proíbe a atividade vulcânica e os tremores de terra ou os maremotos.
ResponderEliminarPor falar em radicalização que cria mau ambiente. O SFJ incita os funcionários judiciais a entrar em comicio BE(ver blog oficial de justiça aqui no sapo). Entre várias respostas/ coments na mesma linha(no post em questão) passo aqui a seguinte:
"Ações de campanha? Isso são coisas dos partidos que em altura de eleições nos querem vender a "banha da cobra". Nāo vamos nessa, Vanessa.Sindicalismo tem de ser independente e não deve misturar-se com partidos, sejam quais forem."
ResponderEliminarComo assim?
ResponderEliminarConvém perceber que toda a actividade humana (a bem dizer, animal) tem impacto sobre o ambiente. Maior, menor, mais ou menos abrangente.
Há uns tempos ouvi um senhor caçador(?) a reclamar que ele aviava um único veado com a sua besta, enquanto que os agricultores de tofu matavam insectos, aves e mamíferos aos magotes com a destruição do seu habitat, armadilhas e produtos químicos. Quem seria mais amigo dos animais, o carnívoro ou o vegan?
De resto, se é para falar, podemos sempre discutir a mobilidade "verde", o impacto da economia digital na produção de electricidade, ou as cadeias logísticas das bateria de lítio que fazem mover os Teslas.
Tem razão a frase pode ser mal interpretada, mas na verdade só queria dizer que os interesses dos agricultores está tão mal representado nos partidos mainstream (por razões de eficácia ambiental das questões ambientais) que eles sentiram necessidade de fazer um partido que garantisse essa representação.
ResponderEliminarO facto de ter uma boa votação e crescer rapidamente, quer dizer que esse mal estar é provavelmente bem maior do que as sociedades urbanas gostariam de admitir.
No caso particular mete muito nacionalismo ao barulho
ResponderEliminarNão é "a agricultura" em si , mas o que é visto como um ataque a uma sociedade e ao seu modo de ser, em nome de valores que o normal neerlandês não reconhece. Eles são um país altamente conservador nos seus costumes.
Já agora, regrediram nestas eleições, ficaram bem abaixo do esperado. Mas foram dos poucos a reconhecer wilders como o vencedor, na perspectiva deste ser PM.