"Quando pediu desculpa aos que sofreram abusos de padres, não teve sequer o cuidado de olhar para a câmara. Olhou para o papel".
Esta frase, que considero obscena, está num artigo que é um monumento de desonestidade, assinado por Bárbara Reis, no Público do dia 4 de Março.
Logo que a li, lembrei-me do senhor que a preparar a sua comunicação ao país sobre o facto de ir pedir ajuda aos credores internacionais, perguntava ao seu assessor de imagem se ficava melhor filmado da esquerda ou da direita.
Perante problemas imensos e complexos, o que une Bárbara Reis e José Sócrates são conselhos triviais de assessoria de imagem, aquilo que é a preocupação central de qualquer bom aldrabão.
A discussão sobre abusos sexuais de crianças e adolescentes - é a discussão que me interessa a mim, as questões da igreja deixo para a igreja resolver - é hoje uma discussão de que a racionalidade está bastante arredada.
Por eu perguntar, insistentemente, o que há de específico no que se sabe sobre o assunto dentro da igreja, uma questão central para perceber se o que é preciso é olhar para a igreja ou para a sociedade transversalmente, já me disseram que apenas queria desviar as atenções da igreja (a tese é subscrita também, em termos gerais, por Bárbara Reis: "Para fugir ao tema, "desvia", o verbo é da comissão: "E o abuso sexual na família?! Porque não se fala nisso?!". Hoje chamamos a isto "whataboutismo").
E, no entanto, pelo mundo fora, há quem faça exactamente o esforço de tentar perceber essa questão central, seja a comissão francesa, seja o trabalho dos australianos, seja o trabalho no Reino Unido (com relatórios específicos para diferentes organizações), seja nos EUA, seja em boa parte da investigação académica sobre o assunto.
Parece-me que Bárbara Reis (como grande parte das pessoas que leio e ouço) não esteja muito interessada em avaliar o problema de abuso sexual de menores com rigor e pelo artigo compreende-se.
Escreve Bárbara Reis "É estranho como milhares de pessoas pelas aldeias, vilas e cidades de Portugal sabiam, mas não os bispos". O que acho estranho é que, se era assim, a comissão independente tenha 512 testemunhos, e não milhares, mas enfim, essa é uma questão menor.
Mais relevante é a pergunta sobre quantas reportagens e investigações fez o Público sobre o assunto nos sete anos em que Bárbara Reis foi directora do Público, se tinha conhecimento dessas milhares de pessoas que sabiam. Ou será que, como ela diz dos bispos, andou a ocultar o assunto e nem mesmo com o processo da Casa Pia (onde, é bom lembrar, um governo tentou substituir um procurador geral da república, por todos os meios ao seu alcance, para poder controlar a investigação, apesar de sempre o ter desmentido) acordou para a extensão do problema do abuso sexual de menores?
Claro que o parágrafo anterior é pura demagogia minha, é apenas uma ilustração do tipo de argumentos usados nesta discussão e que, na verdade, procedem mais de processos de intenções que de análises racionais e fundamentadas de factos.
As mesmas coisas ditas por pessoas diferentes, geram reacções completamente opostas (pessoas que batem palmas às declarações de Dom Januário Torgal afirmando, peremptóriamente, que aqueles sobre os quais existem suspeitas fundamentadas devem ser imediatamente suspeitos acham as declarações de Dom José Ornelas no mesmo sentido inacreditáveis, apenas porque um põe a tónica no "imediatamente suspensas" e outro põe a tónica no "fundamentadas" a propósito de uma lista de nomes que é uma lista de nomes), numa boa demonstração de como a emoção se sobrepõe à racionalidade na discussão.
O que para mim é mais inquietante é a quantidade de pessoas, razoáveis, informadas, bem intencionadas, que acham normal suspender preventivamente uma pessoa, seja do for, com base numa referência que não foi devidamente investigada.
Não se trata de esperar por decisões finais de processos complexos, isso é outra coisa, mas da mera verificação sobre a solidez dos indícios associados a essa referência, coisa que é desvalorizada como "meros formalismos", como seja o formalismo de dar o direito de defesa aos acusados e o formalismo de avaliar a plausibilidade dos factos antes de qualquer decisão, mesmo que preventiva.
O fino verniz da civilização que nos separa da arbitrariedade do poder característico de sociedades pouco civilizadas está exactamente no respeito pelos formalismos essenciais, ou dito de forma mais palatável, só um processo justo ajuda a garantir a justiça das decisões.
O que é inquietante é a facilidade com que qualquer perturbação, qualquer comoção forte, faz tanta gente que, em tese, concorda com a imprescindibilidade dos formalismos e do processo justo para atingir a justiça, passa a defender que a gravidade e celeridade das decisões justifica o abandono do formalismo e das regras de um processo justo.
O verniz da civilização é realmente muito fino e estala ao menor abalo.
os avençados mafiosos cumprem o seu papel.
ResponderEliminarsou Agnóstico. não gosto de ser enxovalhado como ignorante.
comissão altamente credenciada não sabe investigar. tinha vergonha de assinar aquela trampa e de mostrar a cara em público.
a republiqueta afunda-se com a orquestra a tocar e o coro a cantar
ResponderEliminarhttps://24.sapo.pt/atualidade/artigos/daniel-sampaio-contraria-cardeal-patriarca-quando-diz-que-a-igreja-nao-tem-dados-nao-e-verdade
No tempo do Prec em que o Otelo assinava mandatos de prisão em branco é que era bom. Volta Otelo que os mata frades deste tempo assim o exigem. Um inquerito à Casa Pia tutelada pelo Estado, pedido de desculpas e indemnização às vitimas é já a seguir. Nem pio.
ResponderEliminarMas a pedofilia não é um crime público? Então porque não seguiu, como é usual, os trâmites normais, ou seja, porque não se entregou imediatamente o caso à Justiça e não somente à hierarquia da igreja? A Comissão Independente assim que ouviu os testemunhos das vítimas e reuniu os depoimentos e provas, devia fazer duas coisas e :
ResponderEliminar- fazer chegar à Igreja as conclusões desse inquérito (e a Igreja que as tratasse internamente) ;
e
- imediatamente entregá-las também ao Ministério Público.
Compreendo que haja quem, chocado com toda esta imoralidade, esteja a levar o caso para o domínio da ética e dos valores (é inegável que também o é), mas é, com uma moldura penal e como tal deve ser tratado pela Lei e nas devidas instâncias. E sendo também um escândalo é passível de provocar alarme social.
E era quanto bastava. Tudo o mais são "rodriguinhos" e jogos florais de Bárbaras e quejandos. Os jacobinos não estão de boa fé e são parte integrante de todo este lamaçal. Porque no fundo, querem lá saber das vítimas! Mal conseguem disfarçar que lhes Interessa muito mais explorar este filão proveitoso para os seus intentos: açoitar a Igreja, desancar no clero (que o merece) e dar largas ao seu anticlericalismo e ateísmo militante _ convenhamos que a Igreja e o clero se puseram a jeito e se colocaram no pelourinho.
De facto, o HPS tocou no cerne e chamou a atenção para o perigo deste verniz de civilização que estala ao menor ímpeto de bárbaros "justicialismos" _ sobretudo vindo de quem, muito selectivamente, só agora acordou para esta realidade quando outrora desvalorizou (pelo silêncio) casos anteriores de pedofilia: "
Tudo o que era passível de ser crime foi entregue ao ministério público.
ResponderEliminarForam 25 casos, dos quais se abriram 15 inquéritos (os outros dez não tinham elementos mínimos para abrir inquérito, por não se saber quem era a vítima, sequer), desses 15, nove, até agora, foram arquivados por falta de elementos mínimos para qualquer acusação, seis continuam em investigação.
Não quero discutir mas apenas esclarecer.
ResponderEliminarA obrigação de denúncia para crimes públicos só abrange funcionários públicos que tomem conhecimento do crime no desempenho das suas funções.
Faça uma pesquisa "google" com as palavras "pedofilia" "obrigação de denunciar" e fica cabalmente elud«cidado.
O comentário do Anónimo das 14H39 fr ontem leva-ma a reproduzir um comentário que publiquei ontem na caixa do Observador e ainda uma resposta a esse comentário.
ResponderEliminarSão, na verdade, poucos os crimes que reuniam elementos mínimos, consistentes para abrir um inquérito.
ResponderEliminarLonge de mim querer dar razão ao prof.Marcelo mas é quase uma tentação dizer que "a montanha pariu um rato"!
Francisco Almeida, há umas ligeiras nuances, pois a lei diz o seguinte em relação a crimes públicos (como são os casos de abuso sexual de menores):
ResponderEliminar- a vítima denunciar o agressor;
- o cidadão comum denunciar o agressor, mas a fazê-lo;
- a de denúncia de crimes públicos só existe para os funcionários públicos. Este estão à denúncia.
Não é bem assim.
ResponderEliminarOs agentes de autoridade estão obrigados, os outros funcionários públicos só estão obrigados a denunciar crimes de que tenham conhecimento por via das suas funções.