Sou do tempo dos telegramas. Aquelas mensagens ditadas pelo telefone, pagas à palavra e enviadas numa emergência, que um estafeta de bicicleta entregava ao destinatário num curtíssimo espaço de tempo. As notícias más e as importantes sabem-se sempre.
Sou do tempo em que, na recepção do aldeamento turístico
algarvio, os hóspedes faziam bicha depois das oito da noite — quando a tarifa
era mais acessível — para pôr as novidades em dia com algum familiar doente ou
mais ansioso. No resto do tempo, estávamos por nossa conta. O mês de Agosto era
um verdadeiro interregno; até o futebol parava.
Nesses mesmos aldeamentos, no pico do Verão, havia um ritual
matinal sagrado: a recepção enchia-se de empresários e profissionais liberais,
de chinelos e fato de banho, a ligar para o escritório, a recolher recados ou a
ditar respostas para o telex. Só depois, com a mente limpa, iam gozar com a
família as delícias da praia morna.
Sou do tempo em que as pessoas viajavam, desligavam das
rotinas e compravam postais ilustrados. Escreviam-se linhas quentes de amizade
e verdadeira nostalgia a partir de destinos idílicos. As férias davam azo às
saudades.
A internet e os telefones inteligentes acabaram com esta
experiência existencial da pausa, com esta interrupção de um quotidiano que
tantas vezes nos escraviza. Antigamente, por opção, escolhia-se uma salutar
alienação — um desligamento que, à segunda semana, era quase total. Uma
experiência de liberdade inaudita para as gerações de hoje, que vivem agarradas
às redes sociais e ao imediatismo das mensagens. "É como enviar um postal
aos amigos", dizem-me os mais novos sobre as publicações que trocam sem
descanso. Mas eu, que hoje trabalho por conta própria, pagava era para poder
desligar o computador e o telemóvel por quinze dias.
A verdade é que temos saudades do silêncio de uma vida sem
ecrãs. Saudades de ter saudades. De regressar das férias com novidades para contar
aos amigos e curiosos pelas notícias da família e da nossa terra — aquelas que
líamos no jornal ou ouvíamos no noticiário das oito, feitas de factos sem demasiado ruído dos comentadores insistentes.
Há muita gente que já não sabe o que isso é.

Pessoalmente, era um martírio ir para fora (bastava Espanha) e ter zero notícias de casa. Não ler um jornal diariamente era masoquismo.
ResponderEliminarNão sinto falta disso.
Pegando nas suas últimas palavras:
ResponderEliminarSim, o telejornal começava com as notícias nacionais, depois vinham as estrangeiras, seguia-se o desporto, às vezes uma nota cultural (abertura da Feira do Livro, estreia de uma peça, por exemplo) e o boletim meteorológico para fechar. Imagens ou reportagens que acompanhavam notícias não traziam comentários adicionais ou então a reportagem era uma entrevista.
Actualmente, irrita o excesso informativo simultâneo, que até me faz mudar de canal: símbolos diversos nos cantos do ecrã, notícias a correr no rodapé, chamadas de atenção para os convidados que se seguem, realces para afirmações produzidas pelo apresentador ou comentarista, enfim sobreposições que às vezes ocupam importante espaço visual. Aborrece.
permita-me a correcção: o tempo estava fora do telejornal, pois tinha direito a programa próprio, a seguir ao fecho do noticiário, sendo apresentado por meteorologistas do extinto INMG, tendo como protagonistas Costa Malheiro, Costa Alves, José Manuel Prista, Teresa Abrantes, Ruivo de Carvalho e, claro, o saudoso Anthímio de Azevedo.
EliminarCada segmento demora meia hora. E traz o inevitável comentário.
EliminarDispenso
"Nesses mesmos aldeamentos, no pico do Verão, havia um ritual matinal sagrado: a recepção enchia-se de empresários e profissionais liberais", pois, quem mais lá estava, a maioria ficava em casa nas férias ou nem sequer as tinha. É por isso que "adoro" monarquicos a viver numa republica.
ResponderEliminarO que para aí não falta são monarquias, o que estão cá a fazer?
Comentário idiota de cassete socialista ...
EliminarUns faziam bicha [sic] á noite para telefonar, porque era mais barato, já os empresários tratavam dos negócios pela manhã, incluindo por telex. Bons velhos tempos em que os aldeamentos turísticos acolhiam pobres e ricos. Eram um paraíso na terra, ainda por cima aqui tão perto. Volta Salazar.
ResponderEliminarUm comentário idiota, para dizer o mínimo.
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