![]()
(...) Bento não ficará na história como um Papa banal, nem tão-pouco como o profeta das trevas que muitos teimavam ver representado nele. Há décadas que vinha avisando a Igreja para se preparar a viver em ambiente minoritário e liberta espiritualmente do imperativo categórico da "correcção" contemporânea. Sabia que a sua sobrevivência, nestes tempos levianos e superficiais de efeito fácil, depende muito da intransigência em manter-se um olhar céptico e realista para dentro da própria Igreja, para a "condição humana" da Igreja - homens e mulheres dela, e leigos, já que ninguém é obrigado a ser cristão, muito menos católico. Como escreveu em “A Luz do Mundo, «o Mal pertencerá sempre ao mistério da Igreja. Se olharmos para tudo o que os homens, e nomeadamente o clero, fizeram na Igreja, temos aí verdadeiramente uma prova de que Ele fundou a Igreja e a sustém. Se ela apenas dependesse dos homens, há muito que já teria perecido.»
Nunca cedeu ao populismo. A sua altiva timidez, o seu rigor teológico e filosófico, a sua fidelidade à razão eram incompatíveis com o "festim nu" de uma sociedade sem rumo à vista. Deus comanda a esperança contra toda a esperança, na expressão feliz de João Paulo II, mas Bento nunca alimentou ilusões ou ambiguidades em relação à natureza humana. Retirou-se do mundo quando sentiu que servia melhor a Igreja oculto dele. Não foi, como muitos tolos julgaram então, um sinal de fraqueza. Representou, antes, um sinal de uma força enorme. Ensinou-nos que “Deus ainda acende fogueiras na noite do mundo para convidar os homens a reconhecerem em Jesus o «sinal» da sua presença salvífica e libertadora”. Que "estamos a avançar para uma ditadura de relativismo que não reconhece nada como certo e que tem como objectivo central o próprio ego e os próprios desejos". Exigiu uma fé "mais madura" e um combate sem tréguas ao "radicalismo individual" que nos faz "ser criança andando ao sabor de ventos das várias correntes e das várias ideologias". Em suma, ensinou-nos que não foi em vão que Jesus “desceu para a noite de Getsémani, para a noite da Cruz, para a noite do túmulo. Ele desceu porque, no confronto com a morte, é mais forte; porque o seu amor leva o selo do amor de Deus que tem mais poder que as forças da destruição. É precisamente nessa saída, no caminho da Paixão, que está o acto da sua vitória; no mistério do Getsémani já está o mistério da alegria pascal. Ele é o mais forte, não há nenhum poder que possa resistir-Lhe e nenhum lugar onde Ele não esteja. Ele chama-nos a tentar a caminhada com Ele, porque onde houver fé e amor, aí estará Ele, aí estará a força da paz que supera o nada e a morte.”
Texto de João Gonçalves no Facebook
* Bento XVI.
estava a fazer pesquisas no AS e na BA quando faleceu João Paulo II e elegeram 'Benedeto'
ResponderEliminara republiqueta vai ter um lindo enterro
Morreu o "meu" Papa. Antecedido por S. João Paulo II e sucedido por Francisco. Não quero comentar as virtudes pessoais de cada um - afinal um é Santo, o outro goza da maior taxa de aprovação mundial - mas, como cabeça da Igreja, preferi Bento XVI.
ResponderEliminarNa história da Igreja, avulta a sua relação privilegiada com o poder. Digladiavam-se os seus vários sectores pelo cargo de confessor, porque quem falava ao ouvido do Príncipe, podia fazer a diferença. Para o bem e para o mal. Lembro a propósito o tristíssimo episódio do referendo em Timor que valeu 30 mil mortos, e muito se deve ao voluntarismo do Pe. Melícias, como confessor de Guterres.
O poder não muda e tem regras próprias. O que muda são os cenários, os actores e os protagonistas. A seguir ao 25 de Abril, o poder era o MFA e por isso, Adriano Moreira - de quem recordo a lição sobre teoria do poder com imensa saudade - sobre ele escreveu um livro que titulou de "O Novíssimo Príncipe".
Mais tarde o poder veio para a rua, Não uma rua caótica e desorganizada mas uma rua controlada e dirigida. O poder eram as organizações sindicais. Mais tarde ainda - numa mudança ainda em curso e de que não se adivinha o resultado - o poder é a opinião pública, evidentemente controlada e dirigida pela opinião que se publica, e antecedida pela que se impõs na escola.
Tendo tudo isto em conta, não me impressionei favoravelmente pela visita de S. João Paulo II ao Brasil e apoio a um Lula, então muito mais radicalizado do que hoje; nem sequer pela visita à Polónia e apoio a Lech Walesa. Como não me impressiono hoje por ver Francisco a trazer para a praça pública os problemas graves da Igreja.
Serei talvez cínico mas o que vejo são manifestações da mesma relação privilegiada com o poder; de mais uma regra que não mudou.
Bento XVI foi diferente. E bem merecia que escrevesse sobre ele mas isto já foi longo e polémico o suficiente,... ou mais do que isso.