Não sei o suficiente de geopolítica para me pôr a escrever sobre a operação militar especial na Ucrânia.
Mas tenho uns vagos conceitos morais com que olho para o assunto.
"Os russos", a "alma russa" e coisas que tais, não são entidades concretas, o que existem são pessoas que falam russo, se sentem russos e, na maior parte, vivem na Rússia.
"Os ucranianos", a "mãe pátria ucraniana" e coisas que tais, não são entidades concretas, o que existem são pessoas que também falam russo, uma boa parte também fala ucraniano, se sentem ucranianos e, na maior parte, vivem na Ucrânia.
Quer uns, quer outros, querem basicamente o mesmo: sobreviver sem um esforço maior que o necessário, e viver tão confortavelmente quanto possível.
Daí não ter sentido nenhum pretender afectar russos ou ucranianos concretos que não contribuíram, em nada, para as patifarias que alguém decidiu fazer em seu nome.
Desse conforto faz parte a liberdade de decidir o que é melhor para si, para a sua família, para os seus amigos, para a sua aldeia, para a sua região, para o seu país.
Acontece que, com base em metafísicas variadas, há uns dirigentes que acham que os países que eles governam têm direito a um espaço vital que lhes dá o direito a decidir sobre os países dos outros.
Na minha bússola moral, isso não faz o menor sentido: Cuba, Ucrânia, Coreia do Norte, País Basco, Cabo Verde, Madeira, Texas, escolha-se o que se quiser, a que escala se entender, têm o direito a tomar as suas decisões, independentemente de agradarem ou não ao país do lado.
Claro que isto é mais simples de dizer, é a enunciação de um princípio geral, que de executar, porque é difícil pôr em prática os mecanismos que garantam estabilidade e, ao mesmo tempo, representatividade, na definição do que é a vontade das pessoas que vivem em cada uma dessas entidades administrativas geográficas, tanto mais que as fronteiras dessas comunidades geograficamente definidas se marcam sempre em função das fronteiras de outras comunidades que podem não ter a mesma opinião sobre onde marcar essas fronteiras.
Não se pense que isso é de agora e só é um problema nas comunidades muito estruturadas: os conflitos de fronteiras de baldios, até onde poderia ir o gado de cada aldeia, por exemplo, não só eram frequentes, como se perdem na noite dos tempos.
É verdade que é tudo muito complexo, até porque o sentimento de pertença a uma comunidade é ele próprio complexo e instável.
No entanto, por mais complexo que seja, isso não implica qualquer compressão do princípio geral: são as comunidades livremente organizadas que têm a legitimidade para decidir o que querem, seja o limite dos pastos para o gado, seja a adesão à Nato ou a outra instituição supranacional qualquer.
E daqui resulta uma questão cristalina sobre a guerra em curso: nada, mas rigorosamente nada, dá legitimidade à invasão da Ucrânia pela Rússia.
E muito menos conceitos que a história provou serem tóxicos, como a área vital de um país ou, para sermos mais moderados dada a má fama que Hitler deu à ideia de espaço vital do país, a área de influência de um país.
Até pode haver áreas de influência dos países, mas nunca pela supressão militar das liberdades das pessoas que vivem noutro lado qualquer, pessoas essas que não se sentem, legitimamente, como pertencendo à comunidade agressora.
ResponderEliminarOra bem. É isso mesmo.
As sanções que agora estão a ser impostas, a todos os níveis, contra a Rússia, vão afetar muitíssimo os russos que, na sua imensa maioria, em nada contribuíram para as patifarias que alguém decidiu fazer em seu nome.
Para além de irem afetar também os cidadãos dos países que impõem as sanções.
As sanções em nada contribuem para minorar o sofrimento no mundo. Só o fazem aumentar.
ResponderEliminar
ResponderEliminar
ResponderEliminarEu nunca tomei partidos. Pergunto só: quais as razões.
Cumprimenta
Sim, eu sei que há quem ache que a responsabilidade pelas opções de Putin não são de Putin, mas de alguém, com base no exótico argumento de que não se pode provocar Putin, sendo que quem define o que é uma provocação é Putin.
ResponderEliminarPor exemplo, se a Finlândia aderir à Nato, isso não é uma decisão legítima dos Finlandeses, mas uma provocação da Nato/ EUA a Putin, pelo que se Putin invadir a Finlândia a responsabilidade não é de Putin mas do Ocidente/ EUA.
É por isso que eu digo que não percebo nada de geoestratégia, não vejo a menor lógica no raciocínio acima, mas como como são pessoas muito estudadas que dizem isto, devo ser eu que não sei o suficiente para perceber como a responsabilidade de tomar a decisão de invadir um país é de terceiros e não de quem toma a decisão.
ResponderEliminarHenrique,
na moral consuetudinária há um princípio, "não faças aos outros aquilo que não queres que te façam a ti".
Ou seja, não deves fazer tudo aquilo que te é permitido legalmente fazer. Tens que ter em conta o bem-estar dos outros.
Nas relações internacionais é a mesma coisa. A Finlândia tem legalmente o direito de fazer o que quiser. Mas deve ter em conta o bem-estar dos seus vizinhos.
Se a Finlândia não quer que ponham em causa a sua segurança - que até agora nunca foi posta em causa, que eu saiba - convém que também não coloque em causa a segurança dos outros. Porque não deve fazer aos outros aquilo que não gostaria que lhe fizessem a ela.
A Finlândia aderir à Nato põe em causa o bem estar de alguém?
ResponderEliminarFinlandeses e ucranianos são livres de pedir a adesão Nato como são livres os EUA de não incentivar e recusar essa adesão, por motivos de "equilibrio de poder" entre potências (nucleares") e o bem maior da segurança mundial.
ResponderEliminarComo eram livres os cubanos de pedir armas aos soviéticos em 1962...
E, a propósito de geopolítica e Cuba, não se esqueça da "doutrina Monroe".
A Rússia invade a Ucrânia há uma semana, e mandam-me não me esquecer de uma doutrina de há 200 anos que visava defender os novos países da América da ingerência dos imperialismos europeus.
ResponderEliminarIsto não se inventa.