sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Um retrato de nós

IMG_20220114_084457.jpg


Isto é uma fotografia do debate entre Costa e Rio, no momento em que Costa, para demonstrar que disse ao eleitorado que iria fazer a geringonça, mostra a capa do Expresso anterior às eleições.


Costa sabe que esta capa não o cita a ele (mas a fontes anónimas), sabe que este título é da responsabilidade do jornal e dos jornalistas, e sabe perfeitamente que em lado nenhum disse, publicamente, que se perdesse, iria fazer a geringonça.


Aliás, mesmo depois das eleições andou numas reuniões com a PAF das quais saía sempre a dizer que Passos Coelho não apresentava propostas nenhumas a que pudesse dar resposta para apoiar um governo da coligação que ganhou as eleições.


Ontem, no debate, disse claramente que entendia que se perdesse era porque o eleitorado fazia uma leitura negativa da sua actuação, e portanto ir-se-ia embora, embora não tenha explicado por que razão esse raciocínio não tinha sido válido em 2015.


Tudo isto define bem Costa (mais até que a mentira de dizer que Neeleman faliu em 2020 e fechou as suas empresas, como teria fechado a TAP se o governo não a tivesse nacionalizado outra vez), mas não é Costa que me interessa neste post.


Esta capa do Expresso resultou de uma boleia que Costa deu a uma jornalista do Expresso durante a campanha, em que lhe disse que faria a geringonça, lhe disse que se quisesse podia publicar essa informação, mas que ele, Costa, nunca a confirmaria.


Isto é uma forma, feia, mas legítima, de Costa condicionar jornalistas, dando um exclusivo sumarento, em troca da não revelação da fonte.


O problema é quando jornalistas e jornais como o Expresso aceitam quebrar as regras da sua profissão, a citação de fontes anónimas sem ser por razões plausíveis de segurança e risco para a fonte, regras essas que existem exactamente para limitar a capacidade de fontes interessadas plantarem informação que lhes interessa, sem assumir responsabilidades por isso.


Esta é a primeira imagem desagradável de nós que resulta da fotografia que está no princípio do post: uma imprensa que se deixa encadear pela necessidade de publicar o que ninguém publica, acabando a ser manipulada por um político experiente no assunto.


No entanto, o mais desagradável não é essa primeira imagem de nós, enquanto sociedade, o mais desagradável é que tudo isto é do domínio público e, mesmo assim, Costa continua a poder exibir esta capa de jornal como prova de que sempre disse ao eleitorado que iria fazer a geringonça, como se a simples necessidade de recorrer a esta prova não fosse a demonstração de que de facto, na campanha, não disse o que iria fazer se perdesse as eleições mas a esquerda tivesse maioria no parlamento.


Somos nós que apreciamos mais a "habilidade" de Costa dá mostras, que o que significa o facto de uma pessoa mentir ao seu eleitorado (não a mim, que não votei nele, mas aos outros, aos que votaram nele) com o objectivo de não o assustar, para ter oportunidade e tempo para fazer passar a ideia de um modelo de governo que nunca quis apresentar ao eleitorado porque suspeitava que isso prejudicaria a votação - em termos mais substanciais, porque tinha a percepção de que não era isso em que o eleitorado votaria.


Costa é o que é, mas o que é verdadeiramente deprimente é nós sermos o que somos.

5 comentários:

  1. pensei que era nova versão do assalto ao capitólio
    ou
    a mania das grandezas

    ResponderEliminar

  2. Se a geração actual não varrer para o caixote do lixo, os Costas, os PC´s, BE´s , que nos envergonham como europeus, ficaremos miseráveis como qualquer socialismo rosa:


    Dirigentes "esclarecidos" e numerários servis.


    A Gama Vieira

    ResponderEliminar

  3. "...o que é verdadeiramente deprimente é nós sermos o que somos."
    Sim, mas convenhamos, o sistema de selecionar políticos não ajuda.

    A máquina PS, mais de 40 anos a congregar interesses, provavelmente vai tornar selecionar e enviar o braço direito do ex-PM PS Sócrates, para S. Bento.

    Depois, mais uma vez, é só esperar que o FMI, o BCE e a UE ainda tenham uma restia de paciência, o que já não vai ser tão fácil como foi anteriormente.

    ResponderEliminar
  4. Se as pessoas repararam, Costa ontem, mais uma vez, piscou o olho ao Pan. Que ninguém tenha dúvidas do significado dessa sinalética: se Costa ganhar sem maioria, governará com o apoio desse partido e _ sem ter preparado os eleitores para essa possibilidade com toda a clareza, dirá:
    _ "Vamulaver, eu fui muito claro!"Perante um eventual desastre, Costa não há-de recuar na solução. No entanto, este é o homem que se diz defensor de uma solução de governabilidade!
    O rumo do país é-lhe indiferente e não o perturba para onde leva ou para onde vai .
    "Quando"  e "se" lhe convier sairá de cena, tentará passar incólume, impávido e indiferente aos estragos. 
    " Après  moi  le  déluge! "

    E sacudirá a lama das botas, esgueirando-se de riso sardónico.

    ResponderEliminar
  5. Ele disse que foi muito claro em 2015.
    Essa capa do Expresso antecede em 8 dias as eleições legislativas de 2015.
    Estamos a 15 dias das eleições legislativas de 2022, e só se vislumbra que Costa queira governar no meio do PÂNtano.
    Se isto é ser muito claro, vou ali buscar o fato de banho.

    ResponderEliminar

Donas de casa

Aqui e ali (ler Patrícia Fernandes, no Observador, sobre este ou outros assuntos, quase sempre se lê com muito proveito) aparece a discussão...