segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

"O bom patrão"

O meu amigo João Eduardo Ferreira faz aqui uma crónica sobre o filme "O bom patrão".


Sobre o filme, não sei, não vi, mas sobre o primeiro parágrafo da crónica, sim, quero dizer qualquer coisa.


"Digamos que calha mesmo bem estrear esta comédia desabrida numa altura em que tanto se fala de liberalismo e de bons patrões que recebem incentivos estatais e depois, muito natural e voluntariamente, vão distribuir os lucros assim conseguidos (quais robins dos bosques!), pelos diligentes e afanosos operários. A sociedade prospera, o sol brilha e ficamos todos felizes".


Esta caricatura do liberalismo é muito, muito popular, até porque como caricatura é boa.


A verdade é que o liberalismo é de entre as ideologias políticas mais correntes, a que menos acredita na bondade, seja de quem for, como penhor de bom funcionamento da sociedade, pelo contrário, não tem grandes ilusões sobre a natureza humana.


É por isso que é das mais renitentes a intervenções externas às empresas para impedir que vão à falência, das que mais defendem a necessidade de garantir que os patrões sejam responsáveis pelas consequências das suas opções, das que mais se esforçam por garantir a impossibilidade da criação de monopólios, e outras posições dominantes no mercado que se possam tornar abusivas, de modo a impedir que os patrões se transformem nas caricaturas que deles fazem os que não gostam da iniciativa privada.


E é também por isso das que mais se preocupam com a definição das regras, e com a sua aplicação real, de forma que nos torne a todos iguais perante a lei, mas também perante as oportunidades, como o acesso a ensino de qualidade para todos.


Como qualquer ideologia, tem muitas dificuldades de aplicação em opções reais e concretas.


Por exemplo, a Iniciativa Liberal esforça-se por contestar a carga fiscal sobre combustíveis e eu, que a apoio quando posso, tenho as maiores dúvidas de que essa seja uma boa opção do ponto de vista da sustentabilidade.


A ideia de que o liberalismo é sobretudo a defesa dos mais ricos é uma caricatura absurda, pelo contrário, uma das principais razões para eu apoiar políticas liberais, pelo menos nas condições concretas de Portugal, é por achar que o elevador social está encravado em Portugal e é preciso pô-lo a funcionar para permitir que os filhos dos mais pobres não tenham de ser, como acontece actualmente de forma excessiva, pobres como os seus pais.


A liberdade de escolha na educação, por exemplo, não é a defesa da privatização do ensino (uma questão marginal, é irrelevante quem é o dono das paredes da escola ou quem paga o ordenado dos professores) mas sim a defesa da oportunidade dos mais pobres poderem andar nas mesmas escolas que os ricos, ter a mesma qualidade do ensino, terem oportunidade de criar redes sociais diferentes das dos seus pais.


Não há patrões bons que tomam atitudes bondosas nas suas empresas (há, com certeza, mas não é assim que se equilibram as relações dentro das empresas), o que há são contextos de funcionamento das empresas que as incentivam a funcionar melhor e serem mais favoráveis para os seus trabalhadores e contextos em que existem incentivos inversos.


Não há maior poder negocial dos trabalhadores que aquele que lhes é dado pela possibilidade de mudar de patrão com facilidade e vantagem, o que só se consegue em ambientes economicamente saudáveis e onde as relações contratuais são, tanto quanto possível, livres.

9 comentários:


  1. a defesa da oportunidade dos mais pobres poderem andar nas mesmas escolas que os ricos


    Mas não pense o Henrique que o cheque-ensino, se alguma vez fôr criado, vai alcançar tal desiderato. Porque haverá múltiplas escolas privadas que não vão querer ter cheque-ensino, precisamente porque quererão continuar a ser escolas exclusivas para ricos.

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  2. Além de que a Iniciativa Liberal é, em princípio, a favor de impostos que não distorçam a concorrência, mas na prática abstém-se de defender aquilo que seria óbvio: que o imposto sobre o gasóleo seja igual ao imposto sobre a gasolina.

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  3. Tendo a concordar com a sua conclusão final. É isso que acontece nos países com economias saudáveis onde nem patrões nem trabalhadores se sentem estrangulados pelo garrote do Estado. A mobilidade dos trabalhadores e a mudança de emprego/empresa e de patrão é visto como normal. São até mais apreciadas as pessoas qualificadas que procuram diversificar conhecimentos e novas experiências em várias áreas. Isso é considerado uma mais valia curricular. 
    Ao contrário, o nosso modelo "estatizante" esgarçou o tecido económico nas áreas em que se cria a riqueza dos países. Entre nós criam-se dependências do Estado (clientelar) com todos os entraves à iniciativa privada, não há estímulos ao empreendedorismo daqueles que poderiam ajudar a criar uma economia pujante e Esquematicamente, estes são os factores da nossa pobreza. Depois sucede a escassez de oferta de trabalho/empregos diferenciados. Consequentemente,  a nossa tendência é o receio de não encontrar estabilidade de emprego e almeja-se "um trabalho para toda a vida",  precisamente o inverso doutros países. E daí, uma grande falta de ambição e uma absoluta resignação e sujeição às fracas condições laborais e salariais, uma maior propensão para a estagnação, para o imobilismo no emprego e nas carreiras profissionais, para o conformismo, do qual resulta a ausência de inovação e a falta de estímulos à produtividade.
    Se não se mudar este paradigma, continuamos condenados a esta pobreza e nunca sairemos da liga dos últimos.
    É preciso tirar este excesso de Estado das nossas vidas e sobretudo das empresas, onde se tem gerado uma promiscuidade causadora da nossa corrupção. 

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  4. A propósito de corrupção há uma grande opacidade e um manto de silêncio que procura escondê-la, com a conivência do jornalismo de investigação que há 6 anos entrou em hibernação. Mas não é necessário dizer muito. A corrupção está devidamente identificada e sabe-se há demasiado tempo onde ela está  Basta ler-se o que diz de Portugal o último relatório:

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  5. Dou-lhe os parabéns. É o primeiro que vejo a levantar essa questão importantíssima quando se discute o ensino.
    Claro que os não liberais respondem que é isso que acontece nas escolas públicas de qualidade - os antigos Liceus tinham - mas estas são cada vez mais marginais.

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  6. O balio, lá no fundo, é um descrente da mobilidade social e económica e tem um pensamento "classista", porque recusa a hipótese de que se pode acabar com os pobres ( estes nada alcançam) e acredita na lei dos mais fortes, que se impõem, sobrepõem e dominam. são eles que definem as regras "de quem entra e quem sai" As suas afirmações vão nesse sentido: é bastante complacente com o "status quo" e mostra-se resignado. Para si, ser pobre é uma condição com que se nasce e da qual não se sai;  é, portanto, como um destino contra o qual nem vale a pena lutar.  
    Para quem se diz "liberal" nada mais estranho do que desistir de lutar pelas oportunidades «iguais para todos», sem distinção de classes. Condena, assim,  as pessoas à sua "condição". Esse seu cepticismo parece  transparecer do seu comentário.
    O balio só difere do pensamento de esquerda nisto: o Sr. certamente não quer que haja pobreza (faço-lhe essa justiça) mas ao descrer da sua eliminação, acaba, por inércia, por não contrariá-la com medidas eficazes e cai nos mesmos resultados da esquerda: a perpetuação do estado de carência, de indigência e de pobreza  a que se convencionou chamar o "elevador social"; A diferença é que a esquerda quer mesmo perpetuá-la voluntariamente.
    Mas o resultado, em ambos os casos,  vai dar ao mesmo: os pobres continuam pobres.. 

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  7. (...) chamar o "elevador social" avariado.

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  8. Luís,
    Se bem percebo o teu argumento, não vale a pena aumentar a mistura de alunos de origens sociais diversas na generalidade das escolas porque haverá sempre algumas escolas cuja política educativa é exactamente serem elitistas.
    É um argumento que nem percebo: o que me chateia não é que haja escolas elitistas, o que me chateia é que haja escolas especiais para chungas das quais os mais pobres não conseguem fugir.

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  9. não vale a pena


    Eu não disse que não valia a pena.


    Boa parte das escolas privadas são genuinamente inter-classistas e estarão dispostas a admitir alunos de classes sociais mais baixas.


    E há também muita classe média que atualmente é afetada pela falta de poder de escolha da escola, e que será beneficiada por um eventual cheque-ensino.


    Porém, não convém ter ilusões: algumas escolas privadas quererão continuar a ser classistas e reservadas para classes altas. Há muita gente rica que não quer, de forma nenhuma, que os seus filhos se misturem com os filhos de pobres.

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