quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Eu não entendo

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A coisa que mais me faz confusão, desde o início da pandemia, é a demisão voluntária dos jornalistas.


Para gerir uma epidemia, qualquer epidemia, uma das questões fundamentais é avaliar o grau de ameaça que a epidemia representa.


Isto é válido para as nossas epidemias, mas claro que é válido também para as epidemias relacionadas com a produção pecuária, com a conservação da natureza - sim, gerir a conservação do lince significa compreender as epidemias regulares das populações de coelho, por exemplo - e, já agora, embora não lhes chamemos epidemias mas pragas, para as que afectam as culturas de plantas.


Por isso, para mim, seria evidente o interesse dos jornalistas em saber quem é mais afectado pela doença e quem morre da doença, para termos uma ideia de grupos de risco e grau de ameaça para a sociedade, no momento em que for preciso tomar decisões sobre a gestão da epidemia.


De entre as informações mais úteis para caracterizar a mortalidade e, consequentemente, o grau de ameaça, estão três informações, das quais apenas uma é de fácil acesso, embora muitas vezes mesmo essa seja omitida.


A primeira, mais fácil, razoavelmente conhecida, é a da idade das pessoas que morrem. É completamente diferente ter uma doença que afecta sobretudo os mais velhos, como a covid, que mata sobretudo os mais velhos, mas também os muito novos, como a gripe ou que mata os mais velhos, os mais novos e, estranhamente, os jovens adultos, como era o caso da gripe espanhola.


A segunda, praticamente impossível de obter em Portugal de forma fácil, é a distinção entre morte por covid e morte com covid. A distinção nem sempre é fácil e, muitas vezes, vários factores concorrem para a morte, podendo a covid ser o empurrão final de uma situação que é, em si, de extrema fragilidade. Neil Ferguson falava, desde o início da epidemia, em metade a dois terços de mortes de pessoas que, em qualquer caso, dada a sua condição de saúde, morreriam no prazo de um ano, mas a produção e divulgação de informação sobre este aspecto, pelo menos em Portugal, é praticamente nula, não havendo distinção entre mortes com covid e mortes por covid.


A terceira, directamente relacionada com a anterior, e por isso já referida acima, é a da condição de saúde dos que são registados como mortos covid. Conheço várias pessoas com idades acima dos 90 anos que tiveram covid e não tiveram problemas de maior com a doença, sendo absolutamente inqualificável a forma como se apresenta a covid em idades elevadas como uma quase sentença de morte. Sem entrar em linha de conta com a condição prévia dos infectados, ainda antes das vacinas, a verdade é que a mortalidade em lares com elevadas incidências dificilmente subia acima dos 10% a 15%, ou seja, sete a nove em cada dez infectados, internados em lares, o grupo mais susceptível e de maior risco, não morriam da doença, mas evidentemente eram levadom a passar umas semanas aterrorizados pela ideia de que a covid em idades elevadas é quase uma sentença de morte. Ora a informação sobre este assunto, que é fulcral para definir o grau de ameaça que a doença representa para a sociedade, não existe e, estranhamente nunca é exigida pelo jornalismo.


Eu não entendo, mas não entendo mesmo, o que nos conduziu a este jornalismo de derrotados, a esta demissão do jornalismo informativo em benefício do jornalismo de emoções, mas talvez seja apenas mais um sintoma de sociedades de abundância, em que há muito conforto a perder se quisermos arrsicar qulquer coisa na vida.

22 comentários:


  1. Eu não entendo, mas não entendo mesmo, o que nos conduziu a este jornalismo de derrotados


    Possivelmente terá sido o facto de os jornalistas terem sempre em mente que estão muito perto da derrota, tal é a situação de insolvabilidade financeira e de precariedade profissional em que muitos jornais e jornalistas (sobre)vivem.

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  2. A segunda [informação], praticamente impossível de obter em Portugal de forma fácil, é a distinção entre morte por covid e morte com covid.


    Eu creio que esta informação é difícil de obter não somente em Portugal mas também noutros países, e não somente com covid mas também com outros vírus e bactérias.


    Determinar exatamente a causa da morte de uma pessoa idosa é muito difícil e, em última análise, pouco útil (porque, já tendo morrido, nada os poderá ressuscitar).



    Os meus três familiares próximos que já morreram, para todos eles, eu só tenho uma ideia pálida daquilo que, exatamente, os matou.


    A maior parte das pessoas idosas morrem, em última análise, de velhice.

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  3. Neste momento em Portugal o jornalismo está reduzido ao jornalixo, mas infelizmente não é só cá, é no mundo inteiro.
    Não se compreende que a Áustria e a Alemanha façam uma perseguição criminosa aos não vacinados, como fizeram com os judeus na segunda guerra mundial, e não haja um único jornalista que denuncie esta barbárie. 
    Com tanto organismo, com tanta ONG, onde é que estão os direitos humanos afinal?
    O que é que está por detrás desta paranóia mundial?
    Será que estão à espera de uma guerra civil a nível mundial?
    Pôr novos contra velhos, vacinados contra não vacinados, trabalho contra teletrabalho. Qual será o objectivo destas clivagens?

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  4. Exacto. Como bem equaciona não temos jornalismo informação. Temos "jornalismo" propaganda.

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  5. Não se compreende que a Áustria e a Alemanha façam uma perseguição criminosa aos não vacinados


    Não os perseguem. Simplesmente, limitam-lhes a liberdade mais do que aos restantes cidadãos.


    Cá em Portugal já se fez a mesma coisa, por exemplo quando se impôs "cercas sanitárias" a Ovar, à região de Lisboa, a Rabo de Peixe e a outros sítios.


    E na Áustria parece que a coisa não é assim tão má, os não-vacinados podem continuar a ir trabalhar ou a ir ao supermercado. Não podem ir ao restaurante ou ao cinema, mas isso não é assim tão grave. Em Portugal já estivemos bem pior.

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  6. Há que compreender que a pandemia é ótima para os jornalistas. Dá-lhes um tema que lhes permite encher múltiplos telejornais.
    Hoje ao almoço a televisão estava ligada na Correio da Manhã TV. Basicamente, toda a duração do almoço foi ocupada com a pandemia. 45 minutos nonstop a falar da pandemia. É ótimo ter uma coisa assim!

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  7. Esta é uma pergunta que eu também gostava de ter resposta. Na europa não há um único país com bom senso na gestão da pandemia, todos sem exceção seguiram o caminho de restrições e passes covid. Não acredito em teorias da conspiração, mas começa a ser cada vez mais difícil não acreditar!

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  8. Boa tarde HPS
    Com a respectiva vénia, assino por baixo.
    Salvo melhor opinião, um dos problemas mais graves da nossa democracia, que nunca será saudável, madura, sem OCS livres, independentes, que pesquisem, que informem com rigor e factualmente e que tenham também áreas de opinião própria.
    É evidente para muitos que deveria haver interesse nos jornalistas

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  9. E a quarta pergunta é: quantos dos cerca de 10000 infectados diariamente ficaram realmente doentes? Ou seja quantos dos novos infectados são apenas testes positivos? 

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  10. Portugal deveria ser a referência para os países com índices de vacinação mais baixos, mas não sei se estamos à altura de cumprir com esse desígnio. Mesmo com a evolução que estamos a verificar será importante manter as atividades económicas a funcionar, nomeadamente estádios com público, e atuar onde é fundamental, reforço da vacinação e proteção para os vulneráveis, reforço da testagem... mas infelizmente creio que mais umas semanas e está tudo outra vez a pedir confinamento geral.

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  11. Um eleitorado amedrontado é um eleitorado mais susceptível de seguir o poder vigente. É a ideia do estado-paizinho que tanta gente parece satisfazer neste país: o estado que "toma conta" de nós.

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  12. Para mim este tipo de jornalismo não o é, é uma simples divulgação de informações parcas e sem investigação.
    Gostei do texto, revejo as minhas conjecturas na sua escrita.
    Bjs

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  13. Vou por partes muito básicas para não o confundir, pois se fosse ler os relatórios do que pede, precisava de 700000 horas a usar o google para entender um só relatório e mesmo assim, ficaria com 200 páginas de questões: 
    Os números estão disponíveis, basta não usar a MERDA das redes sociais nem sites informativos... é ir à fonte e ver as páginas 4-5 de cada relatório diário, estão lá as faixas etárias de todos os falecidos no dia anterior. A mesma informação é disponibilizada no relatório semanal, disponível no site do ministério da saúde... só que 99% nunca se deram ao trabalho de ler um relatório completo, como você fez, pois diz que "razoavelmente conhecida", ou será que é mais um dos que exigia que as fotos e informação pessoal de cada falecido fosse apresentada nos noticiários, assim como 4 horas diárias, com entrevistas a familiares e amigos? 
    Na segunda, há um problema gravíssimo: a Covid-19 é uma doença provocada por um vírus que danifica a parte respiratória, circulatória e digestiva. Qualquer outra doença é afectada por ela. Daí que cada pessoa reage de maneira diferente. Um jovem de 20 anos morreu de/com covid-19 porque tinha uma diformidade numa válvula do coração, que veio a provocar uma embolia pulmonar, gerada por uma embolia pulmonar de um bloqueio da aorta e um princípio de AVC. De que morreu este jovem? Nos dados irá surgir com covid-19. A autópsia confirma as causas gerais da morte. Foi o Sars-cov-2 que lhe provocou a morte? Ninguém sabe... Contribuiu? Muito provavelmente, novamente é impossível de saber com total certeza. Estaria vivo se tivesse a vacinação? Provavelmente, novamente há uma margem que não é possível comprovar.  
    E esta a parte da 3 resposta. Se for pedir o relatório da pessoa de 90 anos, que diz conhecer, vai lá encontrar dezenas (possivelmente centenas) de apontamentos clínicos. A covid-19 veio provocar mais danos a situações já prequilitantes. A vacina reduz os danos, não os impede, como afirmam os negacionistas. 
    E é nestas 2 que volto ao inicio. Várias doenças criam cascatas que podem ser controladas durante décadas, sem mais danos. Surge um vírus que reduz a capacidade dos tratamentos ou piora uma das variáveis (sim, 94% do corpo humano são variáveis) que a cascata desmorona. 
    Nada é simples... parece mas, é muito mais complicado do que alguma vez poderá imaginar. 


    Acerca do jornalismo, basta olhar para os milhares de milhões de notícias sobre o acidente do carro onde seguia um ministro, que provocou uma vítima mortal, sendo que só em meia dúzia (0,00000001%) surgem referências que não acusam o ministro de homicídio qualificado.  Quem ganha com isso? PSD-CDS-Chega-IL controlam 99,9999999999999% de todos os jornalistas portugueses. Estes partidos tiveram mais de 1800 jornalistas (1400 com carteira profissional) nas listas das autárquicas passadas... cerca de 200 já estão nas listas para as legislativas de Janeiro... acha que não puxam a brasa à sardinha? 

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  14. O que significa "ficar doente"? Uma dor de cabeça? Uma dor nos rins? 
    Nos assintomáticos, é 100% certo que tem algum sintoma, pode ser uma ligeira dor de cabeça, temperatura corporal elevar-se um pouco gerando suor, dores musculares ligeiras... 
    Os "verdadeiramente doentes", são os internados. Os piores são os que precisam de cuidados intensivos. 

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  15. Resumindo:
    1) Confirma que há informação em função da idade, tal como digo no post;
    2) Confirma que não há informação sobre o estado de saúde prévio dos que morrem, e que isso é complicado, tal como digo no post;
    3) Confirma que não há informação sobre os que morrem com covid, ou de covid, tal como digo no post.
    A sua tese, com base em exemplos, é a de que não é possível ter essa informação porque há situações em que não se consegue ter certezas.
    A minha experiência é a de que há países que produzem essa informação, identificando as margens de incerteza.
    Mais, a própria Directora Geral de Saúde confirmou por estes dias que a generalidade das pessoas que morrem e são registadas como mortos covid, são pessoas com idades elevadas e muitas comorbilidades.
    Em concreto, em concreto, o que pretende demonstrar com este comentário, se no essencial confirma tudo o que está no post?

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  16. A Suécia é okay. Depois temos Leste.

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  17. Este tweet e outros exemplos sobre o julgamento do Rittenhouse mostra bem o estado do jornalismo actual:
    https://twitter.com/ggreenwald/status/1461789794636288005

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  18. O que nos levou a este extremo de jornalismo é simples: emoções vendem mais publicidade que analise isenta e informação.

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  19. e eu entendo quase nada do que pretende. 
    Nao é que pareça pessoa confusa, mas tambem nao é curta, exata. 
    Sim,  os mais velhos sao os mais "atingidos" precisamente por serem mais fragilizados. . Que importa mesmo se sao só 5, 10, 15, 30 %. Para cada um de nós, nem que seja só 1%, desde que nao seja um dos nossos queridos. 
    Claro que tudo interessa, apesar de excessiva abundancia informativa e de opinaçao, como se se morre com  covid ou por covid

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  20. "Quem mais transmite a doença sao as crianças e...." (ISTOÉUMAANEDOTA)

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Donas de casa

Aqui e ali (ler Patrícia Fernandes, no Observador, sobre este ou outros assuntos, quase sempre se lê com muito proveito) aparece a discussão...