Num dos grupos humorísticamente mais fortes de Portugal que eu frequento no facebook (Política Florestal em Portugal), sempre que alguém diz que o eucalipto ocupa cerca de 10% da área de Portugal, aparecem várias pessoas a acusar quem quer que faça essa afirmação de estar vendido ao lobby do eucalipto.
A situação, em si, é um clássico: pessoas que não têm a menor preparação sobre o assunto, que nunca estudaram o assunto, estão absolutamente convencidas de que se toda a gente que estuda o assunto e escreve e fala sobre o assunto diz uma coisa que acham aberrante, não é porque os próprios precisem de ir rever as suas certezas, é mesmo porque são todos corruptos.
Em Portugal o eucalipto não ultrapassa os 900 mil hectares de ocupação do espaço. Aqui fica um mapa, já de 2010, mas daí para cá a situação não se alterou assim tanto, com a distribuição do eucalipto no país.

Este tipo de informação é público, pode-se ir ver o inventário florestal, pode-se ir ver as Cartas de Ocupação do Solo (COS) em vários anos, pode-se ir ver o que é publicado directamente pelos organismos da comissão europeia, pode-se até fazer directamente a foto-interpretação (se se conseguir), e ver-se-á que, em lado nenhum, mas mesmo nenhum, alguém fala de uma ocupação do solo com eucalipto de mais de 900 mil hectares.
Ora como Portugal tem, grosso modo, 9 milhões de hectares (também se pode confirmar esse dado em qualquer sítio, até na wikipedia) isso dá os tais 10% do país ocupados por eucalipto (números redondos).
Vejamos agora por que razão há uma quantidade de gente - gente que não trabalha profissionalmente com a matéria, note-se - que está convencidíssima de que o eucalipto ocupa mais de 10% do país.
O que se passa é que a maior ocupação do eucalipto coincide com a maior densidade populacional, isto é, a faixa litoral do país (e, já agora, da Galiza) até Lisboa, mais coisa, menos coisa, com umas entradas profundas pelo vale do Tejo e coisas mais ou menos isoladas, como Monchique.
Em algumas zonas, em especial na extensa faixa de xistos que vai do antigo pinhal interior (actualmente eucaliptal interior, tanto quanto uma coisa a 30 ou 40 kms do mar é interior) até às serras de Valongo, passando pelas zonas de Mortágua, Albergaria-a-Velha, Sever do Vouga e adiante, a presença do eucalipto é absolutamente esmagadora, com percentagens de ocupação concelhia que facilmente chegam os 60% e 70%.
No litoral Oeste, a presença do eucalipto é também fortíssima, mas aí, porque existem alternativas económicas para os donos dos terrenos, as manchas de eucaliptal são entrecortadas com pomares, hortas e vinhas, razão pela qual a sua presença não é tão opressiva como na região que citei (e em largas áreas de zona de Monchique).
Como a maior parte de nós circula, habitualmente, em áreas geográficas relativamente pequenas, e como a maior parte de nós vive rodeado de eucaliptais, porque a sua área de distribuição coincide com a área de maior densidade populacional, há muita gente convencidíssima de que o país está coberto de eucaliptos.
Note-se que esta correlação entre áreas de maior densidade de eucalipto e áreas de maior densidade populacional é uma mera correlação sem qualquer causa que ligue directamente os dois factos. A causa que liga os dois factos tem de ser procurada nas condições naturais (nas condições edafo-climáticas, dizem eles) que favorecem a presença humana - são as zonas historicamente mais ricas e diversas do país, consequentemente, as de maior oportunidade económica, mesmo agora que grande parte da população não vive da terra - e que favorecem também a produtividade do eucalipto. É uma espécie que precisa de uma precipitação anual razoável (digamos, 600 milímetros, mas com vantagem se for um bocado mais), da inexistência de geadas tardias, de baixas altitudes (sobretudo o eucalipto globulus, esmagadoramente dominante em Portugal, há umas exploração de eucalipto nitens a maiores altitudes, mas muito menos frequentes e menos vantajosas), e mais umas coisas que encontra nessa área de distribuição que descrevi acima. E, já agora, porque a exploração de eucalipto é hoje um negócio de tostões, também precisa que não haja coisas que paguem melhor, como as já citadas vinhas no Oeste ou no Douro, ou a produção agrícola em grande parte do Minho.
No mapa são visíveis algumas manchas que fogem a este padrão, como a serra de Ossa, umas coisas ali por Castelo Branco/ Idanha ou ainda Mogadouro, mas isso são resquícios das asneiras feitas nos anos 80 do século XX, quando havia quem considerasse o eucalipto como o petróleo de Portugal e a febre da sua expansão levou muita gente, incluindo gente muito responsável, a plantar eucalipto em zonas de baixíssima produtividade, sem grande interesse para a produção de eucalipto. Hoje são passivos que se costumam caracterizar como "sucata florestal". O facto de ainda lá estarem decorre apenas de não ser fácil ter alternativas de uso economicamente racionais e a produção de eucalipto para a indústria não teria perdas relevantes se metade da área actualmente ocupada por eucalipto indevidamente fosse reconvertida para outras coisas (incluindo renaturalização e produção de biodiversidade).
Mesmo pessoas com dois dedos de testa, como Francisco Louçã e o seu genro João Camargo (este com mais pretensões a saber alguma coisa do assunto, até tem um livro, a meias com Paulo Pimenta de Castro, sobre florestas), completamente obcecados com teorias de conspiração para explicar um mundo que manifestamente não evolui de acordo com o que acham que deveria ser o seu devir histórico, acabam a dizer disparates monumentais sobre as razões pelas quais não existem eucaliptos na Alemanha, apresentando esse facto como uma recusa da Alemanha em ficar com os ónus ambientais da produção de eucalipto, em vez de simplesmente aceitarem o facto trivial das condições naturais na Alemanha impedirem a produção de eucalipto, tal como dificultam a produção de bananas no Ártico.
Não admira por isso que haja tanta gente indignada por alguém se limitar a apresentar um facto indesmentível - o eucalipto, em Portugal, representa cerca de 10% da ocupação do solo - convencidos que estão, a partir do que vêem da estrada e da televisão, de que o país é um mar sem fim de eucaliptos.
Pelo menos eu, não fico admirado com o facto da ignorância ter uma distribuição no país que é muito maior que a distribuição do eucalipto.
zonas sem aptidão agrícola e abandonadas aos velhos
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ResponderEliminarO Populus nigra (Choupo) não poderia, em algumas regiões, substituir o eucalipto?
Tenho ideia de ter lido em algum lado que no país Basco têm feito essa substituição.
Têm exigências ecológicas completamente diferentes, os choupos, nas nossas condições, precisam de solos mais fundos e húmidos, suportando mal a secura do Verão.
ResponderEliminargostei do humor, mesmo ainda antes do capitulo final.
ResponderEliminarMas afinal, esses 10% nao serao demasiados ? Acho que pretende demonstrar, a nós ignorantes, que sao pouco.
Apesar de ser pormenorizado, e até interessante, reconhecendo inclusive que os eucaliptos estao na civilizaçao, mas, atençao, porventura, e voce só pode saber, esses 10% sao da area total rural, ou da area efectivamente (organizadamente, propositadamente) plantada ? Esses 10% sao da area total rural com montanhas incluidas, ou só da parte propositadamente plantada ?
Choupos normalmente é fácil serem encontrados junto a margens de ribeiros (mesmo aqueles ribeiros que só correm no inverno).
ResponderEliminarPor acaso para os lados do concelho de Torre de Moncorvo - mesmo ao lado de Mogadouro - pelo menos na região onde tenho familia não sei porquê, mas as pessoas criaram aversão ao eucalipto. A razão (dos mais velhos) é a de que o eucalipto cria raizes fundas e vai absorver a água que passa nos veios profundos dos solos. Basicamente criou-se a ideia de que plantar eucalipto significa "secar as terras" (tornar as terras um deserto) não só onde se planta o eucalipto como os terrenos rodeantes. E talvez por isso não há plantações maciças nesta zona (mais vinhas, olivais, amendoal, algum pinhal, sobreiros e carrascos, outras árvores autóctones).
ResponderEliminarTendo em conta que não é uma espécie nativa de Portugal, que seca os solos, que é aposta quando certas regiões são abandonadas, e o quão difícil é combater o fogo quando ele chega ao que os bombeiros australianos denominaram de "árvore gasolina", que o fim desta árvore é uma actividade altamente poluente e de baixo valor acrescentado, e que os países com os quais nos comparamos (na Europa, em particular no Mediterrâneo) não têm uma área de eucalipto que chegue sequer perto dessa percentagem, esse mapa é uma tragédia para Portugal. Quanto a factos, mais ninguém os nega tanto como a Extrema-Direita Fascista e a Direita-Radical NeoLiberal, fazem até de conta que os salários baixos não são resultado da liberalização e que a estagnação de Portugal não é consequência da ditadura do Euro. Agora enfia lá a "ignorância" num sítio que eu cá sei...
ResponderEliminarEu não pretendo demonstrar nada para além do facto da área de eucalipto representar cerca 10% da área total do país (ou melhor, da parte continental do país).
ResponderEliminarPor acaso, em Mogadouro, a Navigator tinha cerca de 4 mil hectares de eucalipto.
ResponderEliminarA razão das pessoas é a mesma da Navigator para abandonar a produção nesses 4 mil hectares: a produtividade é miserável e é uma asneira plantar eucaliptos em Mogadouro, se o objectivo é ter algum rendimento, independentemente do que digam.
A quantidade de afirmações erradas ou sem fundamento do seu comentário é excelente para demonstrar como a percepção pública sobre o eucalipto, que o seu comentário retrata muitíssimo bem, está completamente desligada da realidade verificável.
ResponderEliminarJá a parte final do comentário é uma excelente demonstração da elegância de argumentação a que nos leva a ignorância militante.
lamento e elogio a sua paciencia perante a ignorancia do leitor. Mas continua sem dizer o que é exatamente isso da "area", nao obstante a minha insistencia.
ResponderEliminarPor outro lado, sim, efetivamente parece dizer-nos que 10% nao é demais. Mas os leitores acabam por nao ver o que é demais e o que é de menos, quais sao os criterios e as comparaçoes.
A área do país é a área do país, é a superfície contida pelo contorno da parte continental do país.
ResponderEliminarNo caso, grosso modo, 9 milhões de hectares.
Quanto ao que os leitores lêem, lamento, mas está para lá da minha capacidade de controlo, a única coisa que posso assegurar é que não disse em lado nenhum se era muito ou pouco.
Pouco acrescentar que acho uma discussão bizantina e sem interesse.
E qual é a percentagem que ocupa da área florestal do país? Aí o número já dispara para os 25%.
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ResponderEliminarO choupo é uma árvore de crescimento rápido, tal e qual como o eucalipto. Não vejo grande vantagem de um em relação ao outro.
Seja como fôr, não, o choupo não pode substituir o eucalipto, porque o choupo necessita de solos bem húmidos, tipicamente nas margens de rios. Os eucaliptos em Portugal situam-se em boa parte em solos não muito húmidos, nas quais o choupo não medraria.
É inacreditável a má-fé deste artigo, ainda com a agravante de se dar um ar de conhecimento e de chamar explicitamente "ignorantes" aos seus contraditores.
ResponderEliminarIndo por pontos.
1. A área a comparar não é a área TOTAL de Portugal, mas apenas a área FLORESTAL (não vamos discutir se há eucaloptos no Rossio...).
2. Descontadas as áreas urbana, de cultivo, pastagens e outras, a área florestal de Portugal é cerca de 40% da área total, ou seja, cerca de 3.600.000 de hectares quadrados.
3. Dessa área, cerca de 900.000 hectares quadrados são ocupados por eucaliptos.
4. Daí resulta que a percentagem, grosso modo, de eucaliptos em Portugal é de 1/4 ou 25% da área florestal total.
Não se deixam enganar por este malabarista de números, que vive da nossa tontice. Conforme refere, talvez seja válida a acusação de que está ao serviço da indústria do fogo florestal, o "mais quente" negócio do Verão...!
Cumprimentos.
1) O que diz o post é factual;
ResponderEliminar2) Está enganado, essa é a área de povoamento arbóreo, a área florestal de Portugal inclui os matos, que são mais ou menos outro tanto;
3) Sim, é o que diz o post;
4) Sim;
Obrigado por demonstrar que me acusa de má fé, confirma tudo o que está no post e depois acusa-me de estar ao serviço de não sei quem, evitando contestar um único argumento do que escrevi.
Bom dia.
ResponderEliminarO Senhor manipula os números e compara o incomparável.
A extensão do eucalipto deve ser medida em função da área consagrada à floresta. Pastangens e agricultura estão fora, tal como as áreas urbanas.
Dessa área arbórea restrita, o eucalipto ocupa um quarto, 25% ou mesmo mais. Isso é uma praga! Se a juntarmos à praga mais antiga do pinheiro bravo, obtemos um coberto vegetal totalmente aberrante, quando temos em conta a flora autóctone, de raiz mediterrânica.
Para mais, a praga do eucalipto está concentrada acima da linha Leiria - Castelo Branco. Essa zona (Beiras, Minho, Trás-os-Montes) é coincidente com a área dos incêndios florestais de grande intensidade. Ignições, há-as por todo lado, mas só se volvem em incêndios devastadores quando encontram o coberto vegetal propício: pinheiros e eucaliptos.
Por que razão meter a cabeça na areia, como a avestruz, e negar o evidente, manipulando números.
O eucalipto ocupa 10% da área do país. Isso nada nos diz. Se incluir a ZEE, vai chegar a um número ridiculamente pequeno. No entanto, são conparações espúrias, que só servem para desviar a atenção do essencial.
O essencial é isto: para lá do desequilíbrio das espécies florestais e da fealdade da paisagem, a praga dos eucaliptos custa ao País, todos os anos, muitos milhões de euros em prejuízos, tanto do Estado como dos cidadãos.
Pouca gente ganha muito com este negócio, em que muita gente perde - todos nós!
Cumprimentos
Sugiro que estude um bocadinho, só o suficiente para saber qual é a percentagem de outros países que ocupa a maior espécie florestal e verifique se é autóctone ou exótica, na União Europeia.
ResponderEliminarO seu português está um pouco incompreensivel. Não se entende bem. Nem sei o que me sugere. Falta de estudo, não será o meu caso. Falta de senso, será o caso de quem?
ResponderEliminarFaça uma declaração de interesses. É quem? Para quem trabalha? Eu sou professor na Universidade de Lisboa. E o Senhor? O que eu digo não precisa de "especialistas". São tristes factos, que indignam qualquer português amante da sua terra.
ResponderEliminarE têm razão. Falo por experiência própria. O que não bebem, inquinam.
ResponderEliminarTrabalho para o Estado, a caminho da reforma, eu assino o que faço, e o meu curriculum é mais que público.
ResponderEliminarNão faço a menor ideia de quem é o Pedro e de que é que é professor, o que sugiro é que estude um assunto concreto, não é por ser professor numa universidade que passa a saber tudo sobre tudo.
Já a habitual sugestão de que alguém me paga para exprimir ideias diferentes das suas que, na sua opinião, são inquestionáveis, é bastante explícito quer da sua falta de carácter, quer da sua falta de argumentos.
Bom dia.
ResponderEliminarNão preciso ser especialista em "dinâmicas rurais e florestais" para verificar que a percentagem de eucaliptos é de 25% da floresta.
Também não preciso de ser especialista nessas coisas para compreender que, onde há agricultura, não há floresta, e onde há pastagem, não há floresta, e vice-versa.
Portanto, não preciso de ser especialista para dizer que os seus 10% resultam de comparar o incomparável e para dizer que pastagens e agricultura não podem entrar no cômputo da percentagem de eucaliptos em Portugal.
Ter um quarto da floresta ocupada com eucalipto é uma praga. Quanto aos restantes 60%, grande parte é ocupada pelo pinheiro-bravo - outra praga.
E será que o Senhor, enquanto especialista, não vê a correlação entre áreas de eucalipto-pinheiro e os incêncdios devastadores? E não verá também a teia de interesses e a "indústria" montada à volta do fogo? (A teoria do incendiário maluquinho, pirómano, é uma treta para entreter incautos - eles são apenas a ponta visível de uma teia múltipla de interesses em que haja incêndios, ano após ano, quanto maiores, melhor)
Sobre o "carácter", só lhe posso dizer que o seu artigo é de uma arrogância sem limites, ousando chamar, logo de entrada, "ignorantes" a todos os que são de opinião contrária.
Se um "especialista" em óptica me disser que a parede é preta quando é branca, vou continuar a dizer que é branca, pese embora não ser "especialista"!
Cumprimentos.
Resumindo, não quer dizer o que faz, indiciando que a sua prosápia de ser professor numa universidade qualquer é um vulgar argumento de autoridade inútil.
ResponderEliminarTambém não precisa de ser especialista para ler o que dizem os que estudam o assunto a propósito desta asneira não fundamentada por si (reconheço que fundamentar asneiras é sempre difícil, claro):
(PDF) A expansão do eucalipto alterou o regime de incêndios em Portugal?
No seu caso, chamar-lhe ignorante nesta matéria não é arrogância, é rigor.
ResponderEliminarBom dia,
ResponderEliminarEstive a meditar sobre as suas ideias e a olhar para a realidade.
De facto, tem toda a razão. Reconheço o meu erro.
Sobre a correlação eucalipto/pinheiro-bravo e incêndios florestais de grande intensidade, confesso humildemente que estava errado. Basta olhar para o mapa dos incêndios deste ano (e dos anteriores). As zonas em que as folhosas predominam ou têm uma presença significativa arderam, enquanto as zonas de pinheiro-bravo/eucalipto permaneceram intactas. São factos indesmentíveis. Os grandes incêndios foram todos na Estremadura, Ribatejo, Alentejo e Algarve, ao passo que as três beiras, Minho e Trás-os-Montes ficaram incólumes. As minhas desculpas.
Sobre o eucalipto ocupar "só" 10% do território português, sou ainda "mais papista que o papa". Permita-me corrigi-lo, não para o contrariar, mas para reforçar a sua razão. Os territórios sobre jurisdição soberana do Estado português são Portugal Continental,
m termos relativos, país algum do mundo tem uma superfície plantada de eucaliptos tão grande quanto Portugal."