quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Fogos e conservação

O fogo e o pastoreio tinham, e ainda têm, muito má fama nos meios da conservação da natureza.


Essa má fama decorre da ideia de que, na ausência de perturbações humanas, os sistemas naturais evoluíriam para matas pristinas complexas em que a diversidade seria máxima por ser o apogeu da natureza, uma declinação da ideia muito humana de que existe um sentido da história, rumo ao paraíso.


Esta é a ideia base das políticas mais clássicas de conservação que associam perturbação a perda, e ausência de intervenção a melhoria do estado de conservação.


Só que esta ideia base tem vindo a ser destruída pela acumulação de conhecimento. Por isso fiquei muito espantado por uma ideia tão datada, errada e, na verdade, profundamente reaccionária, ter uma presença tão importante no Pacto Ecológico Europeu, ao ponto de se estabelecerem limites cegos para a percentagem da área da União Europeia que deve estar sob figuras legais de protecção (30%) e, muito mais grave, sem intervenção humana (10%).


Nos estados iniciais de evolução de um ecossistema, a acumulação de matéria orgânica (ou biomassa, ou qualquer das outras designações para designar a acumulação de tecidos orgânicos) é a regra (há umas excepções, como os desertos, nas situações em que as condições para a sobrevivência de plantas são especialmente hostis).


Essa acumulação não é eterna porque as plantas morrem (incluindo neste conceito a morte de partes das plantas sem morte do indivíduo) e, logo que pára a fotossíntese que fornece a energia para a construção e manutenção de cadeias químicas complexas que caracterizam grande parte dos organismos vivos que conhecemos, estas cadeias químicas começam a partir-se (na verdade é um processo contínuo que ocorre também ao longo da vida) e a decompor-se em cadeias mais simples, até chegarem aos elementos químicos base.


Estes conceitos base do ciclo da vida são do mais consensual que se encontra na discussão sobre a evolução dos sistemas naturais (deixemos de lado a imensa complexidade que estou a simplificar).


O que acontece com o consumo de plantas pelos animais é a redução do tempo que vai de haver uma folha viva a haver uma folha decomposta nos seus elementos químicos base. O sistema digestor dos animais tem a função de degradar alimentos com cadeias químicas complexas e fortes em componentes mais simples que possam ser usadas nas funções dos diferentes orgãos dos animais, quer na disponibilização de energia, quer na construção de outras cadeias químicas complexas para as quais os elementos químicos base são necessários.


O fogo tem exactamente o mesmo papel ecológico, apenas com a diferença de ser um processo muito mais rápido.


Na feliz síntese de Carlos Aguiar (citando de memória, espero não estar a trair o seu pensamento), o consumo de plantas pelos animais corresponde a um processo mais lento de decomposição da biomassa e o fogo corresponde a um processo explosivo, mas no essencial o papel ecológico é o mesmo: decompor os tecidos orgânicos em elementos químicos simples que vão alimentar a fertilidade do solo, a base para a produção de novas plantas.


Não compreender que sempre que a taxa de acumulação de matéria orgânica num local é maior que a taxa de decomposição, o fogo acaba por ser um elemento inevitável de reposição de equilíbrios ecológicos, impede-nos de compreender quer o papel ecológico do fogo, quer a forma como podemos manipular os sistemas para termos padrões de fogo socialmente mais úteis que os que temos actualmente: acelerar a taxa de decomposição da matéria orgânica usando processos menos explosivos e mais controláveis.


Pelo contrário, compreender estes processos, para além de pôr em evidência o papel dos animais nessa gestão, conduzir-nos-á, forçosamente, à utilização de mais fogo, em circunstâncias que limitem a sua capacidade "explosiva", para evitar padrões de fogo socialmente pouco interessantes, como aquele cujos resultados aparecem nos anos em que os astros se alinham para produzir condições meteorológicas extremas (o que está longe de estar a acontecer, para já, este ano).

6 comentários:

  1. Claro que o fogo e o pastoreio têm o seu lugar, mas o facto é que ambos podem impedir o crescimento de sistemas mais maturos, queimando ou destruindo plantas jovens. Por exemplo, eu não posso plantar carvalhos num terreno e depois pôr nesse terreno cabras a pastar, porque então as cabras comerão os pequenos carvalhos. Também não posso ter carvalhos num terreno e deitar-lhe fogo, porque então os carvalhos arderão e serão substituídos por acácias.

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  2. muito mais grave, sem intervenção humana (10%)


    A mim parece-me que, se forem bem escolhidos quais esses 10%, eles podem de facto passar muito bem sem intervenção humana.


    Eu tenho diversas propriedades e sei que, em muitas delas, se eu não intervir elas ficarão cobertas de porcaria: silvas e/ou canas e/ou acácias. No entanto, tenho poucas dúvidas que deve haver uns 10% da área que possuo que, se fossem abandonados, acabariam cobertos de sobreiros ou eventualmente carvalhos.


    Agora, seria preciso escolher criteriosamente os 10%.

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  3. Retiro do (excelente e implacavelmente lógico) texto que o autor do post não viu o "Bambi" numa idade impressionável.

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  4. a Terra ainda é um Planeta vivo


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  5. É a vida, como tento explicar no post, aparentemente sem sucesso

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  6. Vi, vi, e tenho escrito sobre os problemas que a influência da visão Disney da natureza tem criado às políticas de conservação.

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