domingo, 11 de julho de 2021

Emigração e Estado Novo

Não sou historiador.


Porque me deu na cabeça fiz um doutoramento sobre evolução da paisagem ao longo do século XX - é um doutoramento em arquitectura paisagista, não é em história, nem economia, nem em sociologia - e tive de olhar para o contexto do país ao longo de todo o século XX (e parte final do século XIX, só para perceber o ponto de partida).


Tinha uma posição ideológica base: os processos económicos e sociais são muito mais poderosos que as políticas, portanto empenhei-me em tentar perceber esses processos, deixando mais ou menos de lado as políticas, ao ponto de todas as pessoas que me deram orientações sobre o desenvolvimento do trabalho insistirem na importância da adesão à Comunidade Económica Europeia para a evolução do mundo rural e eu, teimosamente, não ter perdido grande tempo a estudar as políticas económicas decorrentes dessa adesão, por me parecerem pouco relevantes para a definição das grandes tendências de evolução.


Em vários momentos me dei conta de como o foco excessivo nas políticas públicas pode dificultar a visão da realidade, como por exemplo na discussão dos efeitos da campanha do trigo ou na própria posição de Salazar sobre a cultura de cereais, que vai desde uma posição marcadamente liberal em 1916, na sua tese de entrada na Universidade de Coimbra, até à continuação da campanha do trigo que tinha sido posta em marcha pela Ditadura Nacional, culminando no episódio associado à nomeação de um ministro da agricultura, logo após a guerra, que apenas durou uns meses, aparentemente por ter tentado aplicar as ideias que Salazar tinha expresso em 1916, desmantelando o sistema de apoio à produção de cereais.


Nesta aula do nono ano, de historia, ao minuto 26:50, refere-se a vulgata que circula por aí atribuindo à emigração dos anos sessenta à pobreza, à fuga à guerra colonial e à vontade de viver em regimes com liberdade  de expressão, uma patetice. É verdade que houve pessoas que emigraram para não ter de ir para a guerra colonial, é verdade que houve pessoas que emigraram por razões políticas, mas a expressão desses dois factores no conjunto do movimento migratório é mais que marginal: a emigração é um processo económico e social filho da diferença de rendimento entre dois sítios.


Na verdade, em 1940/ 50, vivia-se pior em Portugal que em 1960/ 70, só que nessa altura não havia destino de emigração, é o desenvolvimento económico do resto da Europa (e das américas), e a pobreza relativa de Portugal,  que provocam a forte corrente migratória, apesar do desenvolvimento económico muito rápido em Portugal: a base de partida era tão má que grandes crescimentos, maiores em termos relativos que nos outros países desenvolvidos, são insuficientes para dar resposta às necessidades de uma alteração social e económica brutal nos campos portugueses.


Note-se que apesar de ter havido uma saída de emigrantes acima de um milhão (provavelmente por volta de milhão e meio de portugueses) a população total do país apenas diminui, entre  1960 e 1970, cerca de 300 mil habitantes.


Depois de ser totalmente refutada a ideia de que o Estado Novo empobreceu o país, o argumento era o de que realmente até cresceu, mas era uma questão oligárquica, o povo era mantido na miséria.


Esse argumento foi também já totalmente refutado com base nos indicadores sociais, que tiveram um progresso assinalável durante o Estado Novo, progresso esse que se continuou pelo regime democrático, mas em cujas curvas de evolução não é possível traçar um antes e um depois do 25 de Abril.


São vários os trabalhos académicos, em especial ligados à sociologia, que comparam os indicadores sociais a 25 de Abril com os mesmo indicadores depois de trinta ou quarenta anos de democracia, concluindo que a democracia permitiu um desenvolvimento notável, mas a isto se chama falta de profundidade histórica: para comparar regimes, um exercício pouco interessante porque as sociedades evoluem muito para lá dos regimes que as tutelam, seria preciso comparar os dados para o mesmo período para trás, não apenas para a frente.


A emigração, no entanto, continua a ser um tigre de papel cuja origem se atribui ao regime anterior, sem sequer se ter em consideração que o regime anterior teve períodos de emigração historicamente baixos e períodos de emigração historicamente altos.


O mais interessante é verificarmos como a migração (retirei o "e", não é gralha) é politicamente avaliada mais em função das opções ideológicas do avaliador que pelo que é: quem migra, migra de uma situação pior para uma melhor (pelo menos potencialmente, pelo menos do ponto de vista da percepção do migrante).


Claro que qualquer migrante económico tenta apresentar-se no destino como um refugiado político, desde que as políticas de asilo político passaram a ter relevância nas sociedades modernas: Nuryeiev queria era dançar e viver como queria, mas a primeira coisa que diz aos polícias no aeroporto é a de que está a pedir asilo político, porque isso lhe dava imediatamente protecção. E, neste caso particular, é perfeitamente defensável a atribuição de estatuto de refugiado político, só que este não é o exemplo típico do migrante que integra os grandes movimentos migratórios: a Suíça, o Canadá e os EUA, os três países que mais recebem imigrantes (por ordem decrescente) em percentagem da população do país, não atribuem estatutos de refugiados políticos a qualquer um, recebem-nos por aquilo que são: migrantes económicos.


Parte da migração económica hoje, em Portugal, é de quadros que conseguem melhores condições (não apenas económicas, mas seguramente também económicas) noutros países e isso apenas depende das políticas públicas na medida em que o Estado português taxa fortemente o trabalho, obrigando as empresas a um esforço suplementar para oferecer as mesmas condições líquidas que muitos outros países em que a fiscalidade é mais favorável para o trabalho.


No entanto, por melhores que fossem as condições de taxação do trabalho, ainda assim continuaria a haver migração de quadros para países em que a actividade económica permita pagar melhor porque as empresas são mais eficientes.


Quando José Vítor Malheiros escreve o texto que transcrevo, falha completamente o alvo que diz ser o seu:


“As jovens mães são todas louras ou alouradas, de cabelo alinhado, a cor média da pele não seria mais clara na Dinamarca. … há um grupo diferente, de mulheres também jovens, mas quase todas de pele escura, vestidas discretamente. … são as babás. … Se têm filhos delas, não os trouxeram para a ginástica. Depois do quality time com as mães, as babás encarregam-se dos bebés.
...


… no campo social, as nossas metas devem ser o combate à injustiça e à desigualdade e que as nossas vitórias se devem medir pela melhoria da situação dos mais explorados. … o grau de progresso de um pais se deve medir pela situação dos mais pobres. Não se trata de pessimismo. De só considerar a metade vazia do copo. Trata-se de justiça."


Falha o alvo por se esquecer que embora a desigualdade descrita exista, e seja de justiça combatê-la, sobretudo no que ela resulta de diferenças de oportunidade, a verdade é que do ponto de vista dos mais pobres, aquelas "mulheres quase todas de pele escura", estão a viver, muito provavelmente, melhor do que viviam nos sítios de onde vêm.


É, aliás, interessante como a emigração portuguesa dos anos 60 é frequentemente apresentada como a demonstração do falhanço do regime, ao mesmo tempo que a emigração dos países africanos pós 25 de Abril raramente é apresentada como a demonstração do falhanço dos regimes pós independência desses países (o que seria ridículo em muitos casos, a migração de Moçambique para a África do Sul é muito anterior ao 25 de Abril e continuou muitos anos depois, apoiando a tese base de que os processos económicos e sociais são muito mais poderosos que os regimes que os tutelam).


Enquanto os instalados do regime insistirem na tese de que todos os problemas de desenvolvimento do país têm raiz no Estado Novo, será sempre difícil discutir seriamente por que razão estamos estagnados há vinte anos.


E, no entanto, essa é a discussão que verdadeiramente interessa.

10 comentários:

  1. OBVIAMENTE, o que diz no fim é o que interessa ponderar. Mas admito poder estar enganado.
    António Cabral

    ResponderEliminar
  2. tenho 90 anos estudei química orgânica nas 3 universidades portuguesas e e em Roma e Paris com bolsas de estudo de Itália e França.
    sou Pedreiro-livre e anarca
    ETs escrevinharam a história contemporânea que por aí circula 
    nos reservados da BNP há documentos do séc xix onde os portugueses se queixavam de ter sidp embarcados como gado para diversos locais
    o abandono dos ratinhos da Beira Baixa começa nos anos 50
    quando estudei no Porto em 55-7 havia aldeias do Minho sem homens e diariamente faziam-se 50 análises para quem partia para França e Alemanha
    outros iam a salto
    os eucaliptos do concelho de Nisa substituem searas que davam 3-5 sementes e não podiam competir com as 50 dos barros de Bêja
    vão queimar tudo até à última árvore
    os castanheiro serão usadas para fazer cerveja como primitivamente
    as 'avariantes' não são exclusivas do Covid. a molécula de DNA é muito instável, daí as mutações.
    tamtos sãbios e o país não se desenvolve há 25 anos. felizmente, que saiba, não tenho netos  

    ResponderEliminar
  3. Nunca hove ditadura em Portugal no Estado Novo(agora há) A unica "ditadura"" foi tentar acabar com os abusos oportunistas esquerdalhos.Infelizmente a tal ditadura foi algo extremamente levezinho o que é de lamentar,se fosse realmente ditadura todo este lixo socialista tinha ido com os pombos e esta terra seria prospera e virtuosa.
    Quem emigra por razoes meramente economicas é um canalha parasita oportunista ignorante que só vai destruir o país para onde vai impondo os seus costumes de merda desprezando a cultura local.
    Assim foram os portugueses em massa para França e são os maiores lambe botas do Macron e do Macronismo podre.
    Angola,Moçambique,cabo verde,sao tome,etc...antros pré-historicos de podridão,fome,miséria e ignorancia legitimizados pelo socialismo,o mesmo socialismo que importa essas criaturas ignorantes despersonalizadas para a Óropa dos éros que além do dinheiro e da boa vida nada mais lhes interessa.
    Incomoda-os os jeronimos,a estatua dos descobrimentos e que lhes chamem pretos mas cantam o faducho e dançam o bira do minho nos ranchos folcloricos,batata não porque mandioca é que é bom e a cachupa é que lhes dá pika(inicialmente amontoado de ervas e mandioca e @lcachofra do mato porque lá não tinham carne,quando chegaram a Portugal substituiram a alcachofra por carne) e eles aqui oprimidos e Africa é tão linda e tão grande e tem tanto potencial;leões,trigues,panteras,elafantes,embondeiros,crucodilos,rinoceirontes,hipopotames...entretanto lá foi o camafeu xuxa da brigada d'reumatico visitar o selfies que preocupadissimo em não gastar á toa o orçamento do estado lhe ofereceu agua,preferindo ela em vez disso um bom copo 4 de carrascão de Chelas 13,5 % vol para entrevista mais inspirada e mais feeling nacional,enfim agua seja para empurar o alambuzamento do carantonha de sapo xuxalhão que se bate com 35.000 brôas por mês para promover só aldrabices da agenda pôdre xuxa gay globalista zog. Foi um fartote e tudo isto num casarão enormissimo desertico e sem risco de assédio...inacreditavel!
    Obrigado portugueses!

    ResponderEliminar
  4. Pede outro que eu também bebo11 de julho de 2021 às 23:46

    Há muitos anos que não apanho uma cadela destas. Ganda buba.

    ResponderEliminar

  5. Tinha uma posição ideológica base: os processos económicos e sociais são muito mais poderosos que as políticas


    É uma posição ideológica eminentemente marxista.

    ResponderEliminar

  6. apesar do desenvolvimento económico muito rápido em Portugal


    O "apesar" está (em minha opinião) errado. O desenvolvimento económico em Portugal torna os portugueses menos pobres e, portanto, mais capazes de emigrar. Um povo na pobreza extrema nem sequer tem poupanças que lhe permitam dar o salto. É quando o povo sai da total miséria que começa a emigrar.

    ResponderEliminar
  7. Sobre o Estado Novo recordo-me de algumas coisas que testemunhei nas décadas de 60-70 . Um pouco "off the topic", desculpar-me-á por isso, mas gostava de mostrar alguns aspectos do viver simples do quotidiano:


    - os meus avós pertenciam à classe média. Só o meu avô, funcionário público, trabalhava. Como muitas famílias semelhantes socialmente, sempre puderam ter e manter duas empregadas domésticas internas como era hábito na época. Ainda havia uma lavadeira (não permanente) que lavava fora a roupa de corar que era recolhida em várias casas. (Sei que era motivo de satisfação para as  famílias das moças, porque passavam a ter melhores condições de vida, de alojamento, de alimentação etc. nas casas para onde iam, e juntavam o seu pé de meia, faziam o indispensável enxoval para se casarem, bordado sob a orientação das patroas, aos serões e nas horas vagas, e como supremo luxo ainda podiam adquirir as arrecadas e o cordão de ouro; aprendiam economia doméstica e a gestão de uma casa e outras prendas consideradas importantes na época. A partir de certa altura já tinham apoios sociais, a Casa do Povo, e em fins dos anos 60 e princípios de 70, recordo-me, com o incentivo dos meus avós, quiseram ir estudar à noite, em pós-laboral (como muitas outras raparigas e rapazes à época) para fazerem o Ciclo Preparatório (actual 6º ano) tendo havido um ajustamento de horários lá em casa. Estou a descrever o que se passava numa Vila do interior do país (não numa cidade). Por essa altura também surgiu a Telescola, com grande sucesso, pois isso permitia que também se fizesse a cobertura escolar das aldeias.


    - As localidades do interior estavam pejadas de gente, com pleno emprego, havia dinamismo na agricultura, comércio, serviços e certas profissões comuns e necessárias, de manufactura,  desapareceram ou foram transformadas em "artesãos" e o "artesanato" atinge actualmente preços proibitivos. Hoje é também um luxo exclusivo só para alguns, um fato feito no Alfaiate ou na Modista, o que dantes era o vulgar.  O conceito de reciclagem e reaproveitamento já existia. Não havia as estradas e os transportes públicos de hoje, nem em quantidade nem em qualidade, mas viajava-se muito de comboio. De facto, praticamente não existia este consumismo excessivo e esta cultura do desperdício que andamos agora a tentar remediar e travar.
    Havia cinema e teatro semanalmente, mesmo nas vilas do interior.  As companhias de teatro, com os vultos de maior renome, faziam digressões pelo país. Embora não fossem dum tempo anterior ao meu, recordava-se em casa a vinda da Palmira Bastos,  Rey Colaço,  Laura Alves, etc.  Fui ver em 68 a Simone de Oliveira a cantar a "Desfolhada" após a Eurovisão, pois fez uma "tournée" pelo país, nas localidades onde havia sala de espectáculos.
    Lia-se muito. Ler jornais era quase obrigatório. Emprestavam-se e trocavam-se livros. Os livros estavam presentes mesmo nas casas modestas. Havia uma a colecção dos Livros RTP, também as Bibliotecas itinerantes da Gulbenkian, o Clube do Círculo do leitor (pelo menos desde finais dos anos 60).
    Ainda existe lá por casa a colecção  "Literatura para o Povo", desse tempo de Salazar, que era uma série de livros acessíveis a todos os estratos sociais, com textos seleccionados  que percorriam várias épocas da Literatura, dando a conhecer autores portugueses, desde Camões, a Camilo, Garrett, Júlio Dinis, João de Deus, Augusto Gil, António Nobre, Guerra Junqueiro, etc. Independentemente do grau de escolarização, toda a gente sabia de cor a "Balada da Neve", a "Nau Catrineta", as "Trovas de D. Inês" e quando alguém dizia  "Menina e Moça me levaram", todos sabiam bem donde vinha a expressão.

    ResponderEliminar
  8.  (cont.)
    Não era tudo perfeito, nem era essa a noção que queria dar. Estão sobejamente documentados exemplos de falta de liberdade e de censura.  Mas hoje também ambas existem, subtilmente camufladas... e muitos o sentem na pele. O que é hoje a cultura de cancelamento senão uma forma de censura?

    ResponderEliminar
  9. políticas de desinvestimento do "interior".


    PS- a propósito ainda das digressões das companhias de teatro pelo país, durante o Estado Novo, não deixa de ser surpreendente que, na actualidade, apesar da proliferação de Pavilhões Culturais (e multi-usos), de grandes dimensões em quase todas as localidades do país, os actores se recusem a ausentar-se dos grandes palcos da capital e de algumas das cidades principais. Hoje, com tantas e boas estradas, as companhias de teatro não se deslocam para o interior. Viajar é uma grande maçada, causa um grande transtorno. Crise no Teatro? Como se há sempre um subsídio à espera para as capelinhas dos mesmos de sempre?

    ResponderEliminar
  10. Como diz a Helena Matos, este é o país RSI. E dos "instalados do regime".
    Hoje só existem estas duas classes sociais  A classe média, estruturante de uma sociedade e sustentáculo de qualquer regime, praticamente desapareceu e vive hoje em situação precária tanto a nível financeiro como profissional. Mesmo as pessoas mais qualificadas, com profissões diferenciadas e grau superior de instrução (ensino superior) auferem de salários baixos na generalidade, comparativamente com o salário mínimo. O elevador social também já não funciona. 
    São exemplos que revelam o país depauperado e exaurido em que nos tornámos. Com tendência a empobrecer cada vez mais, como prevêem todos os indicadores.
    Não por acaso esta sanha contra o Estado Novo. O actual regime não se podem "medir" com aquela época a vários níveis e portanto, julgo que a comparação torna-se-lhes insuportável. Não é fácil aceitar e assumir que se falhou.  E isso já é indisfarçável.

    ResponderEliminar

Equívocos

"pôr um dos membros da família no centro, em vez de pôr a família no centro", É aquilo que qualquer liberal faz: põe o indivíduo a...