quarta-feira, 21 de julho de 2021

A metáfora dos pilaretes

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Sou sempre muito crítico com as regras e restrições que me impõem talvez porque fui educado para cumpri-las ao contrário da maioria dos meus compatriotas. A praga dos pilaretes que empestam as nossas cidades, e a de Lisboa em especial, é toda uma metáfora da nossa dificuldade de viver em liberdade. Os portugueses têm uma relação ambígua com as regras, relativizam os princípios que gostam de usar consoante as suas conveniências a cada momento – não, não somos rebeldes, apenas oportunistas (o exemplo chega-nos de cima). Se um automóvel estacionado em segunda fila bloqueia a sua saída, o português, ufano do alto do seu apurado sentido de justiça vocifera contra a falta de civismo alheia, independentemente de no dia anterior ter feito o mesmo – talvez sem consequências de maior a não ser empatar o tráfego - só para beber a bica ao fundo da avenida a caminho do escritório.


O que seria dos nossos passeios, das nas nossas ruas e calçadas, sem os pilaretes de que toda a gente se queixa por serem inestéticos ou armadilhas para os invisuais ou os mais distraídos? Todos nos lembramos a balburdia do estacionamento automóvel quantas vezes impedindo a passagem de peões antes de surgirem os malditos pilaretes.


Mas o importante é percebermos como nos relacionamos com as regras de civilidade estabelecidas e a atenção ao próximo para entender se merecemos ou não ser tratados como crianças pelas “autoridades” que no sofá em frente à televisão bajulamos a vê-las por na ordem os hooligans da equipa adversária, mas que desprezamos quando nos manda parar numa operação stop por excesso de velocidade, quando julgávamos que ninguém nos estava a ver.


Voltando ao início desta conversa: sou muito crítico com regras e restrições, gosto de indagar sobre o seu sentido e protestar pela falta dele, porque fui educado para obedecer.  No fim de contas acabo por entender o porquê de nesta fase da pandemia sermos um dos povos da Europa que ainda reclama por mais e mais restrições (caso contrário o goveno já as tinha aliviado há muito): isso acontece porque cultivando o chico-espertismo (o exemplo vem de cima), poucos são os que lhes obedecem verdadeiramente, pois que cada um se sente no direito de ser excepção.


Não nos queixemos portanto de viver num emaranhado de pinos e pilaretes. Essa é a única forma dos portugueses comportarem-se com civilidade, e um sinal do nosso grande atraso. Temos aquilo que merecemos, somos tratados como criancinhas com direito a uma ração ao final do mês. Triste sina a nossa.  

5 comentários:


  1. Não entendo qual é o mal dos pilaretes. Acho-os infinitamente melhores, ou antes, infinitamente menos maus para os peões, do que os carros estacionados em cima dos passeios que eles vieram substituir.
    Essa história de que os pilaretes são inestéticos e perigosos para os invisuais é treta. Isso é conversa de automobilista que nos quer atirar areia para os olhos e gostaria de poder continuar a estacionar em cima do passeio. Aquilo que é verdadeiramente inestético e verdadeiramente perigoso para os invisuais são os carros estacionados em cima dos passeios.

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  2. Quem vende pilaretes está bem . Mais de metade dos pilaretes colocados em Lisboa são desnecessários. São colocados para vender mais . Gostava de saber o custo dessa manobra dos pilaretes .Claro, maus são os portugueses e os automobilistas, bons quem os manda por. Acho uma porcaria 

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  3. Mas sim, cá funcionou. Chamava-se Zona Azul, era na Baixa de Lisboa, e consistia num disco azul que as pessoas rodavam para indicar a hora num recorte, e deixavam  no tablier. Depois tinham julgo que 2 horas

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