quarta-feira, 26 de maio de 2021

As voltas que o mundo dá

Já por aqui tenho feito referências a Nuno Palma, quer a propósito da história económica de Portugal, quer a propósito da evolução do ensino durante o Estado Novo, sendo clara e manifesta a minha consideração pelo seu trabalho.


Não tenho estado atento ao que se passa na convenção do Movimento Europa e Liberdade (penso que é assim que se chama), mas por puro acaso o mural de uma amiga levou-me ao Polígrafo (outra coisa a que também não ligo grande coisa) e, daí, para a verificação de uma afirmação ignorante do deputado Pedro Marques (sei que desta vez a verificação foi feita a pedido de Nuno Palma, mas se o Polígrafo se dedicar a informações ignorantes de políticos sobre a história de Portugal, não tem mãos a medir).


E transcrevo as partes que mais me interessam:


"eu quero ser muito claro, compreender o Estado Novo é muito importante, não para o defender, uma vez que é indefensável ao nível político, mas é importante para compreendermos porque é que é falsa esta narrativa que foi criada após o 25 de abril e porque é que essa narrativa nos ajuda a explicar porque é que, hoje em dia, Portugal é um país com imensa resistência a ideias que não sejam de esquerda", ressalvou. "Isto leva a situações paradoxais, as tais tentativas de ilegalizar o Chega mas não o PCP, nem o PCPT/MRPP, nem o Bloco de Esquerda, nem o PNR.O atual primeiro-ministro que diz que um partido que negoceia com o Chega, como o PSD não é de confiança, mas depende da extrema-esquerda há anos e há seis anos do PCP em particular que é um partido, esse sim não democrático, não há dúvidas".


"Vamos então tentar perceber como é que essa narrativa foi construída. O Estado Novo, como este gráfico mostra, o século XX para Portugal correspondeu a uma enorme convergência com a Europa e esse arranque dá-se com o Estado Novo. Mas isto não é só o PIB [Produto Interno Bruto] per capita, corresponde também a uma melhoria nas estatísticas de bem-estar como, por exemplo, a enorme queda da mortalidade infantil. Foi com o Estado Novo que se deu a convergência com a Europa e que se deu a integração com a economia europeia, com a EFTA. E o Estado Novo foi revisionista a vários níveis, reformista, resolveu o problema do analfabetismo, que em Portugal era de cerca de 75% em 1900 e, entre as crianças, no final dos anos 50 era absolutamente residual. Também foi reformista ao nível da justiça", destacou.


"Mas, agora vamos ver como é que os materiais escolares que são ensinados nas escolas aos nossos filhos refletem esta realidade. Este é um tema que é muito caro à esquerda, em particular à extrema-esquerda. Quer controlar estas matérias, por questões de género, de colonialismo, disto e daquilo. O programa de História do 12º ano de acordo com os materiais oficiais do Ministério da Educação que estão disponíveis online, qualquer pessoa pode consultar, afirmam que é obrigatório ensinar às nossas crianças que o Estado Novo impediu a modernização económica e social do país e isto é considerado uma aprendizagem estruturante, mas é falsa e inconstitucional, uma vez que a Constituição proíbe o ensino de natureza ideológica. Depois, a sugestão de trabalho de equipa é um debate sobre o Holocausto, é bizarro tentar associar o Holocausto ao Estado Novo. O comunismo só é mencionado uma vez neste programa, sem ser criticado. A bibliografia são obras do marxista Eric Hobsbawm ou de Fernando Rosas. Este ensino que a esquerda e a extrema-esquerda em particular se insurge permanentemente dizendo que é fascista e dizendo que querem um ensino anti-fascista", acusou Palma."


Ora ainda bem, como um post que vi por acaso, que conduz a um sítio que não frequento, para ouvir falar numa iniciativa que não acompanho e o resultado é a magnífica síntese de um dos problemas do ensino em Portugal.


Note-se que não é só nestas matérias, em coisas que conheço razoavelmente, como conservação da natureza, fogos e eucaliptos, por exemplo, a quantidade de disparates nos manuais escolares é assombrosa, não estou sequer a falar de opiniões, estou a falar de coisas verificáveis e que estão factualmente erradas.


Eu não sei como isto se resolve, mas que é um problema, é com certeza, veja-se como Pedro Marques se tornou ignorante, nesta matéria, apenas por acreditar no que lhe ensinaram na escola e não ter tempo para estudar as fontes originais de informação que lhe poderiam trazer mais luz ao espírito.

9 comentários:

  1. fui vítima do fascismo até ao ensino superior e pude estudar em 2 universidades em Roma e Paris
    actualmente a burocracia e a ideologia social-fascista tomaram conta duma coisa que dá pela alcunha de ensino.
    sou Pedreiro-livre e anarca

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  2. Se todo o problema do nosso ensino fosse a sua alegada enviesação ideológica, estaríamos muito bem.
    Infelizmente o grande problema do nosso ensino não é esse. O grande problema do nosso ensino é o excesso de matéria que é lecionado a alunos, muito antes que eles possam ter idade intelectual e cultural para a apreender e apreciar, matéria que na sua grande maior parte é totalmente irrelevante para a vida futura da imensa maior parte desses alunos.
    E desse problema tem em grande parte culpa a direita política em Portugal, que insiste em asneiras como o suposto "facilitismo" do ensino, e pretende cada vez mais sobrecarregar as crianças com ensinos sem qualquer uilidade.

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  3. é bizarro tentar associar o Holocausto ao Estado Novo


    Não me parece bizarro associar o Holocausto ao Estado Novo. Portugal não foi propriamente um aliado de Hitler, mas não andou muito longe disso. E Portugal fez muito para ajudar muitos judeus, mas poderia ter feito muito mais para ajudar muitos outros.

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  4. Isto não é bem assim. Durante os primeiros anos do Estado Novo Portugal não convergiu com a Europa. Portugal convergiu com a Europa durante a Guerra, aproveitando-se da grande destruição da Europa e do facto de poder vender materiais a ambas as partes. Mais tarde, Portugal voltou a convergir com a Europa a partir da adesão à EFTA, mais ou menos a partir de 1960.


    Quer dizer, é verdade que houve períodos durante o regime do Estado Novo nos quais Portugal convergiu (muito) com a Europa, mas isso não foi verdade durante todo o Estado Novo.


    Pode-se dizer que durante os 48 anos que durou o Estado Novo, Portugal terá convergido com a Europa durante talvez metade deles.


    (Pelo menos é isto que me recordo de uns gráficos que vi.)


    Também não se pode dizer que Portugal convergiu com a Europa devido à excelente gestão do Estado Novo. O Estado Novo teve a sabedoria de manter Portugal afastado da Guerra, o que certamente ajudou Portugal a convergir. (Quer dizer, o tempo da Guerra foi de enorme penúria em Portugal, o povo passou imensa fome, mas na Europa em guerra a penúria foi ainda maior, pelo que apesar da penúria Portugal convergiu.) Após a Guerra, o Estado Novo não fez propriamente grande coisa que tivesse ajudado Portugal a progredir.

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  5. Luís,
    Estares a ensinar história económica de Portugal durante o século XX ao Nuno Palma é tão ridículo para o Nuno Palma resolver ensinar-te física teórica.

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  6. A história é uma ciência interpretativa. Eu não contesto o saber histórico de Nuno Palma. Parece-me é que a interpretação, e sobretudo a generalização que ele faz (passando de dois ou três períodos de convergência que ocorreram durante a vigência do Estado Novo, para a afirmação de que "o Estado Novo correspondeu a uma enorme convergência") é muito forçada.

    Não é legítimo fazer qualquer comparação entre a História e a Física Teórica. São ciências totalmente incomparáveis.

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  7. Luís Lavoura



    Coisas que não aparecem no Publico, no Expresso etc.
    https://en.wikipedia.org/wiki/Portuguese-class_trawler


    Já o PCP apoiou os Nazis entre 1939-1941, só parando de apoiar quando estes atacaram a URSS.

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  8. Hoje vi na televisão (num programa do Porto Canal sobre o novo livro de Rui Moreira) o tal gráfico com a evolução da razão entre o PIB per capita português e o europeu. E confirmei nesse gráfico a impressão que tinha. O Estado Novo não foi um longo período de suave convergência com a Europa. Durante o Estado Novo houve basicamente dois períodos de convergência com a Europa. O primeiro, de 1940 a 1945. O segundo, mais acentuado, de 1960 a 1973. Ou seja, em 45 anos de Estado Novo, Portugal convergiu com a Europa durante 18 anos - cerca de 40% do tempo. Durante os restantes 60% do tempo do Estado Novo, Portugal acompanhou, com oscilações, o ritmo de crescimento da Europa, sem qualquer convergência.

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