segunda-feira, 5 de abril de 2021

"...com a cabeça entre as orelhas"

Um dia destes, um dos mais ouvidos especialistas nesta epidemia - trata-se de uma especialização especial, há especialistas em epidemias, que há anos que se dedicam ao estudo e gestão de epidemias e há os especialistas nesta epidemia, que nunca tinham estudado nenhuma antes mas são especialistas nesta - perguntava se alguém lhe explicava onde estava a sazonalidade quando a Índia estava a braços com um aumento de casos com 40º de temperatura.


Não vale muito a pena explicar que à medida que se sobe em latitude as diferenças do foto-período são mais acentuadas ao longo do ano e portanto as estações do ano mais marcadas pela resposta do mundo natural a essas variações.


As plantas não abrolham porque faz frio ou calor, abrolham porque o tempo de luz disponível é o adequado, fazer frio ou calor apenas adianta ou atrasa uns dias o abrolhamento. Se houver uma semana muito fria em Agosto as plantas de folha caduca não perdem a folha, da mesma forma que não abrolham a meio de uma semana de temperaturas altas em Dezembro.


É por isso que num mundo temperado nós distinguimos a Primavera, do Verão, do Outono e do Inverno, e existem muitas árvores de folha caduca, mas no mundo mais próximo do equador as estações dividem-se entre as estações das chuvas e estações secas e são mais raras as espécies de folha caduca.


E distinguimos ainda os climas pela diferente combinação entre estes elementos. Por exemplo, o clima mediterrânico, sendo temperado e com quatro estações bem definidas, distingue-se pelo facto da estação quente coincidir com a estação seca.


O que em lado nenhum se faz é caracterizar ambientes externos exclusivamente a partir da temperatura, muito menos a partir da temperatura num determinado momento.


Também não vale a pena explicar que a Índia é enorme e dizer que a Índia está com temperaturas de 40º é uma tolice: com certeza haverá vastíssimas áreas da Índia que não estão a 40º e seria preciso ver se os sítios onde está a haver surtos são os mesmo onde está a haver temperaturas de 40º para, ao menos, formular uma hipótese minimanente consistente.


Repare-se como a conversa das ondas é uma tontice quando avaliadas por país e não por regiões, com o exemplo da Alemanha que teve uma onda perto do Natal e agora está a braços com outra, na opinião dos tais especialistas que evitam olhar para distribuições geográficas pormenorizadas de incidência.


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Sem surpresa, as duas ondas são na Alemanha, mas não são no mesmo sítio, como seria de esperar.


Perguntar onde está a sazonalidade na Europa temperada com base no facto de haver surtos com 40º de temperatura noutro lado qualquer - depois de ter escrito um artigo sobre o mito do Natal, em vez de receber contestações aos argumentos usados o normal era perguntarem-me como era possível ter razão se em Manaus estava calor e havia um surto - é uma demonstração de incompreensão total sobre o que se está a passar, para além de ser uma demonstração de desconhecimento da bibliografia básica sobre sazonalidade das doenças infecciosas respiratórias. A sazonalidade das regiões temperadas está razoavelmente bem estudada, até por ser bem marcada, mas a sazonalidade das regiões tropicais está muito menos compreendida, parecendo relacionar-se mais com a humidade que noutras regiões (o que é coerente com o facto de ser esse o factor principal de distinção das estações no ano nessas latitudes).


Olhar para estes gráficos e não ver sazonalidade, já não é ignorância, é cegueira mesmo.


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E é com base nesta cegueira evidente que se andam a propôr medidas de controlo de terceiros, não admirando por isso que do processo resultem coisas tão estúpidas como fechar parques infantis ou determinar o fecho de restaurantes à uma da tarde de Sábados e Domingos.


É a vida, "cá se vai andando, com a cabeça entre as orelhas".

2 comentários:

  1. Frankenstein no poder
    ou
    o socialismo levanta o traseiro do penico de Pandora

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  2. Acresce, ao que disse, que a sazonalidade tem muito menos relevância quando a incidência acumulada é reduzida. A avaliar pelo total de casos, na India a epidemia ainda está numa fase inicial, em que há muito por onde progredir. Confesso que também não conheço a distribuição geográfica dos casos na India, mas conheço no Brasil: https://www.conass.org.br/painelconasscovid19/
    No Brasil o pico de casos ter-se-á dado na semana passada mas no estado do Amazonas os casos descem há 10 semanas e os mortos há 9 semanas. O numero semanal de mortos é 8x menor que no pico da semana 3. Se pequenos e médios países não se podem analisar como um todo o que dizer que países com escala continental e dinâmicas internas tão diversas? 
    A estupidez soma e segue.  

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