Em posts anteriores tenho procurado contestar a visão catastrofista - o que será o menos se corresponder à realidade - da evolução da epidemia, ontem expressa na estranha afirmação de Marcelo Rebelo de Sousa de que o que fizermos até ao fim de Março condiciona a evolução da epidemia até ao fim do Verão e, quiçá, no próximo Outono.
O que me separa radicalmente dessa visão é a ideia de que os surtos de doenças infecciosas têm uma dinâmica interna, condicionada por factores ambientais que frequentemente desconhecemos, que é muito mais poderosa que a dinâmica resultante dos contactos dos hospedeiros.
A minha convicção é que sabemos demasiado pouco sobre os processos naturais para ter a pretensão de que os conseguimos controlar a partir da forma como nos organizamos.
O que não me faz negar a utilidade de tentarmos usar o que sabemos sobre contactos e formas de nos organizarmos para nos defendermos das consequências negativas desses processos naturais, sempre que seja possível e razoável esperar que as medidas que nos parecem adequadas, não têm efeitos sociais e pessoais globais mais negativos que os eventuais efeitos positívos sobre o controlo do surto epidémico.
O fulcro, o centro do que tenho escrito, prende-se com a discussão dos efeitos negativos e positivos das medidas não farmacêuticas de controlo desta epidemia, com a recusa radical de aceitação da adopção de medidas cujos efeitos negativos são simplesmente ignorados na formulação de políticas.
O que me obriga a olhar para matérias que claramente não são a minha área de competência, como a discussão dos efeitos da epidemia.
Procuro por isso não me meter em matérias demasiado complicadas para o que sei, olhando para factores que consigo compreender, mesmo que sejam indicadores grosseiros ou que o que consigo saber sobre eles seja a partir de indicadores grosseiros.
O principal indicador para que olho é o da mortalidade e tendo discutido (na verdade, comigo mesmo) a hipótese de que a evolução das últimas semanas se explica melhor a partir da compreensão dos efeitos de uma vaga de frio excepcional que a partir dos contactos do Natal, resolvi melhorar um bocadinho um gráfico da treta que já apresentei antes.

Atenção à parte mais à direita do gráfico quer porque os dados da mortalidade total estão forçosamente subestimados, o sistema de registo da mortalidade tem dados provisórios nos últimos dias e vai actualizando os números, e ainda não sei, neste momento, os dados da mortalidade covid de hoje, que dizem respeito a ontem. Ainda assim note-se que a queda da mortalidade total de anteontem para ontem é apreciável, e o número provisório a esta hora é expressivamente mais baixo que à mesma hora dos outros dias. Veremos o que se confirma nos próximos dias.
O que vejo neste gráfico, em que representei a mortalidade diária total e a sua média de sete dias, a cor de laranja, a mortalidade covid e a sua média a sete dias a azul e percentagem desta sobre aquela, a verde?
Face às hipóteses que apresentei anteriormente este gráfico não as valida totalmente, especialmente no tempo, mas abre a possibilidade de não estarem totalmente erradas, se ajustar o que disse antes, corrigindo quer o tempo de ocorrência quer, provavelmente, a velocidade de evolução.
O que me parece clara é uma subida de mortalidade total a partir do dia 24 de Dezembro, com uma ligeira descida do peso da mortalidade covid num primeiro momento (princípio de Janeiro) e relativa estabilidade desse peso até ao fim da primeira semana de Janeiro, a que se segue um progressivo aumento do peso da mortalidade covid na mortalidade total, acentuado a partir da segunda quinzena de Janeiro.
A média dos sete dias da mortalidade total permite ver melhor o pico de mortalidade por volta de 26 de Janeiro e o início de uma descida, que eu espero que seja sustentável, mas para a validação da qual não existem, ainda, dados.
Se esta leitura estiver certa, eu diria que não está muito longe de validar, em traços gerais, não no pormenor, a hipótese que tenho vindo a procurar validar face à evolução da realidade.
A minha interpretação pode resumir-se da seguinte forma: após um primeiro momento do impacto direto da onda de frio na mortalidade (mais ou menos a semana de desafasamento que vi na bibliografia que li), faz-se sentir o impacto da onda de frio na evolução da infecção que tem uma evolução bem mais prolongada que a da gripe, o que aumenta o desfasamento em relação aos dados da meteorologia. Enquanto estes dois efeitos se sobrepõem, na primeira fase, a mortalidade total aumenta rapidamente, mantendo-se o peso relativo da mortalidade covid sobre a mortalidade global e à medida que o efeito directo da anomalia meteorológica se vai desvanecendo a velocidade de aumento da mortalidade global decresce e aumenta o peso relativo da mortalidade covid.
A ser assim, as boas notícias é que os impactos directos e indirectos da anomalia meteorológica estão em dissipação e nos próximos dias veremos o pico e posterior descida do número de casos covid, de internamentos e mortes, de letalidade e de positividade dos testes, embora com desfasamento entre eles e, provavelmente, a um ritmo mais lento do que eu pensava e gostaria.
Como entretanto foram tomadas medidas brutais de restrição de movimentos, não haverá falta de quem dirá que foram essas medidas que deram origem à evolução descrita (se ela se verificar), mas será bom ter em atenção que os efeitos dessas medidas só se podem atribuir a essas medidas a partir de hoje, e os indícios desta evolução são anteriores.
Até pode ser que essas medidas tenham algum efeito e acentuem a evolução descrita, mas não vejo como atribuir-lhe a causa de uma evolução que se inicia num momento que lhes é anterior.
ResponderEliminarVocês são de rir...
O excesso de mortes em Portróikal tem uma causa CLARA E EVIDENTE e de designação:
"ESTADO DE EMERGÊNCIA"
Tudo o resto é desperdiçar palavras virtuais.
Não é preciso nenhum grau académico para verificar tal REALIDADE...
https://voza0db.livejournal.com/12736.html
Não sei se conhece este estudo, mas poderá auxiliar numa melhor compreensão do que defende e com a qual, genericamente, concordo:
ResponderEliminarhttps://journals.sagepub.com/doi/full/10.1177/1176934321989695
O SCIMED era uma coisa interessante, mas infelizmente o seu autor resolveu enveredar por um caminho sem grande base científica, o que eu si não seria problema, mas sobretudo por um caminho de pura desonestidade, de que esta citação sua é bem um exemplo.
ResponderEliminarÉ fácil ir ao post que é referido e verificar que eu não escrevi o que me é atribuído.
Obrigado, vou ler, não conhecia
ResponderEliminarOk. Se é como diz tem razão.
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ResponderEliminarEsta formulação dá amplo espaço à subjetividade...
Temos medidas com "eventuais" (isto é, incertos) efeitos positivos e que "parecem" (a algumas pessoas, mas não a outras) adequadas...
ResponderEliminarNão é descabida a "hipótese do frio" no que se refere à mortalidade não-covid, antes pelo contrário. Existe uma relação causal ditada pela fisiologia - e não apenas correlação - entre condições de stress térmico (uma área de investigação científica) e mortalidade. Sempre que as temperaturas se desviam apreciavelmente de condições de conforto térmico, a mortalidade aumenta, quer se trate de temperaturas baixas, quer de temperaturas altas. Este facto, muito embora apareça mascarado no Inverno pela mortalidade causada por infecções respiratórias, é de todo evidente no Verão aquando da ocorrência de ondas de calor.
Já no que diz respeito à mortalidade e à incidência da COVID-19, não me parece que a temperatura seja um factor determinante. Apesar de ter conhecimento de vários artigos científicos que mostram a existência dessa correlação, em nenhum deles encontro análise comparativa entre temperatura e irradiação solar. O único artigo científico de que tenho conhecimento onde se estuda a influência da irradiação solar, da temperatura e de outras variáveis meteorológicas é este:
"Higher solar irradiance is associated with a lower incidence of COVID-19"
(https://pdfs.semanticscholar.org/22d5/2f6dd0a34849278420b06ef136db7e9a8a38.pdf).
Tal como o próprio título indica, de todas as variáveis meteorológicas estudadas, aquela que se destaca é a irradiação solar. O que vem ao encontro daquilo que se sabe, sem margem para dúvidas, sobre a existência de relação causal entre irradiação solar (a causa), temperatura, efeito virucida dos ultra-violetas e concentrações de vitamina D (os efeitos).
Toda a evidência científica produzida antes e após a COVID-19 aponta para a influência determinante que a carência e a insuficência de vitamina D desempenham na frequência de infecções respiratórias, na positividade de testes ao SARS-Cov-2, na gravidade dos seus sintomas e nos desfechos fatais - artigos científicos às dezenas, basta fazer-se uma pesquisa (em inglês). Pelo facto de não haver divulgação generalizada sobre a importância da vitamina D, há quem afirme tratar-se de uma verdadeira conspiração de silêncio e mesmo de negligência, o que constitui crime.
Para colocar em evidência a importância da vitamina D, socorro-me de ensaio clínico onde se testa o efeito terapêutico de um seu análogo, o calcifediol:
"Effect of Calcifediol Treatment and best Available Therapy versus best Available Therapy on Intensive Care Unit Admission and Mortality Among Patients Hospitalized for COVID-19: A Pilot Randomized Clinical study"
https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0960076020302764
Também o artigo científico
"The seasonality of pandemic and non-pandemic influenzas: the roles of solar radiation and vitamin D"
(https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1201971210024975
estabelece uma relação clara entre irradiação solar, concentrações de vitamina D e sazonalidade da ocorrência de gripe.
Sobre o efeito perverso das medidas não-farmacêuticas a evidência empírica já se encarregou da demonstração, não sendo necessário referir artigos científicos. Basta ir-se ao worldometers e comparar os gráficos de mortalidade da Suécia e de Belarus, sem confinamentos, sem máscaras e com escolas parcial ou totalmente abertas, com os de outros países. Qualquer cepo com apenas um olho e mais de dois neurónios funcionais chega facilmente a essa conclusão.