sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Terraplanistas

É frequente a alegação de que nas discussões sobre a epidemia em curso há o campo da ciência, e há os outros, os terraplanistas, para simplificar.


As principais equipas que trabalham a evolução da epidemia para apoio à decisão, quer em Portugal quer na generalidade dos outros países, assentam grande parte das suas interpretações na ideia de que não há contágio sem contacto entre pessoas (o que manifestamente é verdade), logo o contacto entre pessoas pode explicar a evolução da epidemia (o que é uma simplificação da primeira ideia na medida em que não temos toda a informação sobre o que é um contacto, do ponto de vista do vírus), logo as medidas tomadas pelos governos que têm efeitos na quantidade de contactos entre pessoas são a principal força de modelação da evolução da epidemia (o que corresponde a um triplo salto mortal encarpado com pirueta atrás para passar da primeira ideia para esta).


Por isso uma das mais eficazes formas de aprendermos a avaliar em que medida a nossa interpretação da evolução da epidemia está a captar a realidade é olhar para as previsões e interpretações feitas sobre os factos, e avaliar em que medida têm adesão à realidade.


A questão não é se a previsão bate certo ou não, só por acaso uma previsão sobre o futuro bate certo, o que interessa é a adesão geral à realidade.


Na última reunião do Infarmed, Manuel Carmo Gomes referiu o exemplo dos Países Baixos como estando a controlar a epidemia através de medidas de controlo dos contactos entre pessoas, mas mal os aligeirou, a curva de casos começou de novo a subir.


Já fiz vários posts em que referi que esta previsão até se revelou razoavelmente acertada nos Países Baixos, mas não noutros países para os quais as circunstâncias são as mesmas, portanto a explicação não parece muito sólida.


Hoje resolvi abordar a questão dentro dos Países Baixos, tirando partido de haver informação geográfica fácil, expressiva e facilmente acessível (a minha vida não é estudar epidemias, gasto um tempo limitado, ainda assim excessivo, com o assunto).


Comecemos pelo gráfico clássico do número de casos, com indicação da média a sete dias, actualizado até ontem.


hol.jpg


Agora olhemos para dois mapas correspondendo aos dois picos assinalado no gráfico, o fim de Outubro e a quinzena que acabou a 15 de Dezembro, uma razoável proximidade em relação à subida de número de casos que agora se verifica (seria melhor a semana em que estamos, porque a semana que acaba a 15 de Dezembro ainda corresponde à subida. A seu tempo se aferirá se a hipótese que resulta desta comparação se mantém).


hol map 1.jpg


hol map 2.jpg


Para mim é claro que existe uma alteração de padrão geográfico de uma quinzena para a outra (a confirmar na próxima quinzena com dados posteriores a 15 de Dezembro).


Se admitirmos que de facto existe uma alteração de padrão geográfico, então as explicações sobre medidas, construídas a partir de modelos que escondem esta diversidade geográfica, tomando o país inteiro como unidade geográfica, talvez sejam simplesmente má ciência, por mais sofisticados que sejam os modelos matemáticos usados.


Os modelos não correspondem a má matemática, longe de mim sequer discutir isso, correspondem a má ciência no sentido em que existe uma escolha arbitrária das unidades geográficas usadas para um fenómeno cuja compreensão é claramente obscurecida por essa escolha arbitrária.


Talvez não seja verdade que de um lado está a ciência e do outro os terraplanistas, talvez estejamos todos do mesmo lado a olhar de forma diferente para a mesma realidade, com as consequências que Descartes descreveu para a opinião que todos temos sobre o nosso bom senso e a falta que faz aos outros terem o nosso bom senso.

7 comentários:

  1. "Terraplanismo" é adoptar medidas como as que fizeram com que, no fim-de- semana passado, dentro da mesma área metropolitana, num contínuo urbanístico e social (dentro do qual, todos os dias, circulará, sem atender a limites concelhios, meio milhão de pessoas), houvesse circunscrições administrativas contíguas em que vigoravam regras de circulação e funcionamento do comércio totalmente diversas - nuns, tudo fechado, noutras, tudo aberto. Sinceramente, que género de cretino é que se lembra de distinguir Lisboa, Loures, Barreiro e Almada, de Oeiras, Amadora, Odivelas, e Seixal, para avaliação do impacto de uma doença infecciosa e das medidas a para a combater e mitigar? Se há prova cabal de que os matemáticos, pese a sua vasta inteligência abstracta, no concreto, são um bocado burros, é esta.

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  2. 7ª suspensão da CRP  
    paranoia

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  3. Há sempre este problema das fronteiras. Ele é inevitável. Também é possível que em Vilar Formoso vigorem certas medidas mas em Fuentes de Oñoro vigorem outras totalmente diferentes.
    (Em tempos hoje já, felizmente, olvidados, houve quem se lembrasse de proibir o aborto em Portugal quando ele era permitido em Espanha.)
    A minha aldeia fica num concelho mas mesmo ao pé das fronteiras de outros dois. Basta andar dois quilómetros numa direção ou noutra a partir do centro da aldeia para se estar em concelhos diferentes.

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  4. Ó homem, não "". Não há nenhuma "fronteira" a meio de Algés, a meio de Moscavide, a meio de Santo António dos Cavaleiros, ou a meio de Corroios. Há um traço que é relevante para taxas de IMI, mas que é absolutamente irrelevante para a adopção de medidas de combate e mitigação de uma doença infecciosa e para a medição do impacto geográfico da mesma. A maior parte da população activa dos concelhos da grande Lisboa não trabalha no concelho onde reside (e a "terrível" população universitária, idem), pelo que é absurdo estar a aplicar medidas em função do lugar onde dorme um infectado que, desde que sai de casa, de manhã, até que volta, à noite, esteve noutro concelho. Mesmo que as medidas não fossem absurdas, discriminar a sua aplicação dentro de uma área urbana manifestamente ininterrupta (vá ver um ortofotomapa), como aquela entre Cascais e Vila Franca de Xira, e Loures e a Margem Sul, com base em critérios e limites completamente aleatórios é absurdo.

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  5. Antes de mais, parabéns pelos seus comentários e análises. parecem-me do mais racional que se encontra por essa web fora. O que se passa é que uma pandemia é um fenómeno social com repercussões sanitárias. Se reparar, a maioria dos que abordam o tema, na comunicação social formal e informal são médicos ou matemáticos. Os médicos saberão muito do seu mester, mas de epidemias sabem muito pouco (nas faculdades de medicina a epidemiologia sempre foi um parente muito pobre). Os matemáticos, muitos deles brilhantes, estão geralmente muito longe da realidade sociológica e antropológica. O resultado é que somos bombardeados por indivíduos preocupados com a formação da pandemia  - os matemáticos e com o resultado da mesma - os médicos. Talvez fosse bom darem voz a antropólogos, sociólogos e psicólogos. Talvez a visão quadrada e redutora da realidade tomasse alguma forma.
     

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  6. Como reforço ao que escreveu dou alguns dados do caso alemão, um dos países que mais acompanho. A Alemanha começou a tomar medidas de contenção a 2 de Novembro. No dia 9 de Novembro o Rt a 7 dias era de 0,98 (uso este dia pois já inclui 7 dias de medidas num Rt também a 7 dias). No dia 9 de Dezembro o Rt era de 0,99. Pelo meio foi flutuando ligeiramente para cima e para baixo. Um mês de confinamento médio fez zero pelo Rt. Entretanto o confinamento foi reforçado. O Rt de hoje é 1,05. Mais confinamento resultado idêntico. Já agora, antes do confinamento inicial o Rt vinha a descer bastante. O pico desta fase foi a 19 de outubro com 1.25. Desceu de 1,25 para cerca de 1,00 sem medidas de confinamento.
    Agora os casos. Em média móvel a 7 dias, no dia 9 de novembro eram 18341. No dia 9 de dezembro 19488. 6% de aumento em 1 mês de confinamento. Entretanto e já com o confinamento mais restritivo em vigor, tínhamos ontem, 17 de dezembro, 24000 casos. 
    Depois virá um qualquer governante, num qualquer forum, dizer que se não se tivesse feito o que se fez (o que quer que tenha sido) tudo teria sido pior, certamente terrível. Nesta pandemia o contrafactual é quase possivel dada a variedade de respostas a situações muito parecidas, mas mesmo assim (quase) ninguém quer ver a realidade. 
    Fontes: Comunicado diário do RKI (www.rki.de) e https://www.worldometers.info     

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