Por causa do meu post anterior, apareceu-me alguém a dizer que esperava que eu escrevesse sobre o relatório oficial que reconhece o falhanço da estratégia sueca.
Mais tarde, alguém vai buscar uma declaração do rei sueco sobre a mortalidade deste ano que o Guardian traduziu para uma declaração de crítica à estratégia sueca.
Eu não entro no campeonato destes conseguiram, aqueles não conseguiram, pela simples razão de que o tempo tem vindo a demonstrar que os checos que tinham vencido o vírus com as máscaras afinal apanharam a epidemia mais tarde, que os eslovenos que era o orgulho e exemplo da Europa, afinal apanharam a coisa mais tarde e até os alemães, aqueles organizados que tinham muitas camas e lares fantásticos, afinal estão com uma mortalidade diária (média a sete dias) que é o dobro da da Primavera.
Também não entro no campeonato das explicações para subidas e descidas de incidência porque me lembro de Manuel Carmo Gomes, ou pessoas da equipa dele, a falar de como a abertura das medidas de contenção irlandesas (tenho sempre de ir confirmar que fecharam o país com mortalidades diárias de cinco ou seis pessoas porque de cada vez que escrevo isso não acredito que tenha sido mesmo isso que aconteceu) já estava implicar subidas de casos, o mesmo para os Países Baixos e a República Checa, mas afinal as curvas divergiram, nos Países Baixos voltaram a subir bastante, na República Checa subiram qualquer coisita e na Irlanda continuaram a descer, antes de subir um bocadinho, com grande desfasamento temporal.
Já não falo da explosão de casos que Fauci previa em consequência do Thanksgiving, que na verdade correspondem a uma subida real entre os 20 e os 25%, que mantém a trajectória de subida anterior, sem qualquer ruptura na inclinação da curva (Fauci agora, em vez de avaliar esta previsão catastrófica, diz que o Natal vai ser muito pior). E, já agora, essa subida média dos Estados Unidos esconde a enorme variedade das subidas e descidas, de uns sítios para os outros, como se o Thanksgiving tivesse expressões locais muito marcadas e não fosse, como é, uma festa transversal a toda a nação.
Resumindo, eu não entro nessas guerras das previsões, acho normal que as previsões saiam erradas, o que não acho normal é que se continue a dar credibilidade excessiva a previsões catastróficas que nunca, mas nunca, se verificaram e, por isso, mais uma vez, pubico o gráfico do euromomo desta semana, para dar contexto, usando o único critério sério para fazer comparações, o da mortalidade excessiva.

O tal relatório sueco diz o que diria qualquer relatório com as mesmas características feito em qualquer país, com diferenças de pormenor: o modelo de envelhecimento das nossas sociedades resulta numa concentração de pessoas frágeis, sós e indefesas em estruturas colectivas que respondem mal a ameaças deste tipo (tal como respondem mal à gripe e aos picos de calor, pelo menos em Portugal, nuns países os picos de mortalidade da gripe são muito mais suaves que noutros, e existe também uma grande variabilidade geográfica da incidência).
Numa tradução fajuta feita automaticamente por uma das minhas irmãs, a partir do tal relatório sueco, vale a pena reter estes dois parágrafos, dando desconto à tradução e sem ir muito longe na discussão de alguns números estranhos, como os do Canadá:
"De acordo com um resumo da situação em 26 países, em meados de Junho a proporção de casos de habitação de idosos de todos os óbitos relacionados com a covid-19 na maioria dos países variou entre 35 e 85 por cento (média 47 por cento) Na Suécia, a quota-parte era de 47 por cento, Austrália 31 por cento, Dinamarca 35 por cento, Alemanha 39 por cento, Grã-Bretanha 42 por cento, Finlândia e Estados Unidos 45 por cento, França , Noruega 59 por cento, Irlanda 63 por cento, Bélgica 64 por cento, Espanha 68 por cento e Canadá 85 por cento.
...
Uma versão atualizada da compilação, publicada Outubro de 14 e com base nos dados da segunda metade de Setembro ou mais tarde, mostra que, em média, o falecido em residências de idosos imake aproximadamente a mesma proporção de todas as pessoas que morreram de ou com covid-19: 46 por cento. Em muitos países, a proporção em grande parte inalterada desde junho: na Suécia 46 por cento, Dinamarca 35 por cento, Alemanha 39 por cento, Estados Unidos 41 por cento, Finlândia 42 por cento, Reino Unido 44 porcento, França 46 porcento, Noruega 53 porcento, Irlanda 56 porcento, Bélgica 61 porcento, Espanha 63 porcento e Canadá 80 por cento".
O que é claro é que independentemente das opções tomadas, quer de controlo da prevalência da epidemia na sociedade, quer na defesa dos lares, as taxas de mortalidade em lares - confinamento mais confinamento que esse é difícil de encontrar, só que mesmo esse implica ter pontes com o exterior - são altíssimas e numa banda semelhante (as diferenças de registo podem ter mais influência nas diferenças dos números que a realidade, por isso nem quero discutir cada valor em pormenor).
Como é claro, o que é relevante numa epidemia não é a presença do vírus em pessoas, o que é relevante são as consequências sociais negativas que essa presença pode provocar, a doença e, sobretudo, a morte.
O que se verifica é que os técnicos e os governos não conseguem prever a evolução da doença - o caso da Alemanha é notável porque parece que tinha feito tudo bem na Primavera, e que agora com mais conhecimento sobre a epidemia iria ter melhores resultados e afinal não só não foi assim, como quando reagiu impondo medidas de restrição, isso não se traduziu no controlo da epidemia, mantendo-se o seu crescimento, levando o governo a adoptar agora medidas ainda mais restritivas, embora seja difícil de entender como quem não conseguiu desenhar medidas de contenção, agora já consegue - e que mesmo as estruturas mais protegidas mantêm taxas de mortalidade elevadíssimas, que não desceram da primeira para a segunda época, como se não tivéssemos aprendido nada.
A minha conclusão não vai no sentido de dizer que sei muito mais que esta gente toda e que sei muito melhor o que fazer para conter os efeitos negativos da epidemia, a minha conclusão central, e que gostaria que fosse incluída na discussão de alternativas de decisão, é a de que não sabemos, não é fácil saber, o mais provável é mesmo não conseguirmos estabelecer perímetros de segurança fiáveis e, consequentemente, temos de rever as medidas que andamos a tomar, sem com isso conseguir ter resultados que justifiquem os prejuízos evidentes noutras dimensões sociais para lá do controlo da epidemia.
Há milhões de vírus a circular por aí, há muitos milhões que não têm viabilidade nenhuma mas basta de uma percentagem ínfima consiga atingir hospedeiros potenciais para que a epidemia prossiga.
O que eu aprendi nos fogos é que as estratégias que visam reduzir as ignições não dão resultados visíveis, e que as estratégias úteis se concentram no contexto em que ocorrem as ignições, sabendo que haverá sempre ignições que escapam ao controlo.
Os grandes números da epidemia, nas diferentes geografias, parecem dar sentido à analogia e, se assim fôr, trabalhemos a redução do risco que não tem um preço demasiado elevado, concentremos recursos na redução do risco dos mais frágeis e deixemo-nos desta fantasia de que são as nossas medidas que controlam a evolução da doença.
Aparentemente muitos matemáticos consideram que cada contacto evitado corresponde a uma diminuição da probabilidade de contágio (na verdade são mais os médicos treinados na clínica que dizem isto, os matemáticos, de maneira geral, são mais cautelosos com esta ideia de que cada contacto evitado é um ganho no controlo da epidemia), fazendo muitos modelos neste pressuposto.
Eu, se soubesse matemática para isso, seria tentado a fazer modelos contando mais com o princípio de Pareto no que diz respeito aos contágios (sim, eu sei que há vários matemáticos que desenvolvem também modelos neste pressuposto).
Era bom também dar a conhecer os nomes dos profetas da desgraça, aqueles especialistas iluminados que em Setembro e Outubro previam mais de 10000 infecções diárias no mês de Dezembro.
ResponderEliminarExmo Sr.
ResponderEliminarNada percebo de nada, mas gostava de saber a sua opinião sobre medidas a tomar? Entre o nada fazer e o tudo proibir onde é que ficamos?
Obrigado
Pedro Cunha
Essencialmente o que está na declaração de Great Barrington: proteger os vulneráveis e deixar a infecção seguir o seu curso, em sociedades conscientes de que existe uma epidemia.
ResponderEliminarLavar as mãos, tossir para o sangradouro, isolar aos primeiros sintomas são medidas sensatas e razoáveis cujo custo é marginal. Não resolvem a epidemia, nenhumas medidas resolverão, mas permitem que evolua mais lentamente, na melhor das hipóteses, além de reduzir o risco do próprio.
Os mais vulneráveis devem aprender a defender-se, por exemplo, sabendo que máscaras sociais não os protegem, máscaras n95 sim, mesmo que não totalmente. Não existe risco zero, o que existem são comportamentos irresponsáveis para as circunstâncias e comportamentos responsáveis, cabendo a cada um fazer as suas escolhas.
Bom Dia Henrique,
ResponderEliminarAcho que relativamente à Suécia não vale apena gastar mais cera com ruim defunto. Daqui a um mês, mais tardar um mês e meio, quando o número de mortos em Portugal ultrapassar, infelizmente, o número de mortos da Suécia, deve-se é perguntar aos que agora crucificam os suecos, em que medida as medidas impostas cá resultaram de melhor que as de lá?
Como se o mais importante não fosse a capacidade de um país ter a capacidade de se organizar, mantendo as respostas para todas as outras doenças, permitindo obter resultados lá, muito mais satisfatórios do que cá. Relembro que lá a mortalidade está abaixo da média e que o saldo populacional na Suécia é positivo ao contrário de Portugal.
O que é que estes dados nos fazem melhores que Suecos?
Milagre seria com uma sociedade mais atrasada e economicamente mais débil tivéssemos os resultados contrários.
Pedro Sanfins
Pedro Sanfins
Os seus dados estão desactualizados. A Suécia está a ter 60-100 mortos por dia. A diferença para Portugal vai-se manter. E para mais, em termos de morte em excesso pode ver este post aqui e de um jornal sueco: https://www.thelocal.se/20201214/sweden-sees-highest-excess-mortality-in-100-years
ResponderEliminarPode dar-me a fonte dos dados para médias de 100 mortes diárias na Suécia? Não é o que está no worldmeters mas eu sei que a Suécia tem uma forma de reporte muito sui generis com atrasos relevantes, e por isso fiquei curioso de saber a fonte dos seus dados
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