Pelo Vasco Rosa, no Observador, fiquei a saber que morreu Ribeiro Telles.
Serei, talvez, dos poucos arquitectos paisagistas com críticas públicas feitas a Ribeiro Telles, que aliás começam no tempo em que fui seu aluno (por exemplo, aqui).
Um dia num blog fiz uma crítica a um jardim projectado por Ribeiro Telles (não encontro esse post). Poucos dias depois, por circunstâncias fortuitas, levei uns sobrinhos meus a esse jardim. De repente reparo num senhor que vem direito a mim, e acto contínuo reconheço Ribeiro Telles. Imediatamente me fala da conservação do jardim, repetindo duas ou três vezes que era sempre o mesmo problema, a manutenção comprometia frequentemente o projecto.
Conhecendo-o como conhecia, concluí que alguém lhe terá mostrado a crítica que fiz ao jardim e que Ribeiro Telles, com a mulher, aproveitou a primeira ocasião para ir ver directamente o assunto com os pés bem na terra e os olhos abertos. Como me viu, aproveitou para, de forma directa e clara, responder à crítica sem nunca se lhe referir.
Sempre o conheci assim: terra a terra, directo e com uma capacidade imensa de ouvir críticas sem se perturbar e, mais importante, sem as desvalorizar, por mais que discordasse delas.
Da última vez que estive com Ribeiro Telles, há já uns anos, ia eu a correr pela Rua de São José abaixo, atrasado para um compromisso - e como eu detesto atrasar-me - quando ao passar por um café reparo em Ribeiro Telles, sozinho a ler o jornal numa mesa.
Parei, voltei atrás e entrei para o cumprimentar, o que provavelmente não faria com muita gente, dado o atraso.
Como sempre, começou a fazer perguntas, verdadeiramente interessado no que se passava à sua volta e quando lhe falei da compra de terrenos em que estava envolvido por via de uma associação de conservação da natureza, sorriu da forma que sempre o caracterizou, com uma ligeira troça, e perguntou se não era mesmo para especular e explorar turisticamente.
Sempre o conheci assim, curioso, interessado e sem ponta de pretensões ou tiques de figura pública, respondendo-me a mim, um ex-aluno sem nenhuma relevância, ou à pessoa mais importante do mundo, com a mesma atitude.
Sabia que a notícia da sua morte provavelmente não demoraria muito mas, ainda assim, preferia que tivesse sido amanhã.
ResponderEliminarera sempre o mesmo problema, a manutenção comprometia frequentemente o projecto
Eu diria que, se esse problema surge, é porque o projeto era, efetivamente, mau.
De facto, um jardim bem planeado não deveria depender de uma manutenção muito especial.
Quando se planeia algo, deve ter-se em conta os custos e o trabalho que a manutenção desse algo acarretarão.
ResponderEliminarEu de Ribeiro Telles só tenho um episódio, que me deixou muito má impressão dele.
Estava eu juntamente com um amigo alemão a ouvi-lo a falar num debate e ele às tantas refere "uma agricultura de montanha, como por exemplo na Baviera". Eu entreolho-me e olho para o meu amigo alemão, que se entreolha ainda mais do que eu. Pois que, a agricultura da Baviera é tudo menos uma agricultura de montanha, a Baviera consiste na sua grande maior parte da planície aluvial do Danúbio e é por isso que tem uma agricultura sobremaneira pujante (porque os aluviões desse vale tornam o solo muito fértil). Em suma, Ribeiro Telles estava a dizer uma calinada das grandes.