quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Outra vez?

Ontem, por acaso, ouvi de raspão, e já ia a meio, um matemático com um discurso muito importante e urgente sobre como vinha aí o apocalipse.


Não é o único, no último mês ressurgiram os Buescus que há entre nós, os que projectam para o futuro tendências do presente, achando que assim descrevem o futuro, porque nunca leram Camões: "outra mudança faz de mor espanto: que não se muda já como soía".


Neste caso, dizia o matemático para a jornalista: as mortes estão a crescer 7% ao dia, veja os milhares de mortos que vamos ter continuando assim até ao Natal.


O matemático (não me lembro do nome, tenho ideia de Henrique Oliveira, mas não garanto) tem razão, progredindo ao ritmo do último mês (ou lá qual foi o período que escolheu para estabelecer a regra), no Natal temos mais de 1300 mortos por dia.


Nem o facto de não haver qualquer país no mundo com essa taxa de mortalidade demove o matemático de considerar essa hipótese como sendo séria.


Na verdade, ao fim de um mês de subida forte da actividade viral - que apanhou toda a gente de surpresa por ter sido muito temporã na época das doenças infecciosas respiratórias - o que se verifica na Europa, de forma generalizada, embora incipiente, é o que parece ser o início de um abrandamento no crescimento de infecções - comparar o número de casos de agora com os de Março/ Abril não tem qualquer base, dadas as diferenças de testagem, mas comparar os números de infecções desde meados do Verão até agora, tem alguma utilidade - embora ainda seja cedo para esse abrandamento se reflectir na mortalidade diária.


O que é relevante é que tirando algumas regiões, como a República Checa e, parcialmente, Portugal, em que a incidência da primeira época desta doença foi particularmente benigna, não há nenhum país em que a mortalidade desta segunda época esteja acima da primeira.


É cedo para conclusões, as coisas ainda vão evoluir, mas essa menor mortalidade da segunda época de actividade viral tem alguma lógica, quer porque as intervenções médicas beneficiam da experiência anterior, quer porque os mais susceptiveis são, de maneira geral, afectados mais rapidamente, quer ainda porque alguma imunidade que se vai construindo limita a velocidade de transmissão da infecção.


Nada disso elimina a hipótese de longos planaltos desta doença, ou de um comportamento de altos e baixos ao longo da época das doenças infeccioas respiratórias, com vários picos na mesma época, em vez de um só, mas para já, não há nenhuma razão para supôr que a actividade viral se vai manter a crescer ao mesmo ritmo do último mês.


Há muitos anos li um livro notável de Susanne Daveau "Répartition et rythme des précipitations au Portugal" em que apresentava quantidades de precipitação substancialmente diferentes das que o então Instituto de Meteorologia apresentava para o território português.


A diferença era metodológica: o então Instituto de Meteorologia apresentava distribuições calculadas por interpolação dos dados entre as diferentes estações e postos onde se media a chuva que caía, eliminando ou corrigindo valores discrepantes, como erros de medição (frequentes nessa altura, totalmente assente em registos mecânicos e manuais), Susanne Daveau resolveu olhar para os dados a partir do território, tentando compreender os dados discrepantes em função da posição geográfica do ponto de medição, a partir da interpretação do tempo que fazia nesses dias e dos elementos meteorológicos dominantes associados à chuva, fazendo a ligação entre território e meteorologia para estimar e refinar as interpolações.


E tinha razão.


Nisto estamos na mesma: há padrões de evolução geográfica dos surtos que a mim me parecem mais que evidentes, mas que são descartados com a ideia de que não é o vírus que comanda a epidemia mas os nossos comportamentos.


Com a maior das tranquilidades afirma-se que foi a abertura das escolas e a retoma da normalidade que deu origem aos surtos europeus actuais, com total desprezo pelo facto da abertura das escolas ter calendários bem diferentes em toda a Europa mas o início dos actuais surtos ser mais ou menos simultâneo em toda a Europa.


E pronto, lá temos outra vez os profetas da desgraça a advogar medidas sem qualquer demonstração de que sirvam para alguma coisa, parcialmente com base na ideia, errada, de que mal não faz, e parcialmente baseadas em previsões catastróficas que só não se verificarão se cada um de nós se tornar num apóstolo anti-epidemia.


Enquanto a actividade viral aumenta fortemente - como sempre tem acontecido com as doenças infecciosas respiratórias - insistem que ninguém está a cumprir as medidas e é preciso fiscalizar mais, punir mais, para obrigar toda a gente a cumprir.


Quando a realidade desmentir as suas previsões catastróficas, passam a afirmar, com a mesma convicção, que foi o comportamento das pessoas, o tal que por não existir era preciso garantir manu militarii, que derrotou o vírus e travou o surto.


Buescus há muitos.

6 comentários:

  1. Exactamente, e é assim, porque para além de operarem em modelos não ajustados convenientemente à realidade, alimentam-nos com informação de baixa qualidade seja pela arrogância não dar o "braço a torcer" ao que a história demonstrou estar errado, ou para não admitir um erro de julgamento e de políticas que neste momento, aos olhos do sistema, teria custos mais elevados do que o diferencial de vidas que podiam ser salvas e não o são ou serão, nunca é demais recordar que as mortes por covid representam entre 25% e 30% das mortes não expectáveis durante todo este periodo pandémico.....Decidamente isto não é um tempo onde o povo valorize estadistas e políticos integros sobre vendedores de "Banha de cobra".

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  2. Não posso esquecer os esquemas matemáticos propangueados na primeira onda e que apontavam para milhões de infectados no final do mês de Abril..Afinal, foram alguns milhares!

    Nota: O vírus não sabe matemática e os matemáticos sabem pouco de vírus! percebem?
    Capelaveiro!

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  3. Até pode ser que acerte... Agora que a 2ª Época Especial de Caça aos velhos e velhas - e aos que se atravessarem - está declarada, esperar menos que isso é triste...


    É matar ou ser morto. VIVA A DEMOCRACIA!

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  4. Acho que parte de um pressuposto errado para toda a narrativa. O matemático o que disse é que supondo uma média de 50 mortos por dia e um aumento de 7% ao dia, que chegariamos ao Natal com mais 1300 mortos. Acumulado. Não é por dia. Mas como são velhotes não é? Já era a sua hora. Os novos ficam assintomáticos não é? Daqui por uns anos se lhes arrebentar a assintomatologia em cima (espero bem que não) é que vai ser uma boa gaita. Entretanto estes atrasados mentais continuam a impossibilitar as "pessoas não-covid" de ir aos privados. Entretanto nas escolas e nos transportes não há transmissão, só na família... somos governados por génios. 

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  5. Henrique Silveira (dizem-me que é assim o nome, não confirmei) meteu os pés pelas mãos para explicar os números, mas se tivesse dito que com uma média de 50 mortes diárias e um aumento de 7% ao dia chegávamos ao Natal com 1300 acumulados, teria dito um enorme disparate puramente matemático (faça as contas).

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  6. Viva Henrique, o matemático é Henrique Oliveira. Estive s ver o que ele disse e olhe, não disse nem o que eu disse que ele disse nem o que o Henrique disse que ele disse. Falou que ainda vamos ter mais uns milhares de mortos. Não disse que era nem por dia nem por acumulado até ao Natal (se fosse acumulado, até com 50 por dia ultrapassamos em muito esse valor). Até me pareceu comedido e passou uma mensagem boa e sensata. Ter cuidado e paciência.

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Donas de casa

Aqui e ali (ler Patrícia Fernandes, no Observador, sobre este ou outros assuntos, quase sempre se lê com muito proveito) aparece a discussão...