segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Invasões

Como tinha uma reunião a caminho da qual poderia passar pelo talhão em que, voluntariamente, vou fazendo o meu braço de ferro com as mimosas, às sete da manhã lá estava a descascar acácias.


As espécies invasoras são um dos problemas mais dificeis de gerir em conservação da natureza ao ponto de haver um número cada vez maior de técnicos de conservação que acham que, uma vez estabelecidas populações viáveis de invasoras, suficientemente grandes, mais vale aceitar o facto e deixar de gastar de recursos no seu controlo.


Qualquer pessoa que conheça o problema da introdução de espécies invasoras em novas geografias sabe perfeitamente que é completamente idiota usar a mesma estratégia na fase de contenção - quando a presença da invasora é detectada precocemente, está geográficamente contida e uma acção determinada tem alguma probabilidade de sucesso na erradicação da espécie - e na fase de mitigação - quando a espécie está largamente disseminada e não há qualquer hipótese de ter recursos suficientes para a erradicar, passando apenas a falar-se do seu controlo ou da sua gestão.


No caso das várias acácias - são várias, na Mata da Machada, de que falo, são sete diferentes -, do chorão - não da árvore mas daquela planta rasteira carnuda e com uma flores belíssimas -, da háquea, do bico de lacre, dos papagaios de kramerii, do achegã, dos penachos, e muitas e muitas outras espécies, não faz sentido, nas nossas condições, falar de erradicação, mas apenas de controlo.


É raro haver vacinas para conter a expansão de invasoras, embora o trabalho notável de Hélia e Elizabete Marchante, usando elementos biológicos para bloquear a produção de sementes da acácia de espigas, se possa considerar como uma espécie de vacina.


Mas há tratamentos.


Claro que a coisa mais eficaz a fazer é evitar que se instalem novos focos de invasão: uma planta isolada, tanto quando possível, deve ser eliminada antes que tenha tempo para se instalar e reproduzir, dando origem a uma mancha nova de invasoras.


Mas essa é uma situação relativamente difícil de acontecer nos 9 milhões de hectares do país, onde todos os dias os processos naturais ocorrem, indiferentes às nossas opiniões sobre eles.


O mais provável é ninguém ligar nenhuma a uma invasão até que ela tenha uma dimensão que comece a ter efeitos negativos reconhecíveis.


É aí que há escolhas sobre os diferentes modelos possíveis.


O mais habitual é o modelo bruto de quem reconhece o problema mas não o estuda o suficiente para saber como lidar com cada uma das invasoras: gerir acácias não é o mesmo que gerir háqueas. O mais vulgar, nessas circunstâncias, até por ser o mais intuitivo, é procurar os meios para poder arrasar aquilo tudo, numa intervenção musculada, cara e com resultados espectaulares no curto prazo. O resultado, passadas as primeiras impressões, é desastroso e o efeito de boomerang agrava substancialmente o problema, sendo mais difícil controlar as invasoras e, entretanto, os recursos foram gastos.


No outro extremo estão os que acham que não vale a pena e encolhem os ombros. Menos mal, pelo menos não agravam o problema, mas a invasão vai-se expandindo lentamente.


Há ainda os que acham que todas as acções contam, por pequenas que sejam, e vão fazendo intervenções dispersas, às vezes bem feitas, quase sempre bem intencionadas, mas sem persistência, são "um vôo cego a nada": a árvore morre com um descasque bem feito, mas a invasão prossegue porque está lá todos os dias e nós só estamos em alguns dias, a fazer intervenções pontuais, sem continuidade.


O "tem de se fazer qualquer coisa, que aquilo não pode ficar assim" é dos maiores problemas da gestão de invasoras porque consome a maior parte dos recursos, incluindo o inestimável recurso que é a vontade de resolver o problema, consumido pela desilusão da falta de resultados.


As invasoras gerem-se com suavidade e persistência, com brutalidade e persistência, com astúcia e persistência, com boa vontade e persistência, com investigação e persistência, qualquer que seja a abordagem, a questão chave é a persistência.


Abandonar a guerra a meio é perdê-la, não há meias vitórias ou empates nesta matéria.


Pretender brutalmente submeter as invasoras à força dos recursos que temos é também perder a guerra.


A única hipótese de ter alguns resultados - não, não é erradicar, é apenas limitar o problema de maneira a que não cresça ao ponto de causar perdas irreparáveis de biodiversidade, de serviços de ecossistema, etc. - é ter a humildade de saber que só no longo prazo, com intervenções sistemáticas no mesmo sentido, que estejam dentro dos recursos disponíveis, se podem atingir objectivos previamente definidos.


Como disse no início, é por isso que no talhão pelo qual estou responsável, vou passando uma vez por outra, insistindo do pequeno para o grande, de fora para dentro, de montante para juzante, de forma a ir limitando a expansão, primeiro, e enfraquecendo a invasão, segundo e, com alguma sorte e persistência, limpar aquele triângulo de mimosas daqui a alguns anos.


Se por acaso algum leitor habitual, ao chegar aqui, respirou de alívio por, finalmente, eu escrever sobre outro tema que não a epidemia, tenho pena de desfazer a ilusão, mas é mesmo disso que estou a falar, também.

8 comentários:

  1. É para deixar as espécies invasoras descansar que os jardineiros fazem greve esta semana. 
    Vai ver que as suas mimosas se não estiverem confinadas, até saltam.

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  2. caro senhor
    É uma notável parábola esta que aqui nos deixa, sobre as ameaças e defesas contra a vida na terra: as espécies invasivas, pragas e pandemias, desde há milhões de anos que ameaçam as outras formas de vida.

    Cumprimentos


    Vasco Silveira

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  3. Eu também li aqui uma Alegoria sobre outras espécies invasoras que apesar de não poderem ser erradicadas de vez, podem ser contidas de forma a evitar a sua expansão, limitando-a, "de maneira a que não cresça ao ponto de causar perdas irreparáveis de biodiversidade". 
    Para conter a sua propagação, 3 passos necessários e eficazes:
       -  "limitar a expansão"
       -  "enfraquecer a invasão"
       -  "limpar" o triângulo por fim.
    Tudo feito com muita "astúcia e persistência", porque um bom "descasque" nem sempre evita a continuidade da propagação destas espécies invasoras.

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  4.  Sr Arq. Pereira dos Santos, se permite o atrevimento (a quem não percebe nada destes assuntos)


    título:            " Invasão das acácias (amarelas) e gestão da háquea sericea*  " sub-título:            " Paisagens Marginais"




    * Sendo apenas um arbusto, nada tem de inofensivo, pois o seu aspecto é muito espinhoso e muito compacto.
     É uma espécie invasora exótica introduzida no país, bastante deletéria, pois atrofia o desenvolvimento das árvores da floresta autóctone, podendo mesmo destruir espécies originárias.

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  5. Porque é que o Henrique descasca as acácias, o que lhe deve dar imenso trabalho e ser bem doloroso para as mãos, em vez de lhes entornar uma calda química apropriada em cima?
    Eu nalguns terrenos meus tenho acácias a invadir, e de vez em quando mando envenená-las.
    Também questiono o Henrique, de que grossura são as acácias que descasca? É que, as acácias que eu tenho são ainda fininhas, não percebo como se descasca uma árvore fina.

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  6. A propósito, o HPS sabe dos últimos nºs. da pandemia no Brasil? É que deixou de ser notícia praticamente e não encontro os dados mais atuais.

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  7. Descascar acácias é facílimo, quando estão em actividade fisiológica forte, com um canivete e umas luvas baratíssimas.
    No caso do projecto de que falei, baseado no voluntariado, o uso de fitofármacos é difícil porque implica capacitação para isso, que a generalidade dos voluntários (como eu) não têm.

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Gente desonesta

Sabendo de como é coisa complexa e eu sei pouco do assunto, não perdi muito tempo a ver os pormenores das alterações ao código do trabalho. ...