segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Feiras

Já aqui fiz um rasgado elogio a António Costa pela habilidade política que tem demonstrado em conseguir ir aproximando a gestão da epidemia da abordagem sueca (ou da declaração de Great Barrington, ou da epidemiologia clássica) , sem correr os riscos políticos associados, usando o valor simbólico das acções e a simpatia da imprensa por tudo o que António Costa faça.


É certo que não é nenhuma originalidade, praticamente essa tem sido a opção por toda a Europa, sendo as escolas o grande exemplo: toda a gente hoje as mantém abertas e apenas a primeira ministra norueguesa teve a decência de explicitamente reconhecer que o seu fecho tinha sido um erro.


Por mim, nada contra, prefiro uma boa cosmética que permita contrabandear uma política melhor a uma discussão estéril sobre quem tinha razão desde o tempo dos afonsinhos.


Há, no entanto, erros que podem resultar desta abordagem (o problema dos mentirosos é que é difícil uma pessoa lembrar-se da mesma história, com os mesmos pormenores, de cada vez que a conta), que minam a confiança nas instituições, e são reveladoras das opções de classe em que assenta a ideia de que a evolução da epidemia  depende de todos (quando a responsabilidade é de todos, sobra muito pouca para cada um, aqui).


A decisão sobre o encerramento das feiras de levante (vi uma discussão muito interessante entre intelectuais burgueses sobre a expressão "feiras de levante", interessante em si para mim, que gosto da discussão sobre a linguagem, mas muito mais interessante pela total ausência de referência aos injustiçados pela decisão) é um desses tropeções gigantes que nos ajudam a perceber como na base das decisões das autoridades estão os mundinhos da "casta" e não os mundinhos das pessoas comuns.


O que é acentuado pela forma como publicamente o assunto é tratado. Por exemplo, toda a crónica de hoje de Rui Tavares, um comentador burguês cuja lucidez e sagacidade política é lendária (confirmar aqui) é sobre o "processo de confinamento" e as questões de justiça social associadas à proibição de feiras estão totalmente ausentes desse texto que ocupa uma página inteira de jornal.


A decisão de fechar feiras de levante não tem o menor fundamento em questões técnicas: são ao ar livre, implicam menos riscos que fazer compras em espaços fechados, implicam contactos menos prolongados que em restaurantes, têm mais espaço de circulação que permite o distanciamento físico que os centros comerciais.


Há, no entanto, uma diferença fundamental entre as feiras e os espaços comerciais onde existem o mesmo tipo de actividades: os feirantes ou são pequenos produtores e comerciantes locais que vão vender umas couves, uns ovos ou uns queijos vegan (a sério, há queijos vegan, feitos a partir de caju, e até são óptimos, mesmo tendo de reconhecer que só os provei por conhecer bem quem faz os queijos muka), ou são comerciantes não organizados, frequentemente ciganos e bastante na margem económica (e às vezes social). São sítios a que a elite burguesa que pressiona a elite administrativa a tomar decisões sobre a gestão da epidemia vai pouco.


E por frequentarem pouco as feiras - e, provavelmente, as poucas vezes que as frequentam é nas feiras mais in, onde está mais gente, ou nas mais pitorescas, quando se vai ver a paisagem - não sabem o que na verdade significam para dezenas de famílias de mais baixo rendimento.


Como de costume, quando a burguesia se sente ameaçada, a atenção aos "deplorables" tende a desaparecer e tomam-se decisões idiotas como proibir as feiras de levante, ao mesmo tempo que as lojas, os supermercados, os centros comerciais estão todos abertos.


Depois queixem-se das votações nos populistas.

11 comentários:

  1. Eu costumo frequentar uma feira de rua, que ocorre às quintas e sextas feiras na avenida Duque de Ávila, em Lisboa, e também frequento a feira semanal de Águeda, aos sábados. E não tenho hesitação em afirmar que a feira de Águeda tem condições muitíssimo piores, com muito maior ajuntamento de pessoas, muito maior proximidade física e arejamento muito menor (devido aos amplos toldos dos feirantes). Não compreendo que vão impedir a feira de rua em Lisboa, sem que impeçam também a feira semanal em Águeda.

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  2. Completamente de acordo. Não faz sentido essa proibição. Quando vou a Portalegre costumo ir às feiras, não vejo que seja mais arriscado que ir a um super, onde não entro desde Março.0s feirantes vão sofrer bastante. 

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  3. Donde se conclui que os nossos governantes e aquela "burguesia" que conta não conhecem o povo, nem o seu país, nem nenhuma outra realidade que não seja o seu pequeno mundo donde nada se avista: Portugal é o Chiado! E o Chiado está cheio desses janotas e peralvilhos que nos governam, ociosos, ora palitando os dentes, ora de mãos nos bolsos e cheiro a perfume rasca.
    (Dizem-se a elite!!!)

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  4. A "Lógica da batata" até percebo. A lógica das medidas anunciadas por sua excelência, não.
    Então não posso receber em casa 5 amigos para ver a bola na TV e beber umas cervejas, mas podemos ir os 6 para um restaurante jantar e ver o jogo?
    Só se a ideia é de atenuar as falências na restauração.

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  5. o povo cheira mal e só serve para votar

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  6. Queixem-se das votações nos populistas e da descida nas sondagens. 

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  7. ir aproximando a gestão da epidemia da declaração de Great Barrigton



    Há uma coisa que está na declaração de Great Barrington e que falta introduzir em Portugal, que é, uma muito maior proteção dos idosos (e doentes crónicos). Atualmente, todas as restrições aplicam-se por igual a todas as pessoas, e isso é totalmente errado. As restrições e recomendações deveriam ser muito mais fortes para os idosos. Os idosos deveriam ser basicamente proibidos de comer em restaurantes (só poderiam recorrer a take-away), de frequentar lojas (deveriam recorrer a serviços de entrega em casa), e de se encontrar com familiares mais jovens (de ir buscar os netos à escola, etc). Tem que se tornar a proteção dos idosos verdadeiramente forte, ao mesmo tempo que se aligeira a proteção dos não-idosos.

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  8. Em suma, retirar todos os direitos aos idosos! Que fiquem no seu sítio, para não dar chatices. É para o " bem" deles. Você não defende os mais velhos, mas a sua guetizaçao. A população de utentes dos lares está sequestrada, não tendo na prática direitos constitucionais. Mas continua numa armadilha chamada " lares". Você quer estender essa perda de direitos aos que ainda conseguem ter uma vida autónoma. Triste.
    Catarina Silva

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  9. "Comam brioches diz o Antoinette Costa."

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  10. Pois é triste, mas é, em minha opinião, necessário.
    Pode-se fazer isto sob a forma de imposições, ou de recomendações, ou um misto das duas.
    A alternativa, que é a que temos atualmente, é tentar erradicar o vírus da sociedade. Já vimos que não funciona.
    Eu prefiro um regime em que 20% da população (os idosos) se encontra sob confinamento rigoroso mas os restantes 80% da população anda totalmente à vontade, a um regime em que toda a população anda sob medidas restitivas. Com a vantagem adicional de que o segundo regime já se sabe que não funciona, enquanto que o primeiro talvez funcione.

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Aqui e ali (ler Patrícia Fernandes, no Observador, sobre este ou outros assuntos, quase sempre se lê com muito proveito) aparece a discussão...