
Este boneco apareceu algures, no meio de uma discussão sobre a epidemia.
Ao que parece, a intenção de quem fez o boneco era demonstrar que eu sou um idiota e só digo coisas idiotas sobre a epidemia, destacando a frase assinalada, esquecendo o que a precede.
Não me interessa nada discutir se sou idiota ou não, dou isso de barato, o que me interessa é a ideia de que vale a pena ler a frase em causa sem ler o que a precede. Os gráficos apresentados no boneco são a demonstração do que é dito sobre a excepção à frase em causa, sendo discutível o rigor de caracterização que fiz das situações intermédias que se verificam em Portugal, referido por mim, Suíça e Áustria, que estão no boneco.
Já agora, para se ter a perspectiva sobre o que se está a passar na Europa no que diz respeito à mortalidade, o ideal é sempre olhar para o Euromomo, que assinala já alguma mortalidade excessiva, um pouco mais cedo que o habitual para as doenças pulmonares infecciosas, cuja comparação com o pico da primeira época da Covid é muito instrutiva.

Acho normal que se critique a falta de rigor, ou as asneiras que realmente escrevo, o que acho pouco útil é a ideia de que faz sentido ler uma frase fora do seu contexto para ilustrar o pensamento de terceiros, expressa pela pessoa que primeiro me chamou a atenção para este boneco, insistindo que eu estava a dizer coisas que de facto não disse: "“Acho que ainda não percebeu, que eu não tenho nenhuma intenção de manter conversa com esta gente. … Ser ignorante sobre os factos existentes não significa que exista "incerteza". Brincar com "incertezas" é o que fazem os negacionistas para criarem dúvidas na população. Ignorância ou negação não é incerteza. … A incerteza é sua, as dúvidas são suas, a ciência não tem que andar a responder às suas dúvidas quando tais dúvidas estão mais que respondidas.”
É esta maneira de olhar para a divergência "Brincar com "incertezas" é o que fazem os negacionistas (eu, no caso) para criarem dúvidas na população", típica de cabeças totalitárias, que é preocupante: o populismo não tem geração espontânea, nasce da vontade de queimar qualquer chão comum que possa existir entre pessoas diferentes.
É preciso criar um ponto de vista moralmente desqualificado - criar dúvidas na população durante uma epidemia, tendo como resultado favorecer a progressão do surto - atribuí-lo a terceiros que se juntam num rótulo - negacionistas - para fundamentar a opção de bloquear qualquer divergência e tornar impossível qualquer discussão civilizada.
Felizmente a vontade de "esmagar os negacionistas" raramente assume a forma ilustrada acima, não há assim tantos trogloditas, de maneira geral manifesta-se de forma mais civilizada.
Carlos Antunes é um matemático que trabalha no grupo de Manuel Carmo Gomes e faz umas análises interessantes sobre a evolução da epidemia (já agora, o último post que fez no facebook foi exactamente a dizer que há um conjunto de países em que já é observável um abrandamento do crescimento de novos casos), sendo absolutamente civilizado a responder às críticas, mesmo quando elas próprias são pouco civilizadas.
O que me deixa nervoso é sentir a falta de vontade de verdadeiramente discutir a realidade, confrontando as análises que faz com as críticas, que ilustro com um pequeno episódio.
Num post sobre a mortalidade excessiva (em que Carlos Antunes tem toda a razão em moderar a ideia de que toda a mortalidade excessiva não covid resulta de redução de cuidados de saúde prestados, o que está longe de ser verdade), Eduardo Rego, outro matemático, pede esclarecimentos sobre uma falácia da análise: “De qualquer modo, devo chamar a atenção que as suas estimativas assentam numa falácia: considerar que as mortes por covid saem fora do efeito do excesso por envelhecimento! Num modelo realista algum parâmetro deveria ser atribuído para o efeito de absorção pela covid da susceptibilidade devida ao envelhecimento. E o ideal seria então apresentar várias estimativas em função desse parâmetro. Já que, claro, o valor dessa absorção só no futuro poderá ser estimado com alguma realidade. Supôr que as vítimas de covid, que na sua larga maioria são (muito) idosos, sobreviveriam não fosse por ela, não contribuindo assim para o excesso de mortalidade "por envelhecimento", é uma simplificação incompreensível.”
O observação é clara, civilizadíssima e bastante certeira: a mortalidade covid não se soma inteiramente à mortalidade esperada, é de esperar, tendo em atenção o perfil da mortalidade covid, que grande parte dos que morrem com covid (sem entrar na discussão sobre como se regista essa morte, é notório que prefiro discutir isso a partir da mortalidade excessiva, e não a partir de classificações administrativas) tivessem uma baixa esperança de vida e não é absurdo admitir que dois terços das pessoas que morrem com covid morreriam de outra razão qualquer no prazo de um ano.
Gostaria de ser claro num ponto: é melhor morrer seis meses mais tarde que seis meses mais cedo, fazer a constatação anterior não traduz qualquer desvalorização dessas mortes, é apenas uma constatação para explicar por que razão tratar o conjunto de mortes covid e o conjunto de mortes esperadas como conjuntos disjuntos é "uma simplificação incompreensível".
O normal seria que, perante uma crítica clara, civilizada e bastante sustentada, Carlos Antunes procurasse fundamentar a opção que fez ou, concordando com a crítica, alterasse os pressupostos da sua análise.
Para meu espanto e desilusão, não foi nada disso que se passou: Carlos Antunes ignorou a crítica por várias vezes e quando à última insistência resolveu responder, chutou para canto, sem a menor intenção de aproximar a sua análise da realidade, incorporando a ideia de que grande parte da mortalidade covid diz respeito a pessoas cuja esperança de vida seria sempre baixa, tendo em atenção a sua condição de saúde, mesmo sem covid.
Esta falta de disponibilidade para verdadeiramente ouvir o outro faz-me confusão, mesmo muita confusão, quer do lado, maioritário, de que discordo, quer do lado, minoritário, de que estou mais próxima na interpretação da evolução da epidemia.
Aparentemente todos deveríamos ficar satisfeitos se o modelo sueco de abordagem da epidemia se revelasse comportável do ponto de vista sanitário, porque de outros pontos de vista é bastante melhor para todos, mas aparentemente há mais gente interessada em demonstrar que os suecos têm uma abordagem absurda da epidemia, para afirmar a correcção da alternativa, que em avaliar objectivamente o que correu bem e mal e possamos aproveitar para definir melhores políticas.
A dimensão da negação da possibilidade de um chão comum em que se movem pessoas diferentes é deprimente.
ResponderEliminaré melhor morrer seis meses mais tarde que seis meses mais cedo
Depende. Para pessoas como o Henrique, eu e os leitores, que estamos mais ou menos saudáveis, isso é verdade. Para uma pessoa de 80 anos, muito debilitada e doente e dependente, e que já nada de novo espera da vida, pode não ser.
O meu pai morreu com 83 anos de idade. Apesar de não estar propriamente doente quatro meses antes, sabia que a única coisa que lhe faltava na vida era morrer, e que morreria em breve. A morte foi-lhe fisicamente custosa mas, psiquicamente, creio que não.
Estou em crer que, para muitos dos mortos covid, a morte não foi psiquicamente custosa, terá até sido uma libertação.
ResponderEliminara negação da possibilidade de um chão comum em que se movem pessoas diferentes é deprimente
Não há chão comum. Há pontos de vista radicalmente diferentes.
Para um socialista, que são a maior parte das pessoas, a epidemia só pode ser tratada como um esforço comum, partilhado, de todos. O mal é de todos e tem que ser combatido por todos. Os mortos são encarados como danos sociais. Quem não contribui para o combate é apodado de "egoísta".
Um liberal está habituado à ideia de que cada pessoa tem um trajeto diferente, um mal diferente, e um sofrimento pessoal. O prejuízo de uma epidemia não deve necessariamente partilhado por toda a sociedade, sendo admissível que fique limitado às pessoas que são atingidas ou atingíveis pela doença. Se uma pessoa que é suscetível à doença exige que outrém, que não o é, a ajude a combatê-la, e seja seriamente prejudicada pelo combate, então é essa pessoa que está a ser egoísta.
Eu acho que António Costa, que é um homem inteligente, percebeu muito bem a diferença e exprimiu muito bem a sua opção, no princípio da epidemia, quando disse que, na visão dele, o combate a ela deveria ser partilhado por todos, que todos deveriam contribuir (e, portanto, sofrer) para esse combate.
Eu só gostava que alguém me explicasse o significado de negacionista.
ResponderEliminarNegacionista será negar a perigosidade de um vírus que provoca o mesmo número de mortos que o vírus da gripe, ou negacionista será negar que houve um excesso de 7000 mortes não covid?
Negacionista será negar que o número de mortes que se querem evitar no presente não justificam o número de mortes que vão acontecer no futuro por causa do colapso da economia?
o lavoura gosta muito de escrever
ResponderEliminarEstimado Prof/Arq HPSantos
ResponderEliminarAcompanho sempre com interesse os seus comentários a posições dos "cientistas" que o governo ouve. Desde o início, considero que confundem ciência com posições unanimistas em torno do "catastrofismo", sem querem ver que se a Suécia deixou que se chegasse à imunidade de grupo ela tinha orbitariamente ser considerada "grupo controlo" face a outros como nós, enquanto "grupo experimental". Se querem fazer "ciência" à sua maneira, deixemo-los a encher os "chouriços" que lhes convém encher.
Continue, pois, enquanto a censura não chegar!
Somos certamente muitos que o acompanham na apreciação dos factos, gostem ou não.
Quanto ao alarmismos, junto o nome de um bloger (Yinon Weiss) que aponta um instituto americano que previa para a Suécia a retoma da mortalidade se persistisse no seu caminho "suicidário": 20 mortos/dia desde o início de outubro (essa profecia já lá vai) e 180 a partir do início de dez. Veremos se terão aa hombridade de dar a mão à palmatória ou se reportam a situação para nova previsão.
Obrigado
A Lopes.
ResponderEliminarUm excelente texto e uma reflexão muito a propósito. Vai gostar.
Texto integral aqui:
https://observador.pt/opiniao/ratos/
Na verdade temos até mais alguns grupos de controlo, ou pelo menos experimentais. Avanço estes doiis exemplos notáveis que deviam ser comparados lado a lado juntamente com a Suécia para ajudar os restantes países a encontrarem o seu caminho.
ResponderEliminar1) Temos o caso extremo da Nova Zelândia que positivamente fechou a fronteira ao resto do mundo e meteu-se numa bolha, numa redoma. E conseguiram até agora manter-se protegidos do vírus, nem sequer precisaram de recorrer a confinamentos excessivos. Maravilhoso não é? Só que agora estão condenados a ficarem de fronteiras cerradas para sempre... caso contrário deitam tudo a perder... Logicamente, é uma questão de tempo até o bichinho lá entrar, e estamos cá para ver.
2) O segundo caso é talvez mais relevante, para nós e para comparar com a Suécia (até porque a Nova Zelândia é uma ilha no fim do mundo). Trata-se da República Checa, tal como Portugal e Suécia, com 10M de habitantes (coincidência feliz). Ora bem, em sentido oposto da Suécia, este foi o país da Europa que confinou de forma mais brutal e mais cedo, onde as máscaras foram tornadas obrigatórias logo em Março!!! Um país que conseguiu atravessar toda a Primavera e verão praticamente sem casos, foram sempre um dos exemplos preferidos para mostrar como se derrota este vírus. Mantiveram o confinamento e as mordaças, e agora vão ver como estão eles agora?!!! Estão com uma mortalidade diária muito acima dos piores números apresentados pela Suécia no pico da epidemia deles e com o andamento actual irão mesmo ultrapassar os valores globais dos suecos em menos de 2 semanas. Isto é obra! E porque ninguém faz as perguntas óbvias? De que serviu o confinamento e as mordaças na República Checa? Não serviu para nada!!!
Quem ignora teimosamente os dados empíricos, com forte sustentação científica, refugiando-se atrás de uma histeria colectiva e politicamente correcta é quem, na minha modesta opinião, são os verdadeiros negacionistas.
Penso eu de que...
O autor do boneco e filho de uma secretária de estado. Não é queimar chão Henrique, é sobrevivência familiar.
ResponderEliminarApenas uma nota: pode também colocar-se a Estónia a par da Suécia, uma vez que lá nunca se impuseram confinamentos e uso de máscaras, com resultados semelhantes aos da Suécia.
ResponderEliminarOlá Henrique
ResponderEliminarA figura, ou o boneco, como lhe chama, talvez tenha aparecido apenas porque se trata de mais um bom filme de Matteo Garrone, mais uma vez excelentemente interpretado por Roberto Benigni. A existência de qualquer outra relação poderá ou não existir, atendendo ao tema, não posso manifestar-me, por desconhecimento. Mas talvez o Henrique possa...
PS: caso apareça como anónimo, apenas se deve à minha inexperiência nesta "cena" de comentários, não é intencional
ResponderEliminarMas qual é o especial PROBLEMA de a Suécia ter 6000 mortes por pneumonia?!
É praticamente o mesmo número de mortos por pneumonia que temos em PORTRÓIKAL.
https://i.postimg.cc/QMmKfhqc/pneumonia-N-vs-Esp-2012-2018-en-06-Nov.png
E que eu saiba NUNCA ninguém se importou com este FACTO!
Negacionista: conceito/ideologia? muito mais amplo ao que se refere ao vírus. Veja o QANON e perceberá a dimensão, cada vez mais alargada, que os movimentos negacionistas estão a ter, desde a anti-vacinação, ao terraplanismo, entre outras. Poderá ficar surpreendido.
ResponderEliminarEspero que o Henrique continue a argumentar deste jeito, porque é uma lufada de ar fresco.
ResponderEliminarMuito do que se passa no controlo político da pandemia deveria ter uma história crítica, para informação de todos. Por exemplo, a percentagem de mortalidade atribuída a doentes já internados previamente ou em cuidados intensivos? A maioria recupera na totalidade? Há tantas perguntas...e em vez de as fazermos, confinamos em horários em que o vírus deve estar a dormir, ou não sai para ir trabalhar.
Bem haja.