segunda-feira, 2 de novembro de 2020

"Abandonai toda a esperança"

"O ministro do Ensino Superior não teve sintomas da Covid-19 e acredita que foi contagiado em refeições, quando não tinha máscara."


Ao fim de oito ou nove meses de informação constante sobre a epidemia o Ministro do Ensino Superior, não é o Zé das Iscas, é mesmo um ministro, e não é um ministro qualquer, para este efeito, é o Ministro do Ensino Superior, o que tutela a ciência, que, aparentemente, não sabe que a sua probabilidade de ser contaminado não diminui com o uso de máscaras cirúrgicas, como as que tem usado.


A tese sobre o uso generalizado de máscaras assenta na ideia de que com uma máscara projectamos menos as partículas que vão com o ar que expelimos, e o seu efeito potencial é reduzir o contágio de terceiros por essa via, é claríssimo que as máscaras cirúrgicas não protegem o seu utilizador.


É certo que ouvindo a entrevista, não nos ficando por esta frase espantosa escolhida pelos jornalistas, as afirmações de Manuel Heitor são menos lineares, ao falar das refeições em que estavam todos sem máscara, mas em lado nenhum se percebe, com clareza, a distinção entre a protecção própria (que só é assegurada por outro tipo de máscaras) e a protecção de terceiros que se pretende obter com o uso de máscaras cirúrgicas ou sociais.


O facto é que se o momento de contágio resultasse das tais refeições em que todos estavam sem máscara, com certeza seria possível saber em que seria a pessoa em frente de Manuel Heitor, ou muito próxima, que o teria contagiado, o que manifestamente não foi possível estabelecer.


Esta é talvez uma das mais evidente demonstrações de como o nome da ciência tem sido usado em vão na gestão desta epidemia: um ministro da ciência a fazer afirmações com a validade do zé das iscas para justificar com a ciência o que é uma opção de gestão sem qualquer relação com a ciência estabelecida.


Para já não falar da dificuldade em passar informação básica a pessoas qualificadas - que as máscaras que usamos não são para protecção própria mas para protecção de terceiros - quer ao ministro da ciência, quer aos dois jornalistas (conheço profissionalmente os dois e gosto deles, acho-os bons jornalistas) que perdem a oportunidade de fazer notar ao ministro da ciência que a sua explicação não tem qualquer base científica, provavelmente, porque também não têm absolutamente presente que estas máscaras não protegem o próprio.

7 comentários:

  1. Às vezes é preferível ficar calado e passar por ignorante do que abrir a boca e mostrar que é mesmo.
    Já se disse tanta coisa e o seu contrário que por vezes tenho a sensação que estamos num concurso internacional para ver quem tem a ideia mais parva.

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  2. Independentemente de saber se as máscaras são úteis ou não, parece-me que a frase do ministro do Ensino Superior tem razão e é útil, porque ela chama a atenção para o perigo das refeições. Passo a vida a ver pessoas a comer conjuntamente com outras, sentadas muito perto umas das outras, frente a frente ou ao lado, sem máscara e de boca bem aberta, a falar e a comer. Parece-me que as pessoas que passam o tempo todo a praticar o distanciamento social e a usar máscara, quando chega a hora das refeições abandonam todo o cuidado e põem-se a confraternizar como no antigo normal.

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  3. As pessoas, enquanto comem em grupo, deviam seguir as recomendações daquela sra. da DGS e virarem-se todas para a frente como nos aviões. E também deviam tentar falar e comer evitando abrir a boca. As refeições hoje são mesmo um perigo, Balio!

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  4. Lá se são um perigo ou não, não sei, mas parecem sê-lo.
    Eu não digo que as pessoas devam comer sem abrir a boca. Digo que as pessoas deveriam comer sozinhas, ou pelo menos afastadas umas das outras os dois metros da praxe. É disparatado que as pessoas passem o tempo todo preocupadas em manter o distanciamento umas das outras, mas uma vez chegada a hora do almoço se ponham a comer todas muito perto umas das outras.

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  5. Senhor, ao evitar que projectemos com tanta energia as partículas que expelimos, as máscaras cirúrgicas retardam a propagação do vírus - não eliminam a propagação. Nem é suposto que o façam. É assim tão díficil de entender? Numa sala fechada e sem arejamento o vírus vai-se espalhando por causa da micro-turbulência do ar. Quanto mais tempo as pessoas permacerem lá fechadas maior é a probabilidade de serem contaminadas .


    Assim, as máscaras diminuem a probabilidade de propagação (e nesse sentido protegem toda a gente) mas apenas e somente se no seu comportamento as pessoas tomarem em conta as suas propriedades e limitações. O mundo não é a preto e branco.

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  6. O salafrário é "doutorado" pelo Imperial College... Está TUDO explicado!

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  7. Sobre as máscaras já pouco resta a falar... Se eles nem nos guias para boçais da Faculdade de Medicina acreditam!


    https://i.postimg.cc/Njmx08Hd/mascaras-Fac-Medina-IMM.png

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Donas de casa

Aqui e ali (ler Patrícia Fernandes, no Observador, sobre este ou outros assuntos, quase sempre se lê com muito proveito) aparece a discussão...