quarta-feira, 4 de novembro de 2020

A negação do outro

Rui Tavares tem hoje, no Público, uma crónica que vale a pena ler.


Não tanto pela qualidade literária que, apesar das pretensões, parece tirada da Corin Tellado, não pela lucidez política, que está no nível habitual de Rui Tavares, mas pela forma como involuntariamente retrata o mainstream bem pensante que mora nos jornais.


Para praticamente toda a esquerda - incluindo a que faz parte do PSD - e boa parte da direita moralmente robusta, na sua própria opinião, claro, Trump pode ser equiparado a um qualquer ditador, e a democracia segregacionista do Sul dos Estados Unidos ao nazismo, sem que isso atrapalhe muito a argumentação.


Até aqui isto é o trivial e a crónica não vale por repetir a banalidade da caracterização maniqueísta de Trump.


Onde a crónica é verdadeiramente reveladora - é raro este aspecto ser tão explícito, de maneira geral existe, mas é implícito - é no sectarismo que divide as pessoas entre o nós, que nos preocupamos, que somos vítimas, que sabemos o que é bom para todos, que nos empenhamos num mundo melhor, e os outros, os que votam Trump.


A crónica, pretendendo ser sobre as pessoas comuns, exclui os que votam em Trump, que só aparecem como uma caricatura: um grupo de homens brancos amantes da violência gratuita sobre pessoas inocentes.


Não há uma linha sobre as razões dos que votam Trump, como se Trump tivesse poderes especiais de manipulação do mundo que lhe permitissem ter milhões de votos provenientes de ninguém.


Não há uma linha sobre o que faz tanta gente decente votar num candidato com as características de Trump.


Não há uma linha de empatia em relação aos medos, às convicções, às inquietações que levam ao voto em Trump.


Nada disso interessa às elites bem pensantes que, na sua própria opinião, sabem muito bem como deve ser governado o mundo e estão convencidas de que, com um mínimo de inteligência, bom senso e conhecimento, qualquer pessoa pensa da mesma maneira que eles.


No fundo é gente que jamais deixará que os factos influenciem as suas ideias e que ficará sempre espantada - e ressentida - de cada vez que os deplorables lhes resolvam negar o poder para o entregar a pessoas que essa elite considera totalmente desqualificadas.


A humildade é uma coisa duplamente difícil, não só reconhecer que somos pó e em pó nos havemos de tornar é difícil, como é ainda mais dificil ter a humildade necessária para reconhecer a necessidade da humildade concreta em cada dia e em cada momento.


Ou, dito de outra forma, é precisa muita humildade para reconhecer no outro uma possibilidade de superioridade para cujo reconhecimento nos falta inteligência e capacidade.


Tal como a Rui Tavares, a mim Trump não me interessa nada, o que me choca nesta crónica é ver que os milhões de pessoas que, pelas mais variadas razões, votam em Trump, valem tanto para Rui Tavares (enquanto símbolo da elite que nos governa) que na verdade lhe são completamente invisíveis.

12 comentários:

  1. O Rui Tavares que vá ver as reportagens da RTP sobre emigrantes portugueses a viver em Newark e se espante ao constatar que votam Trump 

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  2. vivi e passei férias durante 60 anos na zona do pinhal
    deitavam balões e foguetes no verão
    sabe-me dizer porque razão só começou a arder depois de 25.iv ?

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  3. Embora não seja verdade que só tenha começado a arder depois do 25 de Abril (leia a Comarca de Arganil, que tem os números do jornal on line, no Verão de 61, 62 ou 63, não me lembro) é verdade que houve uma alteração do padrão de fogo: onde antes ardia mais vezes, mas de forma descontínua e pouco intensa, passou a arder menos vezes mas de forma mais contínua e intensa.
    Isso deve-se ao facto da lenha ter sido substituída pelo gaz e electricidade para aquecimento e cozinha, os estrumes serem substituídos por adubos industriais e porque o pastoreio e resinagem desapareceram, levando à acumulação de material florestal fino, que é o que comanda os fogos.

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  4. E repare que Rui Tavares é historiador. Exigia-se-lhe objectividade e poder de análise com imparcialidade. Em princípio, pela sua formação académica, até deveria ser desafiante para ele, observar e estudar as causas desses acontecimentos de forma cientifíca para tentar compreender o fenómeno.
    Mas se não consegue esse distanciamento, pobre "historiador" ... que nem cronista será.

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  5. desculpe mas 1% não é a totalidade.
    até se faziam queimadas.

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  6. vê-se que não viveu na zona.
    a história do gás é 'conversa para boi dormir'

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  7. Em primeiro lugar, não é por ser mal criado que tem mais razão.
    Em segundo, não faz a menor ideia de onde vivi ou deixei de viver.
    Em terceiro lugar o facto de nunca ter vivido na China não me impede de saber que há chineses.
    Em quarto lugar não percebo o interesse de contestar a ideia de que as pessoas cozinhavam e se aqueciam com lenha e passaram a cozinhar em fogões a gás.
    Em quinto lugar, mesmo que tivesse razão e toda a gente continuasse a cozinhar e aquecer-se a lenha na região, ainda faltava explicar o efeito da diminuição do pastoreio da resinagem e da utilização de estrumes.
    Resumindo, qual é o interesse do seu comentário, em especial feito de uma forma deselegante e mal educada?
    O que pretende?

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  8. Depois do circo no Livre, nada do que venha dali me pode espantar.  Mas já me espanta e muito como lhe dão tanto palco e é tão levado ao colo pela CS. Mistérios insondáveis. Porque sempre achei muito fraquinho este Rui Tavares.

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  9. Há uns anos dei com um vídeo (desses do youtube) e tive curiosidade, porque era um debate entre o Fernando Rosas e o José Hermano Saraiva sobre o Salazar. Bom, viu-se a diferença abissal entre ambos. FR carregado de ódio e de ideologia, absolutamente parcial. JHS revelou-se objectivo, fez críticas no que considerou criticável no regime (de que fez parte) conseguindo fazer um julgamento justo. Foi de facto "o" Historiador e o estudioso que faz  análise.  Deu uma lição ao outro, que se limitou a ser simplesmente um político comprometido ideologicamente que transmitiu uma análise muito "engagée".

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  10. Pois... Os deploráveis brancos e pobres da Flórida votam Trump.
    As razões pelas quais tantos votam Trump estão no artigo da Julie Machado no Observador. Há os que renegam a América e os que se orgulham dela. 
    A questão não tem tanto a ver com Trump mas com o extremismo a que se colou o partido Democrata.  Eu, se votasse nos EUA, provavelmente votaria Trump.  E não sou homem branco e violento... ;-)

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  11. Acho o contrário, o extremismo é que se aninhou, com sofisma, no partido Democrata. Este partido está a servir de hospedeiro aos movimentos radicais que vão laborando na sombra, e agindo dissimuladamente, traiçoeiramente
     por detrás da figura de Biden cuja moderação usam e aproveitam a seu favor, porque  vai servindo de engodo para atrair "pesca".  ( E, como em quase tudo, não há almoços grátis...)
    Pacientemente aguardam que estejam reunidas as condições que lhes sejam propícias. Um artigo impressionante de Paulo Tunhas, em Junho, no Observador dá- nos a dimensão da revolução que está a ser preparada na sociedade americana, pelo que, se me permite, HPS, aconselho a sua leitura :


    https://observador.pt/opiniao/da-universidade-para-o-mundo/



    E tudo, parece, está a ser feito eficazmente, de um modo que faz lembrar o processo de nidificação dos cucos.



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  12. Um "historiador" que faz   " m i l i t â n c i a ", como parece ser o caso, não pode fazer um juízo isento da História. 
    Um Historiador (ou um Sociólogo, por ex.) estuda(m) as causas, descreve(m) os contextos dos factos históricos/sociais, mas nunca deve(m) fazer julgamentos morais, sob pena de se deixar(em) levar pela sua visão pessoal do mundo, pelas suas crenças particulares e subjectivas e, muito menos, devem deixar-se  cegar pelos seus compromissos ideológicos e políticos.

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Donas de casa

Aqui e ali (ler Patrícia Fernandes, no Observador, sobre este ou outros assuntos, quase sempre se lê com muito proveito) aparece a discussão...