sábado, 14 de novembro de 2020

A experiência social

Uma amiga que não conheço (estranho mundo este) recusou-se a aceitar a classificação de "experiência social" que usei para falar da gestão da epidemia.


Argumentou que as pessoas que tomam decisões, e as que apoiam tecnicamente quem toma decisões, simplesmente chegaram à conclusão de que não havia alternativa a estas opções de gestão da epidemia, mas não pretendem fazer experiência social nenhuma.


O que pretende quem toma decisões, e quem apoia tecnicamente quem toma decisões, e quem apoia socialmente quem toma decisões, é matéria em que não me meto: o mundo é grande e diverso e com certeza há muitas intenções diferentes dentro dos três grupos que referi acima.


Centremo-nos no que é objectivo.


Que é uma experiência social o que estamos a viver, não vejo como negar.


Nunca, em nenhuma altura da história, se pretendeu esmagar um vírus, ou manter a pressão na mola, para manter o elevado nível do discurso oficial sobre o assunto, através da supressão dos contactos entre pessoas saudáveis.


Isso é uma novidade absoluta e, forçosamente, uma experiência social que consiste em formatar todos os contactos sociais de uma espécie gregária, e com estruturas sociais complexas, em função do objectivo único de bloquear a actividade de um vírus.


Pode argumentar-se que não há alternativa a esta opção para bloquear um vírus que nos ameaça.


Este pressuposto exige respostas a duas questões centrais "sine qua non":


1) A ameaça é de tal ordem que justifique os efeitos negativos associados a essa opção?


2) Mesmo que o seja, esta opção é exequível e gera o resultado previsto?


Deveria ser na resposta a estas duas questões que deveria entrar a ciência ou, pelo menos, o tal apoio técnico à decisão, deixando a decisão, que é forçosamente social e política, a quem tem legitimidade para definir "o bem comum": os nossos representantes, não os técnicos.


A ciência, ou tecnicidade, por trás das respostas que têm sido dadas a estas duas perguntas é, infelizmente, nenhuma.


A resposta à primeira pergunta, insuflada e validada pela Organização Mundial de Saúde, não se tem baseado em mais que modelação matemática cuja adesão à realidade é, para ser delicado, questionável.


A resposta ao escrutínio sobre a imensa distância entre os resultados dos modelos e a verificação da realidade é a de que as medidas adoptadas para controlar a epidemia têm sido muito eficazes, ao ponto de reduzirem a incidência da infecção entre dez a vinte vezes (é essa a diferença que se verifica entre os resultados dos modelos e a realidade).


Só que essa resposta tem um problema central: ninguém, até agora, demonstrou com a dados da experiência dos últimos oito meses, de forma clara, de que forma essas medidas conseguiram esse resultado, e como se explicam diferenças brutais de incidência em localidades sujeitas às mesmas medidas, nem como se explicam semelhanças estruturais das curvas de evolução da epidemia por regiões, independentemente das medidas diferentes em cada local. A resposta a estas objecções tem assentado, de novo, em modelação matemática que tem como pressuposto o que se pretendia demonstrar: o efeito das medidas.


Para além de, naturalmente, estar a ser difícil explicar a simultaneidade, geográfica e temporal, das variações da curva da epidemia, ao arrepio dos resultados das tais modelações matemáticas (são os modelos que têm vindo a seguir a realidade em vez de cumprirem a sua única função útil, que é prevê-la).


A resposta à segunda questão, a da exequibilidade da aplicação da solução adoptada - bloquear a actividade víral pela supressão dos contactos sociais - é a de que, salvo condições muito estritas, como na Nova Zelândia, o facto é que tem sido impossível reduzir os contactos abaixo de níveis considerados eficazes, com a agravante de que as tentativas para o conseguir estarem a fazer crescer exponencialmente (posso usar também aqui o peso desta palavra, mesmo quando na realidade não quer dizer grande coisa, podemos estar a falar de exponenciais mais ou menos preocupantes?) os efeitos sociais negativos que lhes estão associados.


É aqui que voltamos à tenebrosa experiência social em que estamos metidos para fazer notar o seguinte:


a opção entre bloquear a actividade viral por supressão dos contactos sociais, ou adoptar o modelo de protecção focada nos vulneráveis que conhecemos da epidemiologia clássica (não há como coisas destas para revelar os vultos intelectuais mundiais que se escondem em Portugal, como é o caso do pneumologista Filipe Froes, durante tantos anos ignorado pela inteligentzia mundial da epidemiologia, que agora pode finalmente reduzir os regentes de epidemiologia de Oxford, Harvard e Stanford à sua real condição de três médicos, nada mais que isso), é uma opção social e política com muito pouca relação com questões médicas.


Somos nós, os nossos jornais (extraordinária a peça de hoje do Público em que Maria João Guimarães aplica as técnicas de jornalismo mais sofisticadas como citar os relatórios do ECDC europeu a partir do Guardian, e não do original, para zurzir na Suécia), os nossos técnicos de saúde, a nossa Direcção Geral de Saúde (aproveito para explicar por que razão critico tão pouco Graça Freitas, penso que é uma vítima da epidemia, e não mais que isso), os nossos políticos (ontem era o Vice-Presidente do PSD a querer já que evitássemos a onda de Março/ Abril, que esta em que estamos já está a borregar) que decidimos, em conjunto, atirar cem anos de epidemiologia pela janela, trocando-a por uma bruxaria moderna que substitui bolas de cristal por ecrans de computador.


Há muitos cientistas envolvidos nisto, isso é certo, mas ciência, muito pouca.

14 comentários:

  1. Muitos parabéns. Não está sozinha. Subscrevo. Cumprimentos

    ResponderEliminar
  2. 1. Chiça... amigos que não conheço?
    3. Isto é somente política, para não escrever m///
    Estimado HPS, tenha a calma de entender que 'isto' só se resolve com mortes.
    Como sempre, morrerá o justo pelo pecador. Não sendo um justo, não tenho medo de morrer.

    ResponderEliminar

  3. Mais grave ainda: está a escola a fomentar uma sociedade de delatores que deverão "chibar" os seus colegas por não cumprirem real ou imagináriamente os preceitos desta charada ou ritual de obediência.
    É isto o que queremos ensinar às crianças ? Amordaçar a individualidade // esconder a face e praticar a delação ?
    "De pequenino se torce o pepino"
    Não são só os velhos, também as crianças são vítimas, e não vejo ninguém em sua defesa.

    ResponderEliminar
  4. Caro anónimo, o pêndulo da democracia representativa à lá americana já pendeu tudo o que tinha a pender para o lado americano. Agora que é a China a potência em ascensão, vai estar na moda a democracia musculada, à lá chinesa...

    ResponderEliminar
  5. E perceber a situação em que a pandemia colocou o mundo, assim como o conhecimento que existe sobre o que a provoca, consegue?

    ResponderEliminar
  6. "


    Restringir contactos entre pessoas, incluindo as saudáveis, sempre foi a ferramenta usada para combater epidemias. Em muitos casos era a única ferramenta de que se dispunha.

    ResponderEliminar
  7. E os argumentos, ficam para o próximo comentário?

    ResponderEliminar
  8. Percebe-se a diferença entre liquidar a actividade viral por supressão dos contactos e restringir contactos como mecanismo de auto-defesa, ou não?

    ResponderEliminar
  9. Fico feliz por ver que algumas pessoas questionam a narrativa única.
    Tomam-se por essenciais medidas que nunca antes foram aplicadas, e cuja eficiência à escala duma população inteira nunca foi estudada. Dão-se como factos que estas medidas resultam e qualquer outra coisa levará à desgraça total. E não há a mais pequena margem para discussão. Como se vê, aliás, nos comentários deste post... Questionar dá direito a ser insultado.

    ResponderEliminar
  10. O melhor argumento é saber da existência de pessoas sem qualquer morbilidade entre os 20 e 40 anos nos cuidados intensivos, que os podem receber por pouco mais tempo porque estão no limite da sua capacidade.
    Outro argumento são as pessoas pelas quais a doença passou sem sintomas, que ficaram bem, ou pelo menos assim pensam, porque ao fim de algum tempo começam a aparecer mazelas da passagem da doença.


    Tal como disse, 

    ResponderEliminar
  11. Muito obrigado por finalmente ter acedido a trocar os insultos por argumentos.
    Resumindo, eu sou palerma e idiota porque:
    1) há umas quantas pessoas entre os 20 e 40 anos nos cuidados intensivos, sem que diga quantas são e quantas representam em percentagem das pessoas dessas idades que passam pelos cuidados intensivos por outras razões;
    2) e porque uma diz que há sequelas de uma doença que passou sem gerar sintomas, sem apresentar qualquer dado concreto que permita dizer que isso é verdade e qual a percentagem de pessoas do mundo em que tal aconteceu, incluindo a percentagem de pessoas a quem isso acontece por outras razões.
    Boa demonstração da racionalidade do uso do insulto: há falta de argumentos sérios, é mais seguro o insulto.

    ResponderEliminar
  12. <p class="p3" style="font-stretch: normal; font-size: 17px; line-height: normal; min-height: 20.3px

    ResponderEliminar

Gente desonesta

Sabendo de como é coisa complexa e eu sei pouco do assunto, não perdi muito tempo a ver os pormenores das alterações ao código do trabalho. ...