segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Mexia, Ricardo

Ricardo Mexia é um funcionário do Instituto Ricardo Jorge envolvido na definição da estratégia de gestão da epidemia.


Ao mesmo tempo, sem sentir que haja qualquer conflito de interesses, é ubíquo no espaço público como uma voz independente que, como presidente da Associação dos Médicos de Saúde Pública, comenta frequentemente a evolução da epidemia e a gestão da epidemia que, enquanto funcionário do Instituto Ricardo Jorge, ajuda a formatar.


Hoje, no Público, volta a repetir a mesma ideia que repete incessantemente há seis meses: é preciso quebrar as cadeias de contágio e isso faz-se com os médicos de saúde pública a fazer "o controlo da situação".


Diz que ou a capacidade de resposta do SNS é reforçada, em termos de recursos humanos e do sistema de informação, ou o confinamento é inevitável. "Não podemos não fazer nada e esperar que o desfecho não seja esse ... os casos vão continuar a avolumar-se e a capacidade do SNS não é inesgotável".


Fico muito satisfeito em ver confirmado o que um dia destes escrevi: com o aumento de casos, a política de testes e seguimento adoptada tenderá a falir por falta de meios. Penso que haverá um largo consenso nesta ideia e não vale a perder muito tempo com esta platitude.


O que gostaria de ver explicado é como é que estando os médicos de saúde pública a controlar a situação há meses, de repente perderam o controlo da situação, deixando as cadeias de contágio multiplicar-se.


Vamos esquecer a história das bodas, banquetes e baptizados (ou qualquer uma das muitas explicações que têm sido apresentadas para que a situação não esteja, de facto, controlada), com certeza o ajuntamento de pessoas em ambientes desses geram alguns contágios, e isso deve ser tido em atenção pelos mais vulneráveis e respectivos contactos próximos, mas é ridículo pretender que representam uma origem de contágios mais relevante que a coabitação.


Podemos concentrarmo-nos numa questão clássica de gestão: quando se altera a evolução temporal de um KPI, como agora se chamam os factores chave dos processos, o relevante é perceber que factor esteve na origem dessa alteração.


Um gestor tenderá a pôr duas hipóteses sobre a mesa: ou há uma explicação convincente para essa alteração, e é preciso ir testar essa hipótese, para depois actuar sobre esse factor base, ou o que se julgava ser um KPI do processo não cumpre bem a função, dando informação errada que leva a decisões de gestão erradas.


O facto é que o número de testes positivos se tem alterado de forma relevante, não só em Portugal como em todo o hemisfério Norte temperado (ou melhor, Europa e América, não tenho informação para garantir que na Ásia as coisas estão a evoluir assim ou assado).


Alguém acha que essa alteração se deve à alteração dos recursos de saúde pública alocados ao problema?


Penso que é razoavelmente consensual admitir que não, quer porque não há sinais de abrandamento da vigilância, pelo contrário, o número de testes por dia tem sistematicamente aumentado, e esse é um bom indicador da intensidade da vigilância, quer porque o súbito crescimento de casos positivos é simultâneo em quase toda a Europa e América temperada, independentemente das políticas de saúde pública.


Ao contrário de Ricardo Mexia, que na verdade está a dizer que se o problema é a falta de meios é porque o aumento de casos positivos se deve a deficiências de vigilância da situação, isto é, que afinal os médicos de saúde pública foram incompetentes e deixaram fugir o controlo da situação, eu não vejo em que medida aumentar os recursos alocados à vigilância nos garante qualquer resultado que não seja a falência do sistema.


O problema não são as opiniões de Ricardo Mexia, eu acho que se fundamentam em contradições insanáveis mas também esta é só a minha opinião, o problema é a ideia central por trás disto tudo, que aparentemente não é influenciada pelos factos verificados em Março/ Abril.


A quantidade pessoas informadas e razoáveis que voltam a fazer contas à Buescu - o crescimento nos últimos dias tem sido X, a manter-se este crescimento, vamos chegar a estes números astronómicos daqui a y dias - esquecendo a evolução típica dos surtos de doenças respiratórias, com a sua característica subida acentuada, o seu pico ou planalto, e descida posterior, esquecendo os dados da mortalidade que, por agora, não indiciam (com base no Euromomo e nos dados por país) nenhuma mortalidade acrescida relevante (com excepção de Espanha, que está a diminuir os casos positivos diários há três semanas), faz-me a maior das confusões.


Não faço a menor ideia de como vai evoluir a epidemia nas próximas semanas até porque o número de casos positivos é fortemente influenciado pela política de testes, o que torna a interpretação do significado da sua evolução muito difícil.


Para minha surpresa, Espanha está a diminuir os casos positivos há três semanas e há indícios de mais países europeus a chegar a um planalto nesse crescimento, mas também me parece difícil estarmos já a chegar ao pico da actividade viral, quer porque é cedo, quer sobretudo porque os dados de hospitalização e mortes não corroboram uma aumento brusco da actividade viral, que é bem possível que ocorra mais dentro da época gripal, lá pelo fim do ano (Natal, por exemplo) ou princípio de 2021.


Não sei, não estou muito interessado nessa futurologia da mortalidade excessiva, o que me preocupa é que esta ideia de que é preciso e possível quebrar cadeias de contágio e controlar a situação, e que para isso devem ser adoptadas todas as medidas possíveis, incluindo as que em Março/ Abril demonstraram ser mais perniciosas que benéficas, fazendo o outsourcing da actividade do governo para a DGS, é uma ideia que custa a morrer na cabeça da generalidade das pessoas.


E com essa ideia viva na sociedade e, por isso, influente, estamos mesmo lixados.

7 comentários:

  1. Uma análise sobre os modos de transmissão da COVID-19 à luz dos conceitos de Qualidade do Ar Interior Manuel Gameiro da Silva Professor Catedrático do Departamento de Engenharia Mecânica Coordenador da Iniciativa Energia para Sustentabilidade da Universidade de Coimbra Especialista em Climatização pela Ordem dos Engenheiros  

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  2. A ideia de Ricardo Mexia é basicamente a mesma de qualquer sindicalista: aumentar o número de trabalhadores na profissão dele. Ricardo Mexia está a falar como um sindicalista e não como um técnico de saúde pública.
    Da mesma forma que há uns dias ouvi na televisão um médico francês a queixar-se de que os médicos franceses estavam a ficar extenuados e incapazes de lidar com a epidemia, e que a solução seria pagar-lhes mais um subsídio qualquer. Era conversa de sindicalista e não de médico.

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  3. também me parece difícil estarmos já a chegar ao pico da actividade viral


    Sim, até porque a atividade viral em Portugal foi menos forte do que noutros países europeus, pelo que ainda há relativamente pouca imunidade de grupo.


    Os países (e regiões) onde o número de testes positivos está a diminuir ou estabilizar são aqueles onde já houve imensa atividade viral no passado e, portanto, já há bastante imunidade entre a população. Ao contrário daquilo que acontece em Portugal.

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  4. A título meramente informativo, veja-se a mudança de política da OMS relativamente aos confinamentos:




    Veja-se também estes dois curtos vídeos muito esclarecedores sobre as peculariedades do teste RT-PCR explicadas pelo Prof. Michael Mina:




    E este site do ECDC, que remete para relatórios semanais com muita informação e gráficos esclarecedores:
    https://www.ecdc.europa.eu/en/covid-19/country-overviews

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  5. Henrique Pereira dos Santos,
    Escrevi diversas vezes que, sem o conhecer, o aprecio.

    Por haver um tom de honestidade nos seus escritos.
    Mas, o 'mas' de sempre, sinto que se perde amiúde acerca das posições de outros.
    Para mim só contam os 'outros' que veiculam lógica e inteligência. Senão nem sequer são 'outros', nem gente.
    Deixe que os frouxos se enterrem, sem coroas floridas.
    Abraço

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  6. Claro!!!   Nas UCI estão todos os tipos de situações clínicas graves: as dos acidentes (qualquer tipo), as de origem circulatória (isquemias, AVC, enfartos, shock), as infecciosas, as 'tempestades' endócrinas, um etc de tudo e mais alguma coisa. Com covid é que quase não há.
    ao

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