quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Demasiados contactos

Manuel Carmo Gomes dá hoje uma entrevista ao I, que não li na totalidade, mas a que o I dá grande destaque de primeira página.


Catherine Smallwood (senior emergency officer na OMS) dá hoje uma entrevista ao Público, que li na totalidade, a que o Público não dá destaque nenhum, apesar de quase toda a primeira página ser dedicada à epidemia.


A Sociedade de Virologia que abrange a Alemanha, Suíça e Áustria achou apropriado publicar um parecer em que se diz preocupada por haver vozes que discordam do que a dita sociedade acha que deveria ser o que toda a gente deveria pensar, explicitamente referindo-se à declaração de Great Barrington.


"Tandis que moi tous les soirs/ Je suis barman à l'Alcazar".


"O aumento da disseminação de infecções de SARS-CoV-2 deve-se, em particular, a eventos privados, como celebrações familiares, casamentos e outros encontros. Embora por isso a maior parte da ocorrência de infecção se desenrole em grupos etários mais jovens, que são na maioria muito menos afetados pelas consequências para a saúde do COVID-19 do que os mais velhos, observamos em todo o lado um aumento nas hospitalizações e um avanço constante de infecções em grupos de idade mais avançada" diz a dita sociedade de virologia, dizendo que se baseia na evidência científica.


"Para prever quantas pessoas vão precisar de cuidados hospitalares, temos de conseguir prever quantos casos vamos ter no máximo e, para isso, ser possível temos de ver o RT estabilizar. O que temos visto é que o RT tem estado a subir devagarinho, especialmente na região Norte. Não tem de ficar 1, mas tem de estabilizar. No fundo o que temos todos os dias é o pico a ir um bocadinho mais para cima, para valores mais altos. Há duas semanas estimávamos que teríamos uns 3000 casos reais (pessoas a serem infetadas diariamente) no final de outubro, mas agora estamos a projetar mais de 3500. ... as pessoas continuam a ter demasiados contactos entre si. O RT depende do número médio de contactos de cada um quando está infetado, o que pode não saber à partida. À medida que o RT sobe, quer dizer que continuamos a intensificar a transmissão. Mesmo que a diferença seja de casas decimais, faz uma grande diferença quando temos estes números. Quer dizer que não conseguimos travar o contágio entre as pessoas e as cadeias de transmissão prolongam-se" diz Manuel Carmo Gomes, com certeza também baseado na evidência científica.


"Os números são tão altos neste momento porque estamos a captar uma proporção muito maior do número real de pessoas infectadas com covid-19. No mês passado, quatro milhões de europeus foram testados todas as semanas, o que é o dobro do início deste ano. ... Nos primeiros meses os locais de testagem estavam muito sobrecarregados e a focar-se nos casos graves ou nas pessoas internadas. À medida que tempo passou, os testes na comunidade têm sido expandidos de forma significativa. Portanto, sim, estamos a testar mais e a captar muito mais pessoas que têm a doença. Por isso o número de jovens infectados é agora muito maior no panorama geral do número de casos" diz Catherine Smallwood, baseada com certeza na evidência científica.


"Tandis que moi tous les soirs/ Je fais la plonge à l'Alcazar"


"Devido à dinâmica de infecção explosiva que observamos em todos os hotspots em toda a Europa, é de temer que, acima de um certo limite, o controle sobre o processo de infecção seja perdido mesmo em regiões anteriormente não críticas. Se este limite for excedido, o rastreamento de surtos individuais e medidas de isolamento estritas deixam de poder ser realizadas e a propagação descontrolada para todas as partes da população, incluindo grupos de risco particularmente vulneráveis, deixam de poder ser evitadas de forma adequada" diz a tal sociedade de virologia, baseada na evidência científica.


"quando há muitos casos em circulação a saúde pública deixa de conseguir dar conta do recado. Se num determinado dia tenho mil novos casos, implica mil novos inquéritos e ir atrás dos contactos. É evidente que os médicos de saúde pública, a certa altura, deixam de conseguir acompanhar e sabemos que não estão a conseguir acompanhar há pelo menos duas semanas. Ou seja, há muitos casos que estão a ocorrer todos os dias e que não nos aparecem porque não os conseguimos apanhar. Se estas pessoas adoecerem e forem parar ao hospital, hão de aparecer, mas neste momento há mais pessoas infetadas que estão assintomáticas ou têm sintomas ligeiros e que não apanhamos e continuam a transmissão", diz Manuel Carmo Gomes, com certeza baseado na evidência científica que parece que contraria a ideia, científica, da sociedade de virologia, de que o actual modelo de controlo da epidemia é muito bom e há maneira de não falir.


"O vírus é imparável sem vacina?", pergunta a jornalista, "Mesmo com a vacina, podemos não o conseguir, porque podemos ter uma vacina que não é totalmente segura e eficaz" responde Catherine Smallwood, com certeza com base em evidência científica.


"Tandis que moi tous les soirs/ J'suis chanteuse légère à l'Alcazar"


Adenda: entretanto já li a entrevista toda de Manuel Carmo Gomes e não deixo de me espantar com a facilidade com que diz que há duas soluções possíveis e depois descreve duas soluções igualmente inviáveis

10 comentários:

  1. Nos EUA como cá: a política de supressão do fogo vs gestão florestal


    https://www.zerohedge.com/political/fire-experts-say-western-states-need-clear-out-mismanaged-forests

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  2. Valha-nos o Grand Jacques...


    Jsp

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  3. Como está a funcionar o contact tracing num verdadeiro absurdo:




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  4. um conhecido advogado de multinacionais da gringalhada escrevia invariavelmente nas suas contestações
    «já sem saber o que dizer ...»

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  5. «O que temos visto é que o RT tem estado a subir devagarinho, especialmente na região Norte. Não tem de ficar 1, mas tem de estabilizar. No fundo o que temos todos os dias é o pico a ir um bocadinho mais para cima, para valores mais altos. Há duas semanas estimávamos que teríamos uns 3000 casos reais (pessoas a serem infetadas diariamente) no final de outubro, mas agora estamos a projetar mais de 3500. »


    Mas o que é o RT? O RT (R0 na literatura científica, leia-se "R índice zero") é o número de novos infectados por cada infectado anterior. Dito de outra forma: é o número de pessoas que serão infectadas por cada pessoa já infectada. Alguém mediu este valor? Não. Apenas em condições laboratoriais controladas poderia ser medido. Estamos então em presença de quê? De uma mera estimativa. Qual a incerteza associada a essa estimativa? Não sabemos. 


    Sabemos, isso sim, que qualquer instrumento de medição tem associada a si uma incerteza relativa aos valores medidos. E, nos artigos científicos e nas teses, escrevem-se inúmeros parágrafos, por vezes capítulos, sobre a incerteza dos dados medidos experimentalmente.
    "An estimate of measurement uncertainty (MU) provides an interval of values within which the true value is believed to lie with a stated probability, and is therefore a quantitative indication of the reliability of a measurement."
    É corrente ler-se nos manuais algo como: incerteza na gama de medição de +/- 1%, apenas para exemplificar.


    Em contraste, fornecem-se estimativas do número de casos, baseadas noutras estimativas do RT, sem que nos indiquem uma incerteza associada. É aqui que o vómito intelectual motivado pelo rigor exigido à ciência me assola. É aqui que aqueles que fazem estas previsões se colocam na posição dos charlatães, dos vendedores de banha da cobra e dos professores Karamba das bolas de cristal. 


    E nem sei o que será pior: se eles sabem a posição em que se colocam ou se pura e simplesmente não sabem.
    (continua)

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  6. Pergunta legítima: mas quem é Manuel Carmo Gomes?


    Pesquisa rápida e aqui está o resultado, colhido algures numa página denominada por ciencias.ulisboa.pt: "

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  7. Esse é o nome do departamento, não das matérias que são objecto de investigação de Manuel Carmo Gomes.
    Não tem razão nessa crítica, ele estuda e ensina mesmo matérias directamente relacionadas com epidemias.

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  8. HPS, isto nem parece seu:  «...uma entrevista ao I, que não li na totalidade...»
    Em achega, Elvimonte tem carretas de razões.


    Eu, além de ter lido o que este 'sábio' tem feito na ciência, li a entrevista dada ao I.
    Na ciência nada fez que me entusiasmasse. Na entrevista foi um indigente.
    É um apóstolo das patetices da DGS e colabora (ou trabalha) nela.
    Claro que é um pateta: nem apreciar o significado de números sabe.





    HPS consulte o excelente blog de Pedro Vieira em:



    Já agora, o meu vício:


    Abraço de estima

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  9. Agorinha li a sua adenda. Quererá melhor atestado para um pateta?
    Abraço

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