Nada me liga a nenhum dos dois citados no título, apenas os conheço de os ouvir ou ler a propósito da epidemia.
Mas uma coincidência fez com que um visse publicada uma entrevista ontem, no I, e outro visse uma entrevista publicada hoje, no Público.
E vale pena ler as duas entrevistas que, sendo sobre o mesmo assunto, é como se existissem em mundos paralelos, de tal maneira os fundamentos dos dois são diferentes e a forma como olham para o assunto é radicalmente diferente.
Os dois sabem do que falam, têm preparação e estudo sobre o assunto.
Manuel Carmo Gomes é um biólogo que se foi especializando em matemática e estatística aplicada à biologia, desaguando na modelação matemática do controlo de doenças infecciosas através da vacinação. É, e sempre foi, um académico, cuja principal ligação profissional com a sociedade, fora da academia, se faz pelo mundo da vacinação.
Jorge Torgal é um médico (originariamente dermatologista) que se foi especializando em saúde pública, e que foi saltitando entre a academida e cargos públicos ligados à saúde pública, com fortes ligação à epidemiologia, quer em Portugal, quer em África.
É por isso natural que os pontos de partida com que olham para a epidemia seja radicalmente diferente.
Manuel Carmos Gomes está no grupo dos novos, dos que trabalham e modelam dados em computadores, Jorge Torgal está no grupo dos velhos, dos que já viram muitas epidemias evoluir e involuir nas mais diversas circunstâncias e trataram os seus doentes e mortos.
Por isso é natural que Manuel Carmo Gomes diga que o que há a fazer é reforçar enormemente os recursos para testagem e seguimento, de maneira a conseguir quebrar as cadeias de contágio ou, em alternativa, quebrar cadeias de contágios com base na diminuição dos contactos entre as pessoas. Estas duas soluções possíveis, ambas inviáveis porque para a primeira não existem recursos, e para a segunda não existem pessoas e sociedades a que se possa aplicar uma restrição de contactos como a que pretende, decorrem da ideia fundamental de que a evolução de uma doença pode ser controlada, como se faz com a vacinação, substituindo a vacinação por distanciamento social.
Pelo contrário, Jorge Torgal limita-se a dizer que o que é preciso é olhar globalmente para a saúde pública, olhar para a mortalidade, e controlar o medo decorrente de uma epidemia, dizendo que é absurdo que as regras de acesso de um doente a uma instituição de saúde sejam mais restritivas que as de acesso a qualquer outro sítio, porque o que é preciso é garantir que um doente, qualquer doente, tenha acesso a cuidados de saúde.
Na verdade, um está preocupado com uma abstracção (a cadeia de contágio ou a actividade viral), o outro está preocupado com os efeitos concretos de uma epidemia sobre as pessoas.
Os dois, com certeza, querem a nossa felicidade e saúde para todos, disso não tenho a menor dúvida, mas um está habituado a raciocinar escolhendo os seus pressupostos - se todos os contactos cessarem, isto quebra - o outro sabe que os pressupostos são definidos pelo vírus, e é a partir daí que temos de raciocinar.
O nosso problema, enquanto sociedade, é termos bloqueado este debate, cavando rapidamente trincheiras entre os partidários do "pára tudo já", que se lixem os efeitos secundários, e os partidários do "isto é uma gripezinha", do que precisamos é de manter a sociedade a funcionar.
E depois fizemos muito pior, em vez de termos o poder a arbitrar, em cada momento, o ponto de equilíbrio entre os diferentes pontos de vista, pusemos o poder ao serviço de uma facção, por pressão das pessoas e dos jornais.
Com isso a facção dominante vai-se tornando cada vez mais opressiva (cinco dias sem sair do concelho em que se estiver, uma ligeira compressão nas liberdades individuais, perfeitamente proporcional ao risco da doença para a generalidade das pessoas e justificada pela hecatombe que há oito meses se verifica no mundo, como se sabe) e a facção contrária mais radical e intolerante.
Há muitas razões para se defender que as medidas voluntárias são muito mais eficazes que a força no controlo de uma epidemia, uma delas é exactamente porque colocar o poder ao serviço de facções sempre foi uma péssima opção social.
Pior só mesmo colocar o poder nas mãos de uma facção aterrorizada com um inimigo ilusivo.
No ponto em que estamos, e eu sei que o que estou a dizer está fora de moda, os intelectuais, sejam eles quem forem, defendam eles o que defendam, acreditem na facção que acreditem, têm a obrigação de não ficar calados e dizer de forma clara: os limites da liberdade não deixam de estar permanentemente sob tensão para que se consiga definir onde está a linha que separa a liberdade individual do bem comum mas, neste caso, há muito tempo que essa linha ficou para trás e o poder deixou de reconhecer os limites da sua legitimidade.
o estado social-fascista considera normal usar todos os meios na opressão-repressão e agit-prop
ResponderEliminarnao consigo parar de rir...
ResponderEliminarHenrique... continue.... sempre em frente ... nao pare nunca de remar
Voce e o seu sobrinho andre dias..... nunca cnuncaaa parem