Numa altura em que estava à espera de Godot e me tinha esquecido do livro que estou a ler, do escritor que mais me diverte (Camilo Castelo Branco), acabei por estar a ler no telefone coisas que não leria habitualmente.
Foi aí que me cruzei com isto: "Sófocles: “O homem é o ser do excesso, é o ser que viola todas as justas medidas” Para Costa Silva, “não há definição mais precisa da nossa relação com o planeta” do que a frase de Sófocles, dramaturgo conhecido pelas tragédias gregas, como Édipo Rei. “Temos que mudar esta relação. Podemos negociar com sindicatos, organizações empresariais, mas não podemos negociar com a natureza“, frisa, salientado os riscos de uma crise climática."
Nas apresentações que faço frequentemente uso um verso de Fernando Pessoa que serve melhor as minhas ideias: "Não há normas. Todos os homens são excepção a uma regra que não existe" mas também não está mal escolhida esta ideia de sermos do excesso, sermos o que viola todas as justas medidas (e as outras também, mas isso não vem agora ao caso).
O que me interessa agora é só aquela pequena parte que usei no título: "não podemos negociar com a natureza" porque ajuda a explicar bem como Costa Silva, o homem do plano, e eu, o homem sem plano, estamos ideologicamente nos antípodas.
Costa Silva, reconhecendo a natureza humana, citando Sófocles neste caso, mas citando Kant na versão original do plano, propõe um plano que visa mudar a natureza humana porque "não podemos negociar com a natureza".
Eu não proponho plano nenhum, primeiro porque ninguém mo pediu, depois porque acho exactamente o inverso: a nossa história como espécie é a história da negociação permanente com a natureza.
Por isso gosto tanto da definição de paisagem que aprendi com Teresa Andresen (e espero não a estar a trair na formulação que apresento): "A paisagem é o resultado da forma como nos relacionamos com a natureza".
Admitir a ideia de Costa Silva, a de que não podemos negociar com a natureza, é estar sempre numa posição de impotência.
Eu acho que domesticação de animais é o resultado possível dessa negociação. Eu acho que a agricultura é o resultado possível dessa negociação em cada momento. O regadio é o acordo que fizemos com a natureza: não podemos fazer a água subir as encostas, mas podemos conduzi-la no seu natural caminho de descida.
Nem sempre fazemos bons acordos, isso é seguro.
Por exemplo, o desacordo que hoje temos com a natureza na gestão do fogo é um resultado de uma negociação mal conduzida, partindo de um pressuposto errado, o de que somos capazes de vencer o fogo - o equivalente a fazer a água subir pelas encostas - em vez de partirmos para a negociação conhecendo bem os limites na negociação e aquilo que nos é possível obter: uma gestão do fogo semelhante à gestão do percurso da água descendente, sem a exigência de que a água suba as encostas.
O plano de Costa Silva, infelizmente, esquece o princípio base do bom negociador: o bom negócio é o que convém às duas partes e a melhor forma de maximizar o benefício é conhecer muito bem o que se negoceia e quem negoceia connosco.
Claro que haverá sempre quem defenda que não há negociação mais eficaz que a que está na ponta da baioneta mas, com a natureza, essa é uma posição muito, muito perigosa, porque se há coisa certa é que a natureza pode mais que nós e a nós só no resta aprender a velejar contra o vento, para chegarmos onde quisermos.
Então o Senhor não é poeta? Nunca vi poeta de boas contas.Andam sempre com a cabeça a voar lá pelas carvalhas... Não esperem milagres!
ResponderEliminarNós e os nossos filhos e netos - duas ou três gerações, no mínimo.
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ResponderEliminarAcabei de ler seu post e achei interessante comentar, belo post.
na maré cheia o Tejo corre para Espanha
ResponderEliminardepois arrepende-se
ResponderEliminarMuito, muito bom o seu texto! Só os tolos ou os ignorantes é que não vêem que a História do Homem tem sido sempre uma negociação, um acordo com a Natureza, tantas vezes contrariando ou aproveitando os ventos.
Costa Silva apareceu-nos engalanado de frases cheias de citações _ que "cheiram" a profundidade _ porque o importante é agitar este marasmo e "impressionar o indígena", a lembrar o que dizia o João da Ega ao Maia na sua estreia, à chegada a Lisboa. Um adornava-se de pelica e calçava excêntricas luvas amarelo- canário ; o outro apareceu-nos enfeitado de frases de "belo efeito". Ambos "que sensação " ! Chic a valer!!!
E Portugal nesta...
mesmice...
... de sempre...
Mas de novo, hoje, sopram grandes ventanias, com grande estrépito, vindas de um outro "plano".
"Temos de aprender a velejar contra esse vento" cheio de poder e de força que nos assola, antes que ele nos arrase.