quarta-feira, 16 de setembro de 2020

"Não podemos negociar com a natureza"

Numa altura em que estava à espera de Godot e me tinha esquecido do livro que estou a ler, do escritor que mais me diverte (Camilo Castelo Branco), acabei por estar a ler no telefone coisas que não leria habitualmente.


Foi aí que me cruzei com isto: "Sófocles: “O homem é o ser do excesso, é o ser que viola todas as justas medidas” Para Costa Silva, “não há definição mais precisa da nossa relação com o planeta” do que a frase de Sófocles, dramaturgo conhecido pelas tragédias gregas, como Édipo Rei. “Temos que mudar esta relação. Podemos negociar com sindicatos, organizações empresariais, mas não podemos negociar com a natureza“, frisa, salientado os riscos de uma crise climática."


Nas apresentações que faço frequentemente uso um verso de Fernando Pessoa que serve melhor as minhas ideias: "Não há normas. Todos os homens são excepção a uma regra que não existe" mas também não está mal escolhida esta ideia de sermos do excesso, sermos o que viola todas as justas medidas (e as outras também, mas isso não vem agora ao caso).


O que me interessa agora é só aquela pequena parte que usei no título: "não podemos negociar com a natureza" porque ajuda a explicar bem como Costa Silva, o homem do plano, e eu, o homem sem plano, estamos ideologicamente nos antípodas.


Costa Silva, reconhecendo a natureza humana, citando Sófocles neste caso, mas citando Kant na versão original do plano, propõe um plano que visa mudar a natureza humana porque "não podemos negociar com a natureza".


Eu não proponho plano nenhum, primeiro porque ninguém mo pediu, depois porque acho exactamente o inverso: a nossa história como espécie é a história da negociação permanente com a natureza.


Por isso gosto tanto da definição de paisagem que aprendi com Teresa Andresen (e espero não a estar a trair na formulação que apresento): "A paisagem é o resultado da forma como nos relacionamos com a natureza".


Admitir a ideia de Costa Silva, a de que não podemos negociar com a natureza, é estar sempre numa posição de impotência.


Eu acho que domesticação de animais é o resultado possível dessa negociação. Eu acho que a agricultura é o resultado possível dessa negociação em cada momento. O regadio é o acordo que fizemos com a natureza: não podemos fazer a água subir as encostas, mas podemos conduzi-la no seu natural caminho de descida.


Nem sempre fazemos bons acordos, isso é seguro.


Por exemplo, o desacordo que hoje temos com a natureza na gestão do fogo é um resultado de uma negociação mal conduzida, partindo de um pressuposto errado, o de que somos capazes de vencer o fogo - o equivalente a fazer a água subir pelas encostas - em vez de partirmos para a negociação conhecendo bem os limites na negociação e aquilo que nos é possível obter: uma gestão do fogo semelhante à gestão do percurso da água descendente, sem a exigência de que a água suba as encostas.


O plano de Costa Silva, infelizmente, esquece o princípio base do bom negociador: o bom negócio é o que convém às duas partes e a melhor forma de maximizar o benefício é conhecer muito bem o que se negoceia e quem negoceia connosco.


Claro que haverá sempre quem defenda que não há negociação mais eficaz que a que está na ponta da baioneta mas, com a natureza, essa é uma posição muito, muito perigosa, porque se há coisa certa é que a natureza pode mais que nós e a nós só no resta aprender a velejar contra o vento, para chegarmos onde quisermos.

5 comentários:

  1. Então o Senhor não é poeta? Nunca vi poeta de boas contas.Andam sempre com a cabeça a voar lá pelas carvalhas... Não esperem milagres!

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  2. Nós e os nossos filhos e netos - duas ou três gerações, no mínimo.

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  3. Acabei de ler seu post e achei interessante comentar, belo post. 

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  4. na maré cheia o Tejo corre para Espanha
    depois arrepende-se

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  5. Muito, muito bom o seu texto! Só os tolos ou os ignorantes é que não vêem que a História do Homem tem sido sempre uma negociação, um acordo com a Natureza, tantas vezes contrariando ou aproveitando os ventos. 
    Costa Silva apareceu-nos engalanado de frases cheias de citações  _ que "cheiram" a profundidade _  porque o importante é agitar este marasmo e "impressionar o indígena", a lembrar o que dizia o João da Ega ao Maia na sua estreia, à chegada a Lisboa. Um adornava-se de pelica e calçava  excêntricas luvas amarelo- canário ; o outro apareceu-nos enfeitado de frases de "belo efeito". Ambos "que  sensação " ! Chic a valer!!!
     E Portugal nesta...
     mesmice...
     ...  de sempre...


     Mas de novo, hoje, sopram grandes ventanias, com grande estrépito, vindas de um outro "plano". 
    "Temos de aprender a velejar contra esse vento" cheio de poder e de força que nos assola, antes que ele nos arrase.

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Donas de casa

Aqui e ali (ler Patrícia Fernandes, no Observador, sobre este ou outros assuntos, quase sempre se lê com muito proveito) aparece a discussão...