sexta-feira, 11 de setembro de 2020

É a inversa

O que tem sido exaustivamente dito sobre a relação entre medidas não farmacêuticas e a evolução da epidemia pode resumir-se em generalidades como esta:  "A segunda vaga pode ser evitada se as medidas de restrição forem seguidas à risca".


A ideia na base de afirmações deste tipo, ou melhor, na base das politicas que usam esta falácia como fundamento, é a ideia de que somos nós e os nossos comportamentos que controlam a expansão da doença.


É uma ideia muito apelativa, porque muito lógica - um vírus perdido no deserto do Sahara nunca estará na base de um surto epidémico por lhe faltarem os hospedeiros - mas é uma ideia essencialmente errada.


O estudo dos fogos ajuda a explicar a falácia.


Para haver fogo é preciso haver:


1) combustível (no caso de uma epidemia, hospedeiros);


2) comburente (no fogo é o oxigénio, numa epidemia vamos considerar genericamente as condições intrínsecas da infecção, mesmo que não saibamos exactamente quais são);


3) ignição (no caso da epidemia, contágios).


Frequentemente, ao olhar para estes factos, desenham-se políticas lógicas.


Não estando na nossa mão controlar o teor de oxigénio na atmosfera, partimos do princípio de que o comburente é um facto fixo. Sendo muito caro gerir combustíveis, o mais lógico será desenhar políticas para o que só depende do nosso comportamento: as ignições, que, na esmagadora maioria dos casos em Portugal - a questão é diferente, por exemplo, nos EUA - têm origem humana.


E, entretanto, criamos um robusto sistema de supressão do fogo para evitar os prejuízos que o fogo causa, considerando-se que a redução das ignições ajuda ao melhor desempenho deste sistema de supressão ao diminuir os focos de incêndio.


O problema é que sendo o que escrevi muito lógico, de tal forma que qualquer pessoa sem nenhum conhecimento da dinâmica do fogo o compreende facilmente, está errado.


E está errado porque as ignições não são todas iguais: acender um fósforo e atirá-lo para um chão de calçada ainda aceso não representa nenhum risco porque não há condições de progressão do fogo, uma ignição qualquer, num dia meteorologicamente excepcional, num contexto de abundância e continuidade de combustíveis finos pode dar origem a 30 mil hectares ardidos em muito pouco tempo, com o fogo a evoluir sempre para lá da capacidade de extinção do tal sistema de supressão do fogo.


Acresce que sempre que o sistema de supressão do fogo funciona - o que acontece na maioria das ignições, qualquer coisa como em 98 a 99% das ignições - induz um efeito de retroalimentação da acumulação de combustíveis que tem como efeito aumentar grandemente os problemas resultantos dos dois por cento de ignições que dão origem a 90% da área ardida.


Ou seja, na verdade a questão central não está no controlo das ignições, mas na gestão das condições de propagação do fogo.


Tiago Oliveira, em várias ocasiões, tem apresentado um gráfico que relaciona a área ardida no ano anterior e a produção de legislação sobre fogos, protecção civil e gestão florestal, demonstrando que há uma relação positiva entre as duas coisas, isto é, quanto mais área ardida num ano, maior a produção legislativa nos tempos imediatamente subsequentes.


Como ele próprio descreve na sua tese de doutoramento, de forma mais elegante:


"O modelo é formado por um subsistema físico e um subsistema político. O subsistema físico tem como variáveis a carga combustível acumulada, a velocidade de propagação do fogo e a intensidade da linha de chama.


O subsistema político usa como variável a área ardida do ano anterior, que se relaciona positivamente com os investimentos em supressão, na medida em que estes resultam da pressão da população sobre o governo para actuar sobre a dimensão visível do problema.


Dado um orçamento finito, à medida que a área ardida aumenta, o subsistema político responde com o reforço dos meios de combate, reduzindo a disponibilidade orçamental para medidas direcionadas à prevenção.


No curto prazo, alcançam-se os resultados desejados, mas nos anos subsequentes, através da dinâmica induzida no subsistema físico, observa-se que carga de biomassa combustível é crescente, levando a incêndios maiores, com maiores durações e severidades."


Ao olharmos para a gestão da epidemia com estes olhos, parece-me impossível não ver o que está a acontecer, salvaguardando que sendo isto para mim óbvio, o óbvio é demasiado subjectivo para o dar como adquirido.


Vejo pessoas satisfeitas com o facto de, desta vez, o Governo não ter decidido tornar obrigatório o uso de máscaras (e outros dispositivos de supressão do fogo, desculpem, de supressão dos contágios) na rua.


Desenganem-se.


O uso de máscaras - salvo o caso específico de espaços interiores, mal ventilados, cheios de gente que é forçada a estar muito próxima, em que se admite que possam ser úteis para a prevenção de contágios - não influencia relevantemente a dinâmica de contágios na epidemia, é a dinâmica de contágios da epidemia que influencia as decisões - quer públicas e coercivas, quer privadas e voluntárias - sobre o uso de máscaras.


Tal como nos fogos, o número de contágios que geram surtos com alguma dimensão é relativamente diminuto, falando-se em 10 a 20% de pessos responsáveis por 80% dos contágios. Mais relevante, a esmagadora maioria dos contágios ocorre em espaços de co-habitação, sejam em estruturas colectivas, como os lares, sejam em contexto familiar, o que significa que a pequena percentagem de contágios em contexto social é, provavelmente, responsável pela manutenção dos níveis de contágios em cada momento.


Tal como nas ignições, é irrealista tentar reduzir os contactos interpessoais em contexto social a zero e, nessas circunstâncias, é muito irrealista a ideia que António Costa expressou ontem: 'Comportamento da pandemia depende do comportamento de cada um" (Bingo!, foi repescado o slogan do "Portugal sem fogos depende de todos").


Resumindo: haver ou não haver obrigatoriedade de uso de máscaras na rua vai apenas depender da evolução do número de casos: se aumentarem muito, a pressão da opinião pública sobre o governo sobe, e o Governo manda toda a gente usar máscara em todo o lado; se não aumentarem, ou diminuírem, vamos poder andar sem máscara na rua.


Já a evolução do número de casos se está nas tintas para o uso que façamos das máscaras, tal como o fogo se está nas tintas para os êxitos do sistema de supressão: de cada vez que funciona, aumentamos o carácter favorável do contexto para a futura para expansão, seja do fogo ou da epidemia.

2 comentários:

  1. exactamente
    tácticas e estratégias erradas: fecharam tudo e 1/2 ano depois faliu o país e o vírus anda à solta
    os culpados dão os contribuintes que num país civilizado seriam cidadãos

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  2. É por compararem a epidemia aos fogos é que as discotecas fecham à noite.
    Eu nem imagino a tragédia que podia acontecer por alguém atear um vírus às duas da manhã. 

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Aqui e ali (ler Patrícia Fernandes, no Observador, sobre este ou outros assuntos, quase sempre se lê com muito proveito) aparece a discussão...