domingo, 23 de agosto de 2020

O ano lectivo

Luis Aguiar-Conraria tem sido incansável na desmontagem dos argumentos dos que querem evitar a normalidade presencial do ano lectivo.


Na Sexta-feira, 21, na RTP3, por volta das 22 e 20, e sobretudo no fim do seu segundo comentário, diz claramente que os senhores jornalistas, em vez de perguntarem que medidas deve o governo tomar para responder à crise económica que se instala perante os nossos olhos e a nossa indiferença, devem parar de assustar as pessoas com informação falsa sobre a epidemia que, isso sim, seria um bom contributo para retoma económica.


Dá dois exemplos claros e recentes, o da forma como foi tratada a morte de um bebé de quatro meses que é registado como uma morte covid, mas que tem uma patologia grave desde o nascimento e, sobretudo - ele diz acaloradamente que é inadmissível e eu só posso concordar - a forma como toda a imprensa repetiu títulos sobre um estudo que demonstraria que as crianças são tão ou mais infecciosas que os adultos e, lendo o estudo, é claríssimo que que os autores dizem que não estudaram a transmissibilidade mas apenas cargas virais.


Por coincidência, uma pessoa que não conheço, e que pela conversa me pareceu professor, veio argumentar comigo que "se há várias dezenas de milhares de professores com mais de 60 anos é de esperar que para alguns a doença ataque mais fortemente e que alguns morram".


Este tipo de terrorismo argumentativo, que felizmente muitos professores não usam, mas que caucionam com o seu silêncio e com a passividade com que deixam o espaço público aos que não querem normalizar o ensino presencial, tem excessiva expressão no jornalismo, que raramente perde tempo a demonstrar que isto não são argumentos para manter escolas fechadas, isto é puro terrorismo argumentativo.


Vamos aos factos.


Não sabemos quantos professores existem em grupos de risco.


Os estudos sobre o envelhecimento da classe debruçam-se sobre os professores com mais de 50 anos, não tendo muita informação sobre a estrutura etária (ou melhor, na rápida pesquisa que fiz não encontrei a estrutura etária, deve haver com certeza, eu é que não tenho tempo agora para procurar mais) que permita saber quantos professores existem entre os 60 e os 70 anos.


Dito isto, as pessoas entre 60 e 70 não estão, por essa razão, nos grupos de risco que, do ponto de vista etário, são definidas a partir dos 70 anos.


É verdade que dentro dos grupos de risco estão muitas pessoas que têm mais de sessenta anos e que têm outras patologias que as tornam parte desses grupos de risco.


Algumas dessas patologias não dependem de comportamentos individuais, mas duas das mais espalhadas, o excesso de peso e a tensão alta, são, em grande medida, controláveis por comportamentos individuais, isto é, quem se sinta em risco porque tem mais de sessenta anos e a tensão alta ou excesso de peso pode, na maior parte dos casos (não em todos, é certo) reduzir esse risco adoptando comportamentos individuais que diminuam o seu peso ou a sua tensão arterial.


Exigir o fecho das escolas para que estas pessoas possam manter comportamentos individuais de risco não diminui o risco de morte destas pessoas, que continuam com mais de sessenta anos, peso a mais ou tensão arterial alta, mas a alteração dos seus comportamentos individuais ajuda a protegê-las da doença, com ou sem escolas abertas.


Acresce que os professores em grupos de risco podem adoptar comportamentos de defesa perfeitamente praticáveis, o principal dos quais é o distanciamento físico das outras pessoas. A OMS recomenda um metro, se quiserem podem duplicar para dois metros, e dar aulas mantendo uma distância permanente de dois metros em relação a terceiros é perfeitamente viável. Podem reforçar essa defesa própria com uma máscara adequada para esse efeito (não estas coisas que usamos por serem obrigatórias em alguns sítios, mas as que protegem mesmo a pessoa em causa) e lavar as mãos frequentemente.


Tudo isso cumpre perfeitamente a necessidade de defesa de grupos de risco, sem pôr em causa o direito dos alunos, em especial dos mais pobres e frágeis, a ter uma educação que atenue a diferença de oportunidades para quem nasceu em berços mais dourados.


Um professor que se recusa a contribuir para fazer funcionar o elevador social através da educação porque se recusa a adoptar comportamentos individuais que podem reduzir o seu risco face à covid não é um professor que eu respeite.


Acresce que toda a informação que existe sobre escolas - sim, há países em que as escolas ou sempre funcionaram, ou rapidamente foram postas a funcionar, mesmo durante a epidemia - não demonstra problemas de maior de gestão da epidemia, ou de crescimento de risco para os professores, decorrentes do contexto escolar presencial.


Claro que com os jornalistas a insistir em falar nas escolas que fecham imediatamente depois de recomeçar o ensino presencial será sempre difícil combater a paranóia dos contágios.


Lembro-me de uma notícia que dizia que já havia sete escolas fechadas, se não me engano, na Alemanha, e depois percebia-se que em apenas numa havia uma ligação a um surto ligado à comunidade, nem sequer ao contexto escolar, o resto eram medidas precaucionistas da paranóia dos contágios e, ainda assim, a notícia omitia que sete escolas é um número residual, sem qualquer expressão.


Lembro-me de se focar a atenção, por exemplo, nas dez escolas que fecharam em Portugal (existem cinco mil escolas em Portugal, se não em engano), omitindo que algumas nem sequer tinham caso nenhum, declara-se um surto no lar de terceira idade e a câmara decide fechar as escolas, o que torna difícil combater a paranóia dos contágios.


Se há um teste positivo (e já nem discuto a questão de nos concentrarmos nos doentes, e não em resultados de laboratório) numa escola, o que há a fazer é isolar esse caso, testar os contactos mais próximos, isolar quem deva ser isolado, e continuar a vida da escola normalmente.


Mesmo que assim não seja, eu não entendo os professores que não dizem, alto e bom som, que mais vale ter cem escolas a abrir e fechar ao ritmo da paranóia dos contágios e testes, e as outras 4 900 abertas e a funcionar normalmente, a ter tudo fechado, com medo de que algum professor seja contagiado na escola.


Que me perdoem os professores que não o merecem, mas o silêncio de tantos professores perante as campanhas absurdas contra a abertura de escolas, é imperdoável.


Os professores têm a obrigação moral de estar na primeira fila da defesa da importância social da escola presencial - e, já agora, da importância social da sua profissão - e, mesmo que tenham medo, compreender que ali ao leme são mais eles próprios, são uma das principais garantias e alavancas de uma sociedade mais rica e mais justa.


Que os jornalistas não ajudem os professores de boa vontade a sair do armário, é deprimente.

13 comentários:

  1. O que é mais deprimente é saber que nunca se fizeram testes a assintomaticos, nem na gripe das aves, nem na gripe do ano passado, e este ano haver uma histeria colectiva com números incomparáveis. 
    E também é deprimente esta pseudo pandemia estar a ser gerida por pessoas que, de manhã dizem uma coisa e de tarde o seu contrário. O caso das máscaras, que no início pouco ou nada serviam, e agora como há excesso já ponderam a obrigatoriedade ao ar livre.
    Como é que me podem tranquilizar e dizer que se preocupam com a saúde das pessoas se os efeitos secundários desta criminosa gestão estão a provocar um aumento brutal de mortos com outras patologias?
    Acho que está na altura de parar. O facto de admitir um erro e mostrar disponibilidade para o corrigir dignifica não só a pessoa como a entidade que representa.

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  2. Este homem nao para.... ha dias dizia que cita quem sabe
    Ou seja... nao só costuma "opinar" sobre o que nao percebe NADA como agora cita quem está no mesmo nivel


    Um professor de economia a dar palpites sobre o regresso às aulas ?
    No inicio comentas sobre "as informação falsas sobre a pandemia"... nunca me enganaste !!!! Nunca.... cada vez mais mostras ao que vens. Disfarçado de opinador.   Esforça-te mais henrique. Dessa maneira nunca passarás de ser um mero blogger 

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  3. De que se espanta? As reivindicações dos professores são sempre em função dos seus aumentos salariais, progressões das carreiras,  a sua carga horária, etc. etc. Talvez por ser uma classe profissional já não muito jovem, parece-me um pouco acomodada. 
    Nunca dei conta de que alguma vez tivessem dado a primazia  aos alunos, ou prioridade ao seu direito a aprender.  Também não me parece que as suas greves tenham em consideração o incómodo ou perturbação causada  a alunos e famílias,  basta ver a calendarização, quase sempre em épocas de avaliações ou em pleno período de exames nacionais.
    Mas em última instância, acima dos professores, está o M. Educação que é quem devia definir o melhor e mais conveniente para os alunos. Eles são o futuro e isto não é um cliché.

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  4. "Jornalistas"??!!
    Generosidade a sua, caro Engenheiro.


    JSP

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  5. A parte MAIS DIVERTIDA desse estudo de faz-de-conta é esta


    "Our study is limited to detection of viral nucleic acid, rather than infectious virus,". fonte (https://jamanetwork.com/journals/jamapediatrics/fullarticle/2768952)



    Está tudo dito. Numa sociedade com ~99% de Ignorância não há nada que impeça os salafrários no "Poder Democrático" de fazerem o que bem quiserem.


    Tal e qual como no glorioso tempo da Ditadura!


    Afinal TANTOS temos tantos escravos boçais com formação superior mas na prática continuam ignorantes.

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  6. Felicito-vos. O Martins foi de férias. Graças a Deus. Ele não aguentava estes tempos.

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  7. E desde quando é que a idade é factor de risco?


    Apenas é um problema para os animais que não sabem cuidar do seu próprio organismo! Aliás se a idade fosse factor de risco TODOS os velhos e velhas tinham morrido... Como é facilmente verificável tal não aconteceu!


    Toda esta argumentação em torno de uma FRAUDE é em si mesma inútil...

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  8. Um professor que se recusa a contribuir para fazer funcionar o elevador social


    Erro grande do Henrique, que mostra que ele não tem filhos em idade escolar.


    A maioria dos professores, meu caro Henrique, não só não quer contribuir para fazer funcionar o elevador social como, de facto, faz tudo o que pode para que o elevador social não funcione.


    A maioria dos professores esforça-se denodadamente para que somente os alunos com pais cultos, ricos e com tempo, ou para fazer os trabalhos de casa dos seus filhos, ou para pagar a "explicadores" que lhos façam, possam ter sucesso.


    A maioria dos professores não pretende ensinar os alunos, pretende que somente os alunos que tenham pais com tempo, saber e experiência para lhes fazer os complicadíssimos trabalhos que encomendam possam vencer na competição escolar.


    A maioria dos professores não ensina nada, antes diz aos alunos para irem procurar o ensino na internet, coisa que, naturalmente, na prática serão os pais dos alunos a fazer, aliás só poderão mesmo ser eles, porque os trabalhos encomendados são tão difíceis, tão difíceis, que somente os pais, e mesmo, dentre estes, somente os pais educados e cultos, poderão executá-los.


    Atualize-se, Henrique. Essa da educação como elevador social foi coisa de quando você era jovem.

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  9. o excesso de peso e a tensão alta, são, em grande medida, controláveis por comportamentos individuais


    Não são, não. Ou, pelo menos, o excesso de peso não é. Basta ver a quantidade de pessoas que tentam perder peso, sem o conseguirem, e a quantidade de livros que há no mercado sugerindo diversas formas de o fazer, para ver que não é lá muito fácil perder peso.

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  10. Ser fácil ou ser controlável por comportamentos individuais, são coisas diferentes.
    É controlável por comportamentos individuais (salvo casos excepcionais) mas a generalidade das pessoas não está para mudar de vida para o conseguir, o que é legítimo.
    O que não é legítimo é negar o direito dos alunos à escola porque eu não quero mudar de vida para me proteger.

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  11. Nos tempos que correm a ignorância vence sem dúvida. 
    A mesma ignorância que levou a fechar as escolas sem qualquer tipo de evidência científica que o justifificasse, hoje já definitivamente provado ter sido um erro, é a mesma que leva a afirmar que os professores não querem aulas presenciais, como diz isso, baseado em quê? Um disparate pegado para dizer o mínimo.

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