quarta-feira, 8 de julho de 2020

Alvo móvel

Ao princípio era a expansão exponencial.


Quando se verificou que a expansão exponencial, por definição, não dura muito, era a mortalidade.


Quando se verificou que a mortalidade poderia ter picos, mas de maneira geral ficava dentro dos padrões normais de mortalidade, era a quebra absoluta de cadeias de contágio.


À medida que a ideia de ir à procura do vírus e não dos doentes se revela uma fantasia infantil, são as sequelas.


Quando se verifica que as sequelas não são específicas desta doença, mas resultantes dos estados clínicos por que passaram, e que se verificam em muitas outras doenças, passaram a ser os países dromedários (os tais bons exemplos que agora têm aumentos de testes positivos, às vezes acompanhados de aumentos de mortalidade marginal, situação deste o princípio descrita como possível pela teoria).


Seja o que for, vai sempre haver uma argumentação que a incerteza e o medo trazem para manter a pressão moral sobre a necessidade de adoptar medidas socialmente desastrosas sem necessidade de as fundamentar em mais que num enunciado vago do princípio da precaução ou da preparação para o pior cenário.


O que vai a par com a mais completa ausência de empatia para com as outras vítimas de uma epidemia: os que perdem empresas, rendimentos, mercados, apoio social, cuidados de saúde, etc..


Grande parte destas vítimas são inevitáveis: o medo é inerente à evolução de uma epidemia e gera comportamentos sociais que estão abundantemente descritos na literatura, ao ponto das mães abandonarem os filhos com medo do que lhes possa suceder (não com a covid, cuja perigosidade ninguém confunde com a percepção do perigo da peste negra medieval, por exemplo, por mais que a retórica abuse do catastrofismo).


E esse medo tem consequências no comportamento social e económico das pessoas, quaisquer que sejam as regras aplicáveis em cada sítio e momento.


É por isso que todo o discurso precaucionista sobre a epidemia que não seja prudente em relação aos efeitos do medo nas pessoas comuns é um discurso moralmente miserável e tem o efeito de ampliar a perda de confiança das pessoas na sua relação com o próximo.


Eu posso ter medo e agir de acordo com isso, o Governo, a DGS, a OMS e a generalidade das instituições simplesmente não têm o direito de agir por pressão do medo das pessoas comuns, têm a obrigação de ser muito claros nos riscos, com certeza, mas incluindo os riscos da sobrevalorização da doença face aos outros riscos sociais com que estamos confrontados.


A forma como em Portugal se têm tratado as escolas e o ensino é talvez o exemplo mais evidente de como o cálculo político para evitar o confronto com os professores e respectivos sindicatos vai ser pago por todo a gente, incluindo os professores e o sistema de saúde, por um preço incalculável mas seguramente muito mais alto que o preço a pagar com uma gestão corajosa da epidemia.


Nesta matéria, inegavelmente, António Costa não tem perdão. Pode dizer-se, e é verdade, que foi apenas atrás da opinião pública, mas há alturas em que um governante tem a obrigação de sacrificar o seu futuro político às necessidades sociais das pessoas comuns.


António Costa demonstrou, nesta matéria, não ser um político de excepção, mas apenas um rolha politicamente descendente de Costa Gomes, com a diferença de que não existem condições para impedir a corrosão social daí decorrente, como houve no tempo de Costa Gomes.


Adenda, o artigo de hoje de Fernando Alexandre explica de forma clara a alhada em que estamos metidos e como ter um governo timorato nos vai sair muito caro.

9 comentários:

  1. Excelente post, dos melhores que o HPS tem assinado.
    Concordo a 100%.

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  2. Se o Henrique souber como são as escolas portuguesas, saberá que nelas temos, frequentemente, professores a gritar para os alunos e alunos a gritar entre si a para os professores.
    É fácil de prever que, num tal ambiente de tantos gritos, o vírus se espalhará com facilidade.
    Isso não tem problema nenhum para os alunos. Mas o corpo docente, como o Henrique saberá, é em grande parte idoso. Agora suponhamos que os professores começam a adoecer, mesmo que sem grande gravidade e mesmo que recuperem passados poucos dias ou semanas, isso trará grande instabilidade à atividade letiva, com professores a faltar, a lecionação da matéria que é interrompida, coisas assim.
    Pior do que uma escola que funciona online é uma escola que funciona aos soluços, isto é, num dia os alunos têm aula e no dia seguinte já não têm porque o professor adoeceu.

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  3. adoecem  médicos e enfermeiros, presidentes das cãibras ....

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  4. Cá está o seu conhecido a gastar o (abusar do) nosso tempo.
    HPS, o senhor ficou conhecido como sabedor dos fogos e da natureza. Há uns meses que sobressai que o que aprecia é a Verdade.
    Por isto escrevo para o felicitar.

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  5. Só para se 'sentir' os miseráveis humanos que andam por aí. Em todo o lado, infelizmente.

    Vejam-se os títulos das notícias acerca de Bolsonaro. São reles!
    Falam das suas opções políticas e nada mencionam sobre a sua doença/saúde.
    Até um jornaleiro no Brasil foi arguido por escrever que seria bom que o homem morresse (nada contra ele...)

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  6. Há claramente uma insistência no discurso catastrofista, ao ponto de se explorar dados de modo enviesado, como na Visão.
    https://visao.sapo.pt/visaosaude/2020-06-04-de-que-se-morre-no-mundo-a-comparacao-das-mortes-por-covid-com-as-outras-principais-causas/ (https://visao.sapo.pt/visaosaude/2020-06-04-de-que-se-morre-no-mundo-a-comparacao-das-mortes-por-covid-com-as-outras-principais-causas/)
    Não há doenças oncológicas, nem cardiovasculares. Só algumas causas que se sabem contabilizam menos pessoas e que, por isso, se ajustam à retórica.



    Cumprimentos,
    Liliana

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  7. Desde o princípio António Costa mostrou ser um escalador oportunista.  
    E não tem desiludido. A forma como apeou Seguro, geringonça para tomar o poder, os fogos de 2017, o caso Tancos e agora a Covid. 
    O seu único objectivo é tentar safar a pele. E o mais extraordinário é que tem conseguido.
    Não estaríamos à espera que agora se revelasse um Churchill pois não?!...

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  8. Caro Senhor
    Em 75 dizia-se " nem mais um homem para o ultramar" : não foram, e por causa disso morreram milhões em áfrica, e centenas de milhares ficaram com as suas vidas desfeitas.

    Vasco Silveira

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  9. Sugiro uma imagem com um belo gráfico



    https://i.postimg.cc/tJ3bygck/Covid-deaths-June-20-cenario.png


    para que as letras não provoquem a ofuscação da Realidade!

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Gente desonesta

Sabendo de como é coisa complexa e eu sei pouco do assunto, não perdi muito tempo a ver os pormenores das alterações ao código do trabalho. ...