segunda-feira, 22 de junho de 2020

Uns são responsáveis, outros são só autoridades

Poucos dias depois de identificado o problema sueco da elevada mortalidade em lares de terceira idade, há já muito tempo, os responsáveis suecos diziam que de facto havia um problema, que a Suécia tinha falhado na identificação e gestão do problema e que tinha de trabalhar melhor a relação com os trabalhadores dos lares, muitos dos quais falam, aliás, pouco sueco.


Lá, tal como cá, os trabalhadores dos lares são frequentemente muito pouco qualificados. A diferença maior será que lá há muitos somalis a trabalhar no sector e a sua lingua materna não é o sueco, ao contrário dos trabalhadores dos lares em Portugal, onde também existem muitos trabalhadores pouco qualificados vindos de outros países, mas cuja língua mãe é o português.


Repare-se na diferença para Portugal.


Apenas hoje, meses depois do problema ser o que é, é que a comissária política responsável pelo assunto resolveu dizer que "assim que surge um caso de infeção num lar, as visitas são “de imediato” suspensas, mas que “de facto, muito mais do que as visitas, que têm regras muito específicas”, os trabalhadores são o “grande vetor de entrada” do vírus nos lares ... sublinhando o facto de alguns destes profissionais terem emprego “em mais do que uma instituição."


O mais relevante é que não vi (pode ser que tenha sido dito e não transcrito nas notícias que vi) como tencionam as autoridades lidar com o assunto, tendo em atenção que é nessas circunstâncias que ocorre grande parte da mortalidade. Nem vi a assunção de que alguma coisa tenha corrido mal que seja da responsabilidade das autoridades.


O que sabemos é que para resolver os ajuntamentos com dezenas de pessoas o governo acha óptimo diminuir o número de pessoas que se podem juntar, passando de 20 para 10.


Faz todo o sentido: quando quarenta pessoas se juntam apesar de haver uma restrição que estabelece um máximo de vinte, tenho a certeza de que todos vão achar que se a restrição fosse de dez já não se juntariam os quarenta.


Confesso que estou verdadeiramente cansado desta gestão de expectativas e percepções públicas sem qualquer relação com a substância da gestão de uma epidemia.


O que me irrita mesmo mais é ter uma imprensa inteira domesticada ao ponto de não só achar isto normal, como achar normal que um direito constitucional como o direito de reunião possa ir sendo gerido administrativamente a bel prazer do poder, fundamentando-se no número de infecções em lares e locais de trabalho as restrições de outras actividades que têm pouca relação com isso.


O único caso recente que liga uma festa a um surto é uma história muito mal contada, ao ponto de boa parte dos tais testes positivos dizerem respeito a crianças que não estiveram na festa, ficando eu na dúvida sobre o que leva os responsáveis a saber que a generalidade dos contágios resultam da festa e não de outra coisa qualquer.


Ou também houve festas nos lares de Reguengos, Cinfães ou Caneças?

5 comentários:

  1. Henrique, acompanho os seus comentários há semanas e devo-lhe a compreensão de uma visão dos acontecimentos diferente da que os media difundem. Este artigo, que encontrei hoje, pareceu-me assustador. Será mais sensacionalismo? Obrigado pelo seu trabalho.


    https://noticias.r7.com/saude/imunidade-para-covid-19-pode-durar-apenas-tres-meses-afirma-estudo-22062020?fbclid=IwAR2715He7JpeSWc0og55pHazt9YiMYuXBYQUJmiZcp0g9p_VSe3AwjNfN_M

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  2. É uma possibilidade, não sabemos (a imunidade da gripe dura cerca de seis meses, por isso é preciso vacinar todos os anos as pessoas).
    Eu diria que é uma possibilidade menos provável que uma imunidade de pelo menos um ano, que é a que têm os outros coronas, mas realmente não sabemos, vamos ter de esperar para saber.
    É uma das razões pelas quais apostar todas as fichas numa vacina e até lá fechar tudo é uma opção muito pouco inteligente.

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  3. Querem ver que a restrição do número de pessoas tem a ver com a maioria só saber contar até dez!

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  4. Agradeço a sua atenção, Henrique.

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  5. Daniel Marques cobra-nos, no mínimo, 50% da razão do porquê. Eu creio que há quem saiba contar até 20 mas só descalço...




    Irresponsáveis com autoridade [pensam eles]
    Abraços para todos [honny soit...]

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