sexta-feira, 19 de junho de 2020

Perseguir sombras

A estratégia de gestão da epidemia, em Portugal, parece ter como objectivo suprimir os contágios.


Não era esta a política definida, o que se pretendia era apenas conter a evolução da epidemia de forma a não sobrecarregar o sistema de saúde, pressupondo-se que essa sobrecarga levaria a uma escassez de cuidados de saúde, o que implicaria um aumento de mortalidade evitável.


Que haveria desenvolvimento da epidemia era consensual, que isso pressionaria os sistemas de saúde era também consensual e que haveria mortalidade também, é assim a vida.


O que se pretenderia era apenas conter a evolução da epidemia de forma a manter a procura de cuidados de saúde dentro da capacidade de resposta do sistema.


Algures, não se sabe muito bem onde - mas pode admitir-se que tenha sido quando o Imperial College, no seu famoso estudo, defendeu que todos os países que pudessem suprimir a epidemia deveriam fazê-lo porque a contenção levaria sempre a uma mortalidade homérica - a política foi alterada e passou-se para uma política de supressão da epidemia.


O resultado é que hoje tratamos cada infectado como um problema que precisa de ser contido através da supressão da cadeia de contágio potencial que lhe possa estar associada, em vez de nos concentrarmos em quem realmente está doente e precisa de cuidados de saúde.


Por isso, quando aparece alguém com sintomas, mesmo que ligeiros, testamos essa pessoa e, se der positivo, desatamos a testar toda a gente à sua volta, família, amigos, colegas de trabalho, companheiros de transportes públicos na medida em que isso for possível e falamos imediatamente em surtos quando aparecem três ou quatro pessoas que testam positivo.


Como a doença parece ser bastante silenciosa na maioria da sua extensão, e estar bastante mais espalhada na comunidade do que se pensou, há uma correlação directa entre o esforço de teste e o número de pessoas que testam positivo.


Não vou falar da famosa festa em Odiáxere - parece-me uma história muito mal contada e infelizmente a imprensa não me ajuda a ter informação sobre o que gostaria de saber - mas vale a pena olhar para o lar em Cinfães.


Uma pessoa apresenta sintomas ligeiros, é testada, dá positivo, e testa-se o lar todo, de utilizadores a trabalhadores, repetindo testes que tinham sido feitos há semanas e tinham dado negativo.


Testar pessoas a eito com testes que apenas dão resultados dentro de uma janela temporal muito pequena tem este efeito de serem completamente inúteis uma semana depois, mas saltemos por cima disso.


É claro que ao testar tudo a eito, numa instituição em que as pessoas co-habitam e forçosamente com contactos próximos entre utilizadores e pessoal de apoio, aparecem mais não sei quantas pessoas que testam positivo e sem nenhum sintoma.


A imprensa repete incessantemente o número de pessoas que testam postivo, raramente dá destaque ao facto da maioria não apresentar qualquer sintoma e prefere destacar a morte de uma pessoa com 92 anos, gravemente doente e cuja condição de saúde se vinha a degradar há semanas, sendo de esperar que morresse nas semanas seguintes, com ou sem covid.


O director do Público conclui, em editorial que houve um desconfinamento acelerado e para responder aos efeitos deste desconfinamento acelerado bastam "palavras duras de aviso, exemplos, mais fiscalização, melhores transportes, mais determinação e, principalmente, deixar de agir com o ar de que não se passa nada".


Como eu não percebi de que forma palavras duras se relacionam com festas no Algarve, surtos em empresas de Lisboa ou bairros periféricos ou poderiam ter evitado a entrada da infecção no lar de Cinfães, tenho uma sugestão mais simples: deixem de andar a perseguir sombras, parem de testar à maluca pessoas saudáveis, evitemos o que for razoável evitar de condições favoráveis ao contágio e concentremo-nos em tratar dos doentes.


Não há qualquer hipótese de suprimir o curso do vírus na sociedade, ele está espalhado, continua a fazer o seu papel de lutar pela sobrevivência dos genes e nós temos de nos adaptar a mais esta doença, que se soma aquelas com que já convivemos todos os dias.


Deixar de viver para evitar a morte sempre foi uma solução muito pouco útil.

7 comentários:

  1. Mesmo assim, há razões para termos medo com as aberturas e facilidades de  fonteiras. Pode haver propagação outra vez. Quando chegar o tempo de férias, vai haver confinação , pelas baldas ... e quando chegar o Outono e o frio, népia de abrir as escolas outra vez, na pior das hipóteses.
    Agora esta gente que foi p`rá dança em Odiáxere deviam simplesmente fechá-los nas cadeias que se encontram quase vazias e eles que se tratassem lá dentro uns aos outros, pois o Estado não é pai de ninguém, os médicos são precisos para os verdadeiros doentes, que pegam o vírus a trabalhar! Os ventiladores são poucos e necessários para quem tem de ir para os cuidados intensivos, mas não por andar a dançar, a fazer troça de quem se preocupa com o povinho, povinho que se está nas tintas para os outros. E o dinheiro é do contribuinte também... -portanto apliquem-lhe uma multa pela dança. Passa-lhes logo a vontade de dançar. 
    Morrem aos milhares. Estamos de luto! Devemos respeito e disciplina uns aos outros!

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  2. Porque se esconde isto?. Afinal este é um dado imprescindível.
    Opta-se por perseguir as sombras. Será a directivas que a comunicação social recebe dos poderes públicos -que são para cumprir pois quem paga a festa escolhe os palhaços- ou a já costumeira falta de cultura que vigora nas redações?.
    Aceita-se a primeira hipótese, pois a vida custa a todos. A segunda seria confrangedora.

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  3. Nesta historieta do Algarve, há qualquer coisa que não bate certo.
    Parece que a festa foi num dia e dois depois já havia malta infectada.
    Se o período de incubação é de 10 a 15 dias, esta gente já estava infectada antes da festa. É ou não é?
    HPS tem toda a razão quando questiona o fazer testes à "maluca" em tudo o que mexe. 

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  4. Olhe Henrique Pereira dos Santos, livrou-se [oxalá] do doente, do anormal de Ourique. Aparece logo outro com 'sotaque' transatlântico. Ou será o doente que não tomou os pingos?
    Não responda a tontices. Ainda não estou cansado de o avisar.

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  5. Excelente artigo. No fundo tratam-se de constatações quase óbvias mas que de forma absolutamente extraordinária são ignoradas ou contrariadas pelas acções dos políticos, e completamente abafadas pela comunicação social.
    Eu nunca fui adepto de teorias da conspiração, mas confesso que cada vez mais me fica difícil acreditar que tudoo isto se deve apenas a incompetência e histeria collectiva...
    Oriento-me frequentemente pelo aforisma que diz qualquer coisa como:  "Nunca atribuas à maldade aquilo que pode ser facilmente explicado pela estupidez humana".
    Mas começa a ficar difícil...

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Sabendo de como é coisa complexa e eu sei pouco do assunto, não perdi muito tempo a ver os pormenores das alterações ao código do trabalho. ...