domingo, 7 de junho de 2020

Não estou interessado

Não sei de onde apareceu esta quase unanimidade à volta da ideia de que a sociedade se deve organizar em torno de uma ideia única: defender-se de uma epidemia.


Eu não estou interessado em sociedades que se organizam em torno de ideias únicas, sejam elas a defesa em relação a uma epidemia, a gestão da alteração climática, a criação de um homem novo, o fim da pobreza, etc., etc., etc..


Eu gosto de sociedades diversas, "Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós."


Não estou interessado em sociedades em que todos se olham de lado, procurando manter distâncias de dois metros, sociedades em que os avós, os tios e etc., não podem pegar nas crianças, sociedades em que sistematicamente se esconde a franqueza do sorriso, sociedades em se decide que as grávidas infectadas - e podem nem sequer estar doentes - não podem ter acompanhamento nos partos para não infectar os que lhe são próximos, etc., por aí fora (quem quiser ter uma visão mais profunda do terror autocrático que as boas intenções podem gerar devem consultar esta página).


Não estou interessado numa sociedade em que a imprensa se põe ao serviço da opressão, como nesta peça do Observador, em que o jornalista Edgar Caetano se limita a ir atrás da conferência de imprensa da OMS, sem se dar ao trabalho de ir às orientações realmente produzidas pela OMS, que não dizem nada do que o jornalista diz que dizem (tiro o chapéu ao facto de, ao contrário das versões iniciais da peça, agora já haver uma ligação para as recomendações da OMS, onde claramente se pode ler "Results from cluster randomized controlled trials on the use of masks among young adults living in university residences in the United States of America indicate that face masks may reduce the rate of influenza-like illness, but showed no impact on risk of laboratory-confirmed influenza.(62, 63) At present, there is no direct evidence (from studies on COVID-19 and in healthy people in the community) on the effectiveness of universal masking of healthy people in the community to prevent infection with respiratory viruses, including COVID-19.", para além de ser evidente que a OMS não recomenda o que o jornalista diz que recomenda, apenas altera a orientação anterior para dizer que se pode considerar essa hipótese, em circunstâncias muito restritas, e com base em ideias muito científicas como diminuir a estigmatização de que tem de usar máscara por estar doente).


A coisa é simples: eu não quero optar entre defender-me de uma epidemia ou perder liberdade, eu quero defender-me da epidemia em liberdade e usando o juízo de cada um em cada circunstância, sem prejuízo, evidentemente, de haver circunstâncias em que se definam limites à liberdade de cada indivíduo.


Só que essas circunstâncias e essa limitação não pode ser entendida como sendo uma questão técnica, essas circunstâncias e essas limitações são sociais e políticas, todos temos o direito de as questionar e decidir sobre elas.


Não estou mesmo nada interessado em sociedades em que se determina que os balneários de um ginásio, mesmo que tenham cabines individuais, não pode ser usado, sem que haja uma só alminha que explique qual é a razão para essa limitação.


Não estou interessado em sociedades em que o medo se combate a fazer dezenas de regras absurdas ou sensatas (infelizmente mais das primeiras que das segundas), mas sim naquelas em que o medo se combate com informação e transparência.


O facto de haver tanta gente disponível para apoiar o campo da limitação das liberdades por funcionários anónimos, sem questionar, e o facto de entre essa tanta gente estar tanto jornalista, parece-me profundamente deprimente.

7 comentários:

  1. sociedades em que os avós, os tios e etc., não podem pegar nas crianças

    A mim parece-me muito razoável que os avós não possam pegar nas crianças. Eu acho bem que as crianças tenham a liberdade de se infetar, porque o vírus a elas não faz (em geral) mal. Mas, em compensação, os avós devem proteger-se, o que inclui diminuírem ao máximo o contacto com aqueles, como as crianças, que podem estar infetados.

    Sou a favor da liberdade da generalidade das pessoas se deixar infetar, mas não estendo essa liberdade aos idosos e pessoas suscetíveis, as quais têm a obrigação de se proteger.

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  2. Lavoura.

    Para não estar a qualificá-lo, porque poderia ser lisonjeiro para si, pergunto-lhe: porque carga de água não estende você "essa liberdade aos idosos e pessoas suscetíveis".
    Explique-me as razões pelas quais, para si, os idosos (por exemplo) não teriam a liberdade de se deixar infectar, mas o dever "a obrigação de se proteger". Estarão dementes, para alguém tomar a liberdade (ou assumir o direito) de lhes sonegar a sua? Ou o demente, no caso, será outro.
    Você tem com cada uma...

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  3. Tem uma boa dose de razão em criticar a inconsistência (ou, se quisermos, a falta de radicalismo) da minha posição.
    Eu penso que os idosos têm a obrigação de se proteger do coronavírus, da mesma forma que considero correto que as pessoas que viajam de motorizada sejam obrigadas a usar capacete, e que as pessoas que viajam de automóvel sejam obrigadas a usar cinto de segurança. Apesar de aquilo que está em causa em todos estes casos ser, basicamente, somente a proteção da saúde do próprio.
    Aliás, também consideraria que todas as medidas de segurança obrigatórias seriam justificadas se estivéssemos perante um vírus realmente perigoso - como o ébola ou a varíola - e não somente perante um vírus que, para a ampla maioria da população, é e sempre foi reconhecidamente inofensivo.

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  4. Lavoura.
    Queria pedir-lhe desculpa por dois lapsos meus no comentário que aqui deixei sobre os seus comentários.

    O primeiro desses lapsos foi ter publicado o meu comentário como anónimo, não que quisesse fornecer-lhe a minha identificação, mas porque costumo assinar os meus comentários com as iniciais dos meus nomes, para assim qualquer interlocutor facilmente me identificar enquanto comentador. O outro lapso foi não lhe ter declinado a minha idade, pois com 71 anos já cumpridos me incluo na categoria dos idosos.
    JMC

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  5. Lavoura.
    Em casa alheia (este blog) eu não costumo replicar a comentadores; no meu faço o que entendo. Mas não resisto a quebrar a regra e comentar o seu último comentário.
    Diz você que a minha razão no meu comentário fora a sua “falta de radicalismo”. Ou me engano muito ou você ainda não compreendeu quanto radical é a sua posição.
    Parece que você confunde um direito (de toda a gente se defender de epidemias, de outras doenças, de perigos de acidente, da violência, enfim, seja do que for) com a obrigação de se defender que não decorra da sua própria vontade.
    Os casos que você invoca não dependem apenas da vontade própria, mas da vontade de terceiros, que o Estado entende proteger (seguradoras, possibilidade de o próprio se defender se assim entender, etc.), que por isso não me parecem pertinentes para a discussão.
    JMC

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  6. (continuação, que para os comentários o Sapo parece disponibilizar pouco espaço).
    Também me parece que você ainda não compreendeu o que esteve (e, de certo modo, ainda está) em causa com a leviandade e a irresponsabilidade da imposição do “estado de emergência” e o confinamento residencial obrigatório, suspendendo liberdades e outros direitos fundamentais a toda a gente (incluindo a gente saudável, que não andava por aí a ofender qualquer direito alheio, por exemplo, a propagar qualquer doença, a epidemia ou outra) e ampliando os efeitos de uma crise económica (que de certo modo resultava da desarticulação das cadeias de produção por todo o mundo devido aos primeiros embates, alarmantes, da epidemia nalguns países, mas que poderia ser mitigada, principalmente quanto ao mercado interno). </p> <p class="MsoNormal" style="margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;line-height: normal">E isto não tem nada a ver com a perigosidade do vírus, mas com a liberdade e o autoritarismo de gente que parece preocupar-se apenas com o poder (e a sua manutenção a todo o custo) e com a falta de espírito crítico, mormente por parte dos jornalistas, que leva a aceitar como verdades inquestionáveis e decisões a elogiar e propagar o que não passa de meras opiniões (e muitas delas irracionais). Isto tem apenas e tão só a ver com a nossa indigência intelectual e fraco apreço que temos pela liberdade.
    Esta gente que manda parece já ter caído em si, embora se esfalfe a disfarçar, tal o afã com que andam por aí a promover o desconfinamento e a reanimação económica. Os dois artistas-mor até já andam afadigadamente a trabalhar para o bronze…
    JMC

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